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28/06/2015: "O fundamento e os pilares"

Comentário ao Evangelho da Solenidade de São Pedro e São Paulo: Mt 16,13-19

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À revelia do que esperamos, tantas vezes, a beleza da vida está em que as pessoas não são para nós espelhos, mas diferenças. Os diferentes, quando se dão as mãos, acabam por enriquecerem-se mutuamente. Mesmo quando em conflito – nem todo conflito é ruim – descobrem, se estão abertos a isso, o tesouro escondido nas dessemelhanças. Pois, seguramente intuindo a beleza da diversidade, eis que a Igreja juntou numa mesma solenidade, esses dois personagens tão distintos.

De um lado está Simão (Shimon: ele – Deus – ouviu), um pescador certamente rude, provavelmente tosco e inculto que, justamente por isso, deve ter merecido de Jesus o apelido Kefa/Kephas (pedra). De outro lado está Saulo (Saulos/Saul= aquele que foi pedido aos céus), dotado de arguta inteligência, perseguidor da seita dos nazarenos e derrubado das alturas de sua fé num deus legislador, ao encontrar o Deus crucificado-ressuscitado (At 9,1-9), tornando-se apenas Paulo (o pequeno). O primeiro, discípulo da primeira hora, disposto a permanecer com Cristo mesmo que todos o abandonassem (Mc 14, 29), movido por qual ímpeto senão o de um amor corajoso? Capaz de decepar a orelha de um soldado para defender o mestre (Jo 18,10-11), mas também um traidor, homem frágil – não é o que escondemos atrás de toda força: fragilidade? – e que nega conhecer aquele que prometera defender até o fim. Doutro lado, um legislador, conhecedor profundo da lei, estudado numa das melhores escolas rabínicas de então, um perseguidor atroz, convertido de homem da lei a discípulo da graça.

Entendiam-se? Muitas vezes não (Gl 2,11-21). É a graça da diferença, aliás muito necessária à Igreja de todos os tempos. Que haja desentendimento, que haja “Paulos”, gente que realmente tenha feito a experiência do Ressuscitado e que seja capaz de enfrentar os “Pedros”, os apóstolos, quando esses são irreflexivos e estão apartados da Boa Notícia. Mas que haja Pedros, também, para nos mostrar a fraqueza do que é douto e a beleza de dar a Cristo, ainda que não seja à sua medida, o nosso amor humilde (Jo 21,15-19). Respeitavam-se? Dizem as Escrituras que eles se deram as mãos (Gl 2,9), pois também isto é preciso depois de todo conflito, para a Igreja e para o mundo: que as diferenças se abracem.

Homens importantes para a fé são, certamente, Pedro e Paulo; colunas para Igreja, como atestam nossas liturgias e nossa piedade. Não são, portanto, o fundamento. E aqui está o ponto fulcral que os une: reconhecer quem é a Pedra de construção desta Igreja, Jesus Cristo. É sobre a pedra desta confissão, a que Pedro faz, representando toda a comunidade; a de que Jesus é o Messias, o filho do Deus vivo, que Jesus fundamenta sua construção. Não sobre Pedro, diga-se logo. Jesus dá a ele, e a toda a comunidade, não poder, mas o serviço de fazer crescer o Reino, combatendo o antirreino (as portas do inferno). Dá à comunidade também o direito de regular a comunhão e a excomunhão daqueles que já não estão mais unidos a ela, mas não sem que eles saibam, anteriormente, que o critério é manter sempre a unidade e a comunhão verdadeira, pela graça da reconciliação.

Recordar Pedro e Paulo é, portanto, exercício rico para a nossa fé, porque nos lembram de duas coisas fundamentais, dentre muitas. A primeira: mesmo presos ou perseguidos (1ª leitura) é preciso combater o bom combate e guardar a fé (2ª leitura) na convicção de que Deus não nos deixa entregues ao poder da morte, única convicção capaz de nos sustentar diante das crises da vida; única confiança capaz de manter o testemunho de Pedro e de Paulo. A segunda: enquanto Igreja, precisamos redescobrir sempre a importância de grandes exemplos e de figuras tão paradigmáticas quanto a de Pedro e de Paulo, mas jamais poderemos esquecer qual é o verdadeiro fundamento de nossa fé: Cristo. Para testemunhá-lo, não precisamos ser iguais, pois as diferenças se complementam e são suscitadas pelo próprio Espírito. A Deus, assim parece, não interessam apenas uma sabedoria e uma argúcia precisa (Paulo), nem tampouco apenas um amor impulsivo e irrefletido (Pedro), mas a sabedoria de amar.

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Por, Pe. Eduardo César

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