Diocese de Uberlândia Em Destaque Reflexões Dominicais

29/05/2016: “Definitiva e aberta”

Comentário ao Evangelho do IX Domingo do Tempo Comum: Lc 7, 1-10

A história de como a experiência de Deus fez morada no coração humano se assemelha a uma longa gestação ou a um paciencioso encontro de amor. Ainda que se possa despertar o desejo ou o interesse à primeira vista, o primeiro olhar não é ainda o olhar do amor. Tornar-se amante e descobrir-se amado exige cuidadosa paciência e cultivo reverente, noites de esperas insones e entardeceres de interminável saudade. Somente quando a vida se torna pequena para tanta presença, curta para todo o carinho e breve para conter em si o seio da eternidade, somente aí se pode dizer: eu amo. E nesse moroso enraizar do amor, não é possível apressar os passos, tal como não se acelera o crescimento de um broto, ou o desabrochar de uma flor, ou um nascer do sol. Como numa gestação, em que cada instante de espera já é pleno de realização, mesmo pendente, assim se deu a experiência de Deus em nós: nos limites de nossa compreensão e nas estreitezas de nossas linguagens, Deus mesmo se fez dizer, apresentou-se com Presença, amou e se deixou amar.

Em Israel, a experiência de desprender-se do abismo da escravidão para florescer nos campos da liberdade – a Páscoa do Egito – cravou no coração do povo uma certeza inabalável de que Deus conduzia sua história. “Nosso” Deus conduz a “nossa” história – em detrimento de outros deuses e de outras histórias, se necessário. O “Deus da nação”, profundamente identificado com o território, o templo e o governo do povo, foi a primeira síntese desse longo itinerário de fé.

Não é possível, porém, permanecer com os olhos de criança quando a vida pede atitudes de maturidade. A dureza do Exílio na Babilônia obrigou a ressignificar o “Deus nacional”. Fora da terra-mãe, sem templo e sem rei legítimo, o povo redescobriu a presença de Deus como companhia certa, nos caminhos mais incertos: Deus nos escuta sempre, em todo lugar. Onde um coração se abrir em prece, lá será o templo de Deus; onde o povo se reunir para ouvir sua palavra, lá Ele estará presente; onde quer que as relações de fraternidade forem realmente sólidas, ali será nosso país. E, se a terra inteira é de Deus, não existe lugar para sentir-se estrangeiro do seu amor.

De volta à terra de Israel, muito cedo se descobriu que, mesmo com o templo restaurado, não era possível simplesmente voltar ao “Deus nacional”. O exílio havia ensinado um novo modo de se relacionar como Ele. Foi quando nasceu a compreensão de Israel como “luz das nações”: Deus nos escolheu e elegeu não como privilégio que exclui as nações, mas como sinal de sua presença e de seu amor para todos os povos. Por isso, no templo haveria lugar para todos os que quisessem se aproximar com o coração em festa ou imerso em lágrimas; a casa de um israelita deveria estar sempre aberta para que nela o estrangeiro se refizesse da jornada; e, no último dia, o monte do Senhor se elevaria para atrair a todos e recolher toda a história humana num derradeiro gesto de amor, que duraria para sempre.

Aqui se encontra o nascedouro da fé cristã. Para os primeiros seguidores de Jesus, esse “último dia” já chegou. Na vida de Jesus, em cada gesto de seu amor generoso, no grito abandonado de sua cruz e na luz resplandecente de sua ressurreição, o Pai pronunciou a palavra definitiva sobre o mundo e o ser humano. Não uma definitividade fechada, excludente ou petrificada, como se Deus nunca mais nos falasse. Mas uma definitividade aberta, plena de sentido, capaz de tocar por dentro e arrebatar a vida humana, transfigurar o mundo e convidá-lo à plena realização – tal como numa relação de amor. A partir de Jesus, sabemos que, se quisermos encontrar a presença de Deus, devemos procurá-la nas entranhas da existência, nas encruzilhadas da vida, nas dores e nas alegrias que nos fazem viver. Pois assim foi com Jesus e essa é a palavra definitiva de Deus – tão ampla e tão profunda que todo ser humano por se sentir destinatário dela.

Talvez seja por isso que o Novo Testamento insista em apresentar Jesus tão simpático aos excluídos e tão admirador da fé dos estrangeiros. Sem as seguranças da Lei de Moisés, esses errantes da história se aproximam de Jesus sem garantias e sem merecimentos. Possuem apenas a fé, uma chama que os lança aos pés do Mestre, sem medo, com aquela coragem de derramar o coração, própria dos amantes. Alguns correm até Jesus, falam de suas angústias, pranteiam aos seus pés, confiam-se às suas mãos. Outros, como no evangelho de hoje, sequer sem aproximam, nem se atrevem a erguer os olhos, mas de longe apelam à sua bondade e à sua misericórdia. Em todos, a mesma atitude fundamental: a fé, que faz esperar contra toda esperança e ainda desejar, quando não há mais razões para se manter de pé. E isso não inclui, necessariamente, a pertença a um povo escolhido e privilegiado; é própria do coração, lá onde Deus pronunciou sua palavra, aberta e definitiva.

_______________________

Por, Frei João Júnior ofmcap

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!