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28/09/2014: "Fiéis ao coração"

Comentário ao Evangelho da 26ª Semana do Tempo Comum: Mt 21,28-32

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É comum ouvir alguém praguejar contra o tempo em que vivemos, descrevendo a atualidade como tempo de perda dos valores mais elementares. Respeito aos semelhantes, reconhecimento da alteridade, fidelidade conjugal, constância nas opções de vida… tudo que lembre compromisso ou insinue sacrifício parece não ter mais lugar num quadro moral que hipervaloriza a realização pessoal e sentimento permanente de prazer e bem-estar – assim afirmam alguns. E não é raro que, para criticar os tempos de hoje, alguém idealize os tempos de ontem, como se, no passado, a vida rigidamente regrada por certos valores não conhecesse também suas crises e incertezas, seus dilemas e sofrimentos, suas necessidades legítimas de transgressão.

Nosso tempo, porém, tem demonstrado que também os valores mais clássicos possuem suas fragilidades e insuficiências, quando os discursos morais mais severos se põem a serviço de numerosas opressões e perversidades. Talvez, a grande redescoberta de nosso tempo, já há muito ensaiada, seja a de que o assentimento à verdade, por mais sagrada que seja,  parte de dentro e não de fora, principia por uma resposta pessoal e convicta e não deriva de uma obrigação formal, nasce da aceitação interior livre e não da obediência cega à rigidez da norma. E que a fidelidade a alguém ou a uma promessa ou uma decisão exige, em primeiro lugar e de modo irrenunciável, a fidelidade ao próprio coração.

Os Evangelhos são pródigos em exemplos de pessoas que vivem de uma imagem perfeita de si mesmas, embora sua vida não corresponda àquilo que seus lábios proclamam – essas receberam as mais duras críticas de Jesus: “sepulcros caiados”, “raça de víboras”, “serpentes”, “guias cegos”, “hipócritas”. Também a tradição profética de Israel já advertira quanto à estreita ligação entre o culto a Deus e os compromissos da vida prática, de sorte que, se o coração não se puser em sintonia com os atos de piedade, se a vida não se esforçar desde dentro para corresponder àquilo que se proclama com os lábios, a oração será vazia e os gestos corretos apenas um exercício cego de hipocrisia.

Assim, são compreensíveis as palavras do evangelho de hoje: cumpre a vontade do pai aquele filho que, mesmo a tendo negado com os lábios, realiza-a na vida; ao passo que desobedece aquele que concorda com os lábios, mas não a cumpre de fato. Mateus é claro: o consentimento e a fidelidade que não nascem do coração não passam de desonestidade e prostituição. E, nisso, “prostitutas e publicanos precedem no Reino”, pois eles, ao menos, são coerentes no que dizem e fazem, em vez de dissimularem as próprias misérias. No fundo, bem sabemos: uma decisão ou um compromisso, se não assumido com a inteireza do coração, não será nunca cumprido e conduzirá às águas incertas da frustração; um amor, se não brotado e cuidado desde as profundezas indivisíveis da alma, não será amor de verdade, mas apenas joguete de dominação; uma fidelidade, se não alimentada desde o mais íntimo e sincero desejo do espírito, pode até evitar o adultério, mas resultará apenas em hipócrita prostituição dos afetos.

Que nos esforcemos, sim, por conduzir nossa vida com obediência e fidelidade. Mas não nos esqueçamos de que toda obediência e toda fidelidade precisam brotar da terra fértil do coração e nela lançar suas raízes. Que sejamos muito reticentes no julgar, pois o coração é terra santa e impenetrável a nossos juízos provisórios, cabendo só a Deus a palavra definitiva. E que, nas graves decisões de nossa vida, ouçamos com reverente obediência e devotada fidelidade a voz do coração, de onde brota a fé e a partir de onde, frequentemente, nos fala Deus.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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