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27/10/2013: "entre deuses e homens"

Haverá, ainda hoje, quem se ache justo o bastante a ponto de desprezar os outros? Quem se enalteça por suas boas obras, por seu reto fazer (perfacere); quem se sinta, enfim, perfeito entre todos, mais nobre e superior em relação a um resto que não passa de uma raça medíocre? Ainda hoje e sempre…

Sempre existiram os puristas, os rigoristas, os que se achavam elevados, dispostos a colocar sobre o banco de réus os imorais, os errantes. Sempre existiram os soberbos que do alto de sua vaidade só conseguiam tematizar a própria justeza e moral. Sempre os que acharam pertencer a uma raça melhor, a uma cultura incólume. Os que se julgaram sábios em detrimento de outros.  Na religião também: sempre houve os que se acharam proprietários da divindade ou dignos de estar na presença de Deus. Os que se sentiam tão deuses quanto Deus, se já não o depuseram de seu ‘trono’.  Pois bem, talvez, por isso, ainda precisássemos ver os dois homens da história de Jesus subindo ao templo.

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 O primeiro pode entrar tranquilamente; pratica as obras da lei, é justo e não há nenhuma insinuação de hipocrisia. Reza a Deus confiante e diante de tanta retidão, só se pode esperar que Deus agisse conforme o esquema religioso vigente (ao fiel, bênçãos). O outro é publicano, mal visto pelo povo e indigno de adentrar no templo sem purificação; justamente ali, onde estiveram as tábuas da lei, ele, que não vive nenhuma prescrição dessa lei, não pode estar. Sua oração não promete conversão, nem promete deixar o emprego, ou retribuir quatro vezes mais o que roubou (diferente de Zaqueu – Lc 19, 8 e certamente por não ser rico). Só lhe resta entregar-se à compaixão de Deus e pedir-lhe misericórdia.

Por isso o publicano volta justificado para casa: porque se abriu à misericórdia. O que falta ao fariseu justo, em quê ele precisa ser justificado? Na realidade, perante Deus, ninguém pode se dizer justo; sempre há em nós algum desajuste, mesmo um olhar de desprezo para quem não julgamos corretos (“não sou como os outros homens”). O fariseu não volta para casa justificado, porque em momento algum louvou a Deus, mas louvou a Deus por sua vida religiosa primorosa; ele é seu próprio objeto de culto. Afogado em sua própria imagem, esse homem está fazendo de Deus um simples instrumento de testificação da própria integridade. E comparando-se com o outro, ele se está colocando como o padrão de medida. E porque ao publicano, pelo contrário, só sobra o amor de Deus, ele se entrega. Sente-se um pobre pecador, põe-se como se sente de fato: pequeno – longe de todo cinismo, longe de toda falsa modéstia.

Jesus mostra com essa parábola que Deus é imanipulável – não está preso a lógicas religiosas. Explicita que não é a lei que salva, nem a prática religiosa piedosa, mas a misericórdia. Continua deixando claro para quem veio. Escancara que o; “sede santos” (Lv 19,2) ou o “sede perfeitos” (Mt 5, 48) não está desconectado do “sede compassivos como o vosso Pai é compassivo”(Lc 6, 36). Só há santidade, no sentido cristão, onde há amor misericordioso e não busca irrefreável por uma retidão que no fundo é “vontade de poder”. Onde há justiça que é solidária e não autocentrada. Em Jesus, descobrimos que os que vivem louvando a própria grandeza, na realidade, são apequenados interiormente, enquanto, os verdadeiramente grandes, são aqueles capazes de se fazerem pequenos com os pequenos, ou os que entenderam seus próprios limites e os lançaram, como gota d’água, no oceano da misericórdia divina.

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Por, Diácono Eduardo César

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