Diocese de Uberlândia Em Destaque Reflexões Dominicais

27/04/2014: oito dias depois

Comentário ao Evangelho do 2º Domingo da Páscoa: Jo 20, 19-31

jesus_mãos

Os primeiros discípulos de Jesus não tiveram menos dificuldade do que nós, diante do desafio de expressar e descrever aquela experiência de reencontro com seu Mestre, após a tragédia da cruz. Uma experiência na qual toda desilusão se faz de novo esperança, toda angústia se refaz em alegria, toda incerteza se veste da convicção da fé e toda a ausência se transforma em nova presença. Uma experiência de renascimento, capaz de transmutar a vida inteira, de refundar os sonhos, de reencorajar as covardias e perdoar as tibiezas. Uma experiência capaz de devolver calor e abrasamento às cinzas já extintas e de restaurar os caniços irreversivelmente rachados. Uma experiência que pode bem ser descrita como um “terceiro dia” – a hora madura, o ciclo completo, a hora de Deus – ou como o pleno amanhecer de uma madrugada grávida de arrebol, por mais profundas que tenham sido as trevas e mais espesso o negrume da noite. Ou ainda como um acalmar do mar tempestuoso, uma fartura de pão muito para além de qualquer carência, uma ressurreição ou uma passagem – Páscoa – da morte perdida à vida para sempre reencontrada.

Assim, foram muitas as narrativas que nasceram não tanto da imaginação religiosa, mas da busca sincera dos discípulos em transmitir aquela verdade que só com o coração se é capaz de compreender: de que o fim assombrador que vitimou o Mestre Jesus não foi apenas fruto da maldade e da mesquinhez humanas, mas do embate entre nossa teimosa incompreensão ou insistente recusa e a decisão tomada pelo Pai do céu de, desde toda a eternidade, nos amar sem medida e sem limite. E ainda mais: de que, por sua entrega oferente, Jesus se revelou verdadeiramente o Cristo, o Filho de Deus, que assumiu nossa humanidade e nos abriu o caminho de uma vida que atravessa a morte e plenifica a vida.

Em todos esses relatos, o leitor é convidado a percorrer quatro passos de um misterioso itinerário. Primeiro, há um cenário de desalento e dor. Hoje, os discípulos estão atrás de portas fechadas. Talvez porque estejam de coração fechado? Ou fechadas se encontrem as portas de suas esperanças? Em outros textos, essa mesma situação se descreve como um caminho demasiado longo, um túmulo vazio, um silêncio desalentador… mas sempre será uma situação de morte, de perda, de medo. O segundo passo é a inserção de uma Presença que se deixa ver, mas difícil de reconhecer à primeira vista. Afinal, é difícil ver com clareza quando aquele que se transformara na luz de nossos olhos se foi e parece ter nos abandonado às trevas. Essa Presença pode ser um jardineiro, um forasteiro que caminho junto, um homem de pé na praia… Conforme o terceiro passo nos revela por meio de um sinal distintivo, essa presença será sempre Jesus. No texto de hoje, Jesus mostra aos discípulos as mãos e o lado, traspassados pela violência da cruz – sinal de que as dores e as ofensas, uma vez perdoadas, já não doem mais. Em outros relatos, pode ser um pão partido, uma pesca extraordinária, um chamamento pelo nome… mas sempre será um sinal inequívoco de que o Ressuscitado que se apresenta é o mesmo Jesus, que vivera com os seus e que fora crucificado. E a misteriosa presença se revela como reencontro com o amado que modificara suas vidas. Por fim, o quarto passo: os discípulos se alegram de maneira indizível, recuperam a coragem perdida, recobram o ânimo e anunciam o Ressuscitado. Uma confissão de fé, um retorno apressado para junto dos irmãos, uma urgência incontrolável em passar a diante a melhor de todas as boas notícias: de que Jesus está vivo e disso eles são testemunhas.

Uma particularidade do relato deste domingo é o dilema de Tomé. Talvez seja uma injustiça chamá-lo simplesmente incrédulo. Pois, quando estiver diante do Senhor, “oito dias depois”, Tomé não precisará tocar suas chagas para crer. Esse discípulo busca aquilo que muitos de nós também poderíamos buscar: a autenticidade da fé, não apenas de ouvir dizer, mas a partir de um encontro com o Senhor. A fé da comunidade não dispensa ninguém dessa busca. Pois, em algum momento, é preciso que essa fé anunciada a nós, a fé “de nossos pais”, se torne “a nossa fé”, assumida pessoalmente como escolha livre e madura. E isso não constitui incredulidade, mas desejo de profundidade.

Que nos atentemos a essa Presença misteriosa que nos acompanha nos duros caminhos da vida, sobretudo nas noites mais escuras, nos invernos mais rigorosos e nas estradas mais árduas. E, num encontro com Ele, cuidemos de abrir bem os olhos para reconhecer novamente aquele que nos renovou a vida e plantou em nossa esperança sementes de ressurreição.

_________________

Por, Frei João Júnior ofmcap

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!