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26/07/2015: "Doze cestos cheios"

Comentário ao Evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum: Jo 6, 1-15

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Surpreendente: como tão pouco é capaz de alimentar tanta gente?

É o milagre da prodigalidade de Deus, dizem alguns. A ele, tudo é possível. Alimentar cinco mil homens com cinco pães e dois peixes (Jo 6,1-15), ou uma multidão menor com alguns pedaços de pão (2Rs 4,42-44). Em proporções bem menores, a ele aprouve sustentar uma viúva em Sarepta, com seu filho e o inquilino profeta, contando apenas com alguma farinha e pouco óleo, fazendo-os multiplicar por certos dias (1Rs 17,9). Deus se preocupa com seus filhos – estamos convictos disso – e faz milagres para suprir suas necessidades. Mas só ontem? E hoje, quando milhares de centenas morrem de fome? Tornou-se impossível para Deus ajudar os famintos de agora?

É o milagre da partilha, dirão outros, os comprometidos com as causas sociais, que certamente também são as causas do Reino. Aliás, a falta de pão não é só um problema social, mas um problema teológico, pois Jesus mesmo disse que onde há um irmão com fome e que não é alimentado, é a ele que se nega o alimento (cf. Mt 25,35). Sem sombra de dúvida, o Reino de Deus passa por alimentar os famintos e temos os meios para isso em nosso país. Mas os poderosos são indiferentes e, enquanto não formos corajosos para sermos profetas ou inteligentes diante da corrupção, do mau uso do dinheiro público e de nossas riquezas naturais, sobra-nos a alternativa – também evangélica – de tirar do pouco que temos em favor dos outros. Entretanto, o texto não quer dar a entender que Jesus veio “para distribuir cestas básicas ou ser eleito prefeito pelo povo” (J. Konnings). Ele mesmo se retira quando querem proclamá-lo rei. Tampouco o texto evoca uma simples partilha, como se todos tivessem tirado do bornal o que tinham para colocar em comum.

Não é milagre algum, dirão os que entendem o texto de forma simbólica, acrescentando que ele não tem a ver com a economia nem com a política… Os pães referem-se à eucaristia e os peixes ao batismo. São os dois sacramentos que os discípulos devem abundantemente distribuir para a multidão, a fim de que se recolham doze cestos, de que se reúna a Igreja dispersa pelo mundo. Uma leitura muito bonita, mas arriscadamente vazia se não perceber que o Reino não é simplesmente dispensar sacramentos, ou se esquecer de que o Reino não tem nada a ver com proselitismo religioso.

No alto da montanha, talvez seja essa a revelação de Jesus; sentado diante de uma multidão, talvez seja esse seu ensinamento: Deus não quer suas ovelhas sem pastor (cf. Mc 6, 34), nem quer que os seus morram longe da vida, enquanto outros vivem à saciedade (cf. 1Rs 22,39; Mc 6,21-29; Am 6,1-3) nem ontem, nem hoje. Nem às viúvas, nem aos órfãos, nem aos pobres que são tantos e de diversos tipos.  Deus quer que o pão seja partilhado com consciência e quer a promoção da humanidade em sua inteireza, ainda que para isso seja preciso o “milagre das mãos vazias”, aquele que acontece quando percebemos que também o nosso pouco vale muito para muitos e que, também lá, quando achávamos não ter nada a oferecer, fomos capazes de saciar outras fomes, que não só as de pão. Mas, sobretudo, o ensinamento nos mostra que Deus oferece Jesus como pão. Ele não é só a Palavra de Deus, mas o Pão que alimenta e dá vida, saciando a fome mais radical do ser humano – é o que acompanharemos daqui para frente, nos evangelhos tirados de João.

Uma confiança em Deus sem nada fazermos é ingênua; a partilha dos dons como atividade social é importante, mas dar pão apenas não mata a fome e não resolve o mal da injustiça. Dar vida e distribuí-la abundantemente, mesmo quando cremos poder tão pouco, mesmo quando ainda estamos tão decepcionados do pouco que somos ou temos (cinco pães/dois peixes), eis o segredo do evangelho. O que pode nos surpreender diante de tão pouco é que, atrás de nossa ação humilde, às vezes rasa e desimportante, Deus decididamente recolhe doze cestos e cheios…

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Por, Pe. Eduardo César

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