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29/06/2014: "Pedro e Paulo, paradigmas de um mistério"

Comentário ao Evangelho da Solenidade de Pedro e Paulo: Mt 16,13-19

Pedro e Paulo grafite sec. 4 - Museu laternanse - Roma - Livro Sulle orme di Paolo

A Igreja foi sempre compreendida como um mistério uno e diverso. Múltipla em carismas, como um corpo em que cada membro desempenha sua função indispensável para a harmonia do todo (Rm 12, 5); suscitada pelo Espírito como aquela em que se falam muitas línguas, embora uma mesma Mensagem comunicada crie um elo linguístico e afetivo entre todos (At 2, 1-13). Portanto, nunca houve tão fortemente em nosso meio essa tentação que vemos hoje: a da uniformidade, posto que o outro extremo nós por vezes verificamos: a diversidade pendendo para o sectarismo, para a dissensão. Nem uniformidade, nem separatismo; precisamos, isso sim, de uma forma equilibrada de encaminhar nossa vida eclesial, a saber: respeitar a diversidade vivendo na comunhão una e indivisível que o Espírito gera em sua Igreja.

Há outras muitas tensões presentes nesse mistério eclesial: a Igreja é santa e pecadora; sacramento atuante do Reino de Deus já presente e peregrina rumo ao Reino definitivo; instituição e carisma, mãe e mestra. Tais tensões não deveriam ser banidas nem teoricamente, pois elas mantêm o fogo de nossa fé e de nossa razão, vivo e aceso. É bem sabida, entretanto, a dificuldade em burilar os excessos, em manter a justeza do meio termo, em sopesar o que é bom e ruim e manter-se no equilíbrio. E talvez, também por isso, a tensão seja benfazeja, pois se a perdemos, focando apenas um aspecto de cada antítese, podemos redundar em ideologias, em posturas reacionárias, em fundamentalismos.

Aqui, quem sabe, se encontre mais um bom motivo para celebrar esses dois pilares de nossa fé: Pedro e Paulo. Ambos são bastante distintos, mas engajados na mesma missão de testemunhar a Boa-Nova. O primeiro, Pedro, é o homem rude convertido em pregador ousado do Cristo, o pescador transformado em “pescador de homens”. O segundo, Paulo, o perseguidor convertido em apóstolo dos gentios. De homem da Lei, transformado em testemunho da Graça. O primeiro é exemplar do amor frágil; aquele que pretende defender o Cristo, mas que o nega traindo sua própria verdade e, mesmo entre limites, diz convicto no fim: “Senhor, tu conheces tudo, e sabes que eu te amo” (Jo 21, 17). O outro, representante da inteligência interior à nossa esperança, aquele que combate o bom combate, termina sua carreira, guarda a fé e oferece a própria vida em louvor a Deus. (2 Tm 4,7; Rm 12,1). Pedro vive com o Mestre, responde bem quando Cristo pergunta aos discípulos sobre sua identidade, é constituído pedra sobre a qual se erguerá a Igreja; a ele é dado primeiro o que é dado posteriormente a toda comunidade: o poder de ligar e de desligar, de obrigar ou deixar livre. Antes de ser um chaveiro, ele é o responsável pela Igreja; presta-lhe um serviço, qual seja: o de dar força a ela, de confirmá-la na confiança (Lc 22, 32). Já Paulo, não viveu com o Mestre, mas fez experiência do Ressuscitado. Para ele nada é mais importante do que isso. Considera-se, audaciosamente, um apóstolo, ainda que o menor entre eles, sem necessitar da autorização daqueles que viveram com o Cristo (Gl 1, 15-17). Sua postura é carismática, missionária.

Por isso, celebrar Pedro e Paulo é falar quase de dois arquétipos que sinalizam bem o que a Igreja sempre foi: diversa, pois eles eram diferentes, mas una, porque de formas distintas eles carregavam na palavra e na gesta, o mesmo Amor. Também, ambos, eram pecadores; um age impulsivamente (Mc 8, 32s) e traz à boca uma palavra que não traz no coração (Jo 18, 17); outro faz o mal que não quer (Rm 7,19). Mas, santos, porque empenharam a liberdade fundamental em fazer conhecido o Evangelho que lhes fora confiado e que salvara suas vidas. Assim, sinalizam também a Igreja santa e pecadora. Pregavam Jesus vindo-na-carne e sua volta e por isso, deixaram as marcas do anúncio da Igreja: ser o já do Reino, proclamar o seu ainda-não. Pedro é figura da instituição; Paulo do carisma. Pedro é o afeto (mãe); Paulo o evangelizador (mestre).

Esses dois apóstolos são paradigmas de uma Igreja, na qual ainda cabem muitos outros nomes: não só os Pedros e Paulos de hoje, mas também os Joãos, as Marias, os Josés, os Afonsos, as Joanas e os Joaquins; todos quantos queiram, na multiplicidade de dons e carismas, seja identificando-se com qual cenário eclesial for, depostas todas as ideologias e exagerados fundamentalismos, comprometer-se com o diálogo frutuoso, com a comunhão indispensável, em que todas as vozes, formam a belíssima polifonia do ser Igreja.

Lembremo-nos, por fim: nós somos a comunidade de fieis, presidida pelo servo dos servos: o Papa. Ele é a pedra, sim, mas quem edifica a Igreja não é ele. Jesus nos deixa isso bem claro quando diz: “edificarei a minha Igreja”. É Jesus, pois, quem ergue a sua casa e tem gosto, penso eu, por valer-se de muitos pilares; não só os santos que celebramos hoje, mas todos nós, a quem ele já santificou, elegeu e enviou para anunciar a todas as nações, uma Boa Notícia.

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Por, Diácono Eduardo César

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