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29/09/2013: "Lázaro"

Está posto o contraste: de um lado, um homem rico coberto pela púrpura e pelo linho; de outro, um pobre homem, coberto de chagas. O primeiro em jantares esbanjava; para o último, nem migalha sobrava. Mas a morte que a todos iguala, encontra aos dois e aí, se dá uma inversão simbólica, que na parábola de Jesus pode refletir mais do que um futuro (um post mortem), a saber: um ante mortem, uma verdade oculta, disfarçada sob o véu da aparência e da vaidade.

mains mendier aumône désespoir obscure

Sobre a inversão: o pobre que recebeu os males, agora, goza da companhia de Abraão e, o rico, no Xeol, sofre tormentos. E a indiferença que não o deixou cruzar a distância entre ele e o que sofria à sua porta, torna-se um clamor: que o esquecido lembre-se dele, vindo refrescar sua boca com uma mísera gota de água, sim, a ele, que nem uma migalha deixou sobrar. Pois é isso o que todos os egoístas sempre querem: que os generosos lhe sirvam, cedam sempre, a eles que nunca estão dispostos a fazer o mesmo.

O abismo que os separava, sempre existira. Na parábola, tal abismo se torna definitivo e nem o pedido pela benquerença do pobre poderá rompê-lo. O fechamento em que o rico vivia já era seu inferno, mascarado por constantes banquetes (para encher que vazio?), disfarçado sob vestes elegantes (para esconder qual nudez?). Seu coração não atentou para o que Moisés ou os profetas diziam e agora, no tormento, ele chama a Abraão de Pai. Se era ele um filho de Abraão, porque não respeitou ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que exige o amor à viúva, ao órfão e ao pobre? Nem ele, nem os irmãos dele e mesmo nenhum rico, – seja os que em sua riqueza financeira oprimem, ou quem com sua riqueza cultural humilha, ou ainda os que em riqueza afetiva querem dominar, mesmo os pobres que como ricos desejam viver – nenhum tem facilidade para abrir o coração à instrução de Deus (torah/lei de Moisés), ou aos seus oráculos (os profetas), ou à presença de Deus que é Vida que vence a morte (alusão a Jesus). Não abrem o coração, por que eles já estão cheios de outros bens (assim como estão cheios também a barriga e o guarda-roupas).

Ora, mas poderia o espírito sensível, finalmente discutir: a Deus não é possível tudo, inclusive fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha, quanto mais salvar um rico? Por que não a esse homem, que parece ter se arrependido quando atormentado, que quis alertar os seus, denotando alguma caridade? Notamos, entretanto, que em momento algum, ele se dirige ao pobre. Algo, então, não se inverteu: aquele a quem ele nunca dirigiu uma palavra continua esquecido, o rico nem ousa dialogar com o pobre. Culpa ou desprezo?

A verdade, enfim, dessa parábola de Jesus, é mostrar o futuro de todos que vivem insanamente presos ao dinheiro – sejam ricos ou pobres. Um dia todo véu cairá e mostrará o que suas vidas realmente foram. O rico, na realidade nem nome tem; não há promessa de futuro para ele, não há sentido para sua vida. Quanto ao pobre, seu nome sempre foi o sentido que o manteve vivo, mesmo sob duros fardos e, porque só tinha sua esperança, a morte não pode arruinar nada. Eis, pois a promessa de seu futuro, eis o seu nome: “Deus Ajuda”, Lázaro!

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Por, Diácono Eduardo César

1 comentário

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  • Caro diác. Eduardo me permita compartilhar junto a sua reflexão.
    Continuando a solida formação dos seus discípulos, pessoas livres, que para isso servem somente a Deus (cf. evangelho de domingo passado), Jesus os faz olhar ao longe do momento presente e perceber o conjunto de atitudes, constatando o fruto da escolha fundamental ou se vive como filho de Deus ou servo do dinheiro.
    O trecho se vale da comparação de ideias e estilos de vida, o rico como ideia de benção de Deus pela teologia da retribuição. No entanto, é preciso notar que todos os dias se farta diante da pobreza e da fome do outro, isto é maldade, então não é benção e sim injustiça, por isso Jesus no cap. 6, 24-25 dizia: “Ai de vós ricos” … “e que agora estais saciados, porque passareis fome”. O “Ai” de Jesus não é como o nosso que avalia uma atitude momentânea presente sendo infrutuosa, mas é um choro de quem avalia o conjunto de toda vida e constata que aquela vida por suas ações já está morta. Por isso como aquele administrador infiel (cf. domingo passado) que desperdiçou os bens e a vida, este rico se banqueteia e se farta da pobreza, esta causada pela injustiça de quem na vida serve ao dinheiro. A segunda ideia e estilo de vida é o pobre, onde a pobreza era sinal de vida longe de Deus, a lepra a presença do castigo divino e os cães eram como pessoas desprezadas. No entanto, esse pobre luta pela vida, quer comer o que vem da mesa, ou seja, luta contra a desigualdade entre as pessoas, porque tem fome de justiça; isto nos faz lembrar também no cap. 6,21 Jesus que diz: “Felizes os que agora passais fome, porque serão saciados”. Quem luta pela justiça não pensa só em si, mas alimenta e ajuda a todos.
    Eis porque vidas diferentes só podem levar a resultados também tão distantes. Quem não serve a Deus não vive a comunhão e por isso colhe a solidão que atormenta, mas quem serve a Deus, mesmo que lute sozinho pela igualdade justa, colherá o amparo dos anjos de Deus, a quem procurou ser amparo na vida.
    O Rico atormentado vê longe, quem antes olhava e pensava só em si, no sofrimento enxerga longe e amargamente sabe que o amor de Deus (“Pai Abraão, tem piedade de mim”! Lc.16,24) vem do outro e se manifesta na pequenez e simplicidade de um “dedo” molhado, mas quem só pensa em si e não move na vida um “dedo” pela justiça fraterna constrói abismos imensos nesta vida, estes que se tornam buracos sociais eternos. Chegará um dia que não se poderá mais mudar de posição na vida. Quem serve a Deus jamais passa para o lado da injustiça, sempre está em vida de comunhão (Lc. 16,26). No entanto, quem vive a injustiça nunca estará do lado de Deus.
    Eis o versículo que tem a parte mais desesperadora, pois o que adianta depois de morto reconhecer que existem irmãos ( “tenho cinco irmãos” Lc. 16,27). Quem pensa só em si, mesmo depois da morte continua obstinado em controlar os outros, mas nada disso pode tocar ou mudar mais. Eis o apelo A NOSSA URGENTE CONVERSÃO enquanto há tempo, pois quem não enxerga as pessoas vivas como irmãos, filhos e filhas de Deus Pai, não se converterá nem mesmo no dia que estiver diante de Jesus ressuscitado dos mortos! É urgente nossa conversão enquanto a tempo para fazer o que é justo, ou seja, o bem a todos! Pe Joéds.

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