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30/03/2014: "Para que se abram os olhos"

Reflexão ao 4º Domingo da Quaresma: Evangelho de João, 9,1-41

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Seria possível habitar à beira de uma fonte e, ainda assim, morrer de sede? Tocar cotidianamente suas águas, não raro mirar a própria imagem refletida em sua superfície, sentir-se respingado por seu frescor, e ainda assim definhar sob tórrida e implacável aridez? Poderiam bem ser essas as perguntas nascidas do texto da Samaritana, refletido no 3º Domingo da Quaresma. Lá, a conversa nascida a partir de um gole d’água enveredou a versar pelas sedes profundas do coração humano, seus desejos secretos e suas necessidades recônditas, até chegar à mais urgente de todas as sedes: o desejo de Deus e a saciedade que somente Ele pode oferecer.

A comunidade cristã compreendeu muito cedo que essa busca profunda de Deus, empreendida por todos os seres humanos e impulsionada pelas mais secretas necessidades de seu coração, só poderia ser descrita adequadamente pela inexatidão narrativa da poesia e sua beleza. Pois só o encanto é capaz de despertar de novo a sede naqueles que já se acreditavam saciados; e só a beleza é capaz de encorajá-los na busca e manter firme neles a esperança da saciedade. Da experiência desses nossos irmãos e irmãs mais velhos na fé, brotaram as “catequeses batismais”, oferecidos àqueles que receberiam o Batismo na Noite Santa da Páscoa. O texto da Samaritana é uma dessas antigas catequeses, assim como o “Cego de Nascença”, que hoje nos é oferecido.

Os caminhos percorridos pela Mulher da Samaria e pelo Cego deste domingo são muito semelhantes. Ambos partem do desconhecimento (“Quem és tu?”; “Não sei quem ele é”) e, a partir daquilo que o encontro com Jesus produz em sua vida (“Disse-me tudo o que eu fiz”; “Abriu-me os olhos”), adquirem um conhecimento limitado (“Vejo que és profeta”; “É um profeta!”), até que chegam finalmente à verdade: “Não seria ele o Cristo?”; “Eu creio, Senhor!”. Um itinerário de fé muito parecido com o nosso e que convida a refazermos também nós esse caminho de reconhecimento de Jesus – ele que, em algum momento nos encontrou e, mudando nossa vida, mostrou-nos quem Ele é.

Assim como o texto da Samaritana nos mostra que é possível (senão até comum) abeirar-se do poço e, ainda assim, morrer de sede, a catequese do “Cego de Nascença” nos mostra que é igualmente possível permanecer cego, mesmo em face de uma luz maravilhosa. Pois, assim como não há cegueira, mesmo entre as mais tenebrosas, que não possa ser iluminada pela luz de Cristo, há igualmente olhos capazes de recusar tão veementemente essa luz, a ponto de se fecharem ou serem trancafiados na própria escuridão. Uma cegueira perigosa, porque cega também a outros. Talvez por isso, ao fim do texto, seja difícil responder à pergunta sobre que seria mais cego: o Cego que passou a ver, seus pais que não o compreendem e o abandonam, seus concidadãos que não o reconhecem ou as autoridades que o condenam. Cegos de olhos pretensamente abertos; expectadores atentos, de olhos aparentemente fechados – É nesse mesmo paradoxo que nos inserimos, quando consentimos em fazer, com Jesus, o itinerário de amadurecimento e aprofundamento da fé. Ao menos, foi assim que entenderam as primeiras comunidades cristãs.

Nos textos pascais, os “olhos fechados” são um impedimento frequente para reconhecer o Ressuscitado. E muitos discípulos, de ontem e de hoje, continuam a seguir o Mestre sem nunca tê-lo visto, sem tê-lo reconhecido. Talvez, o Cego de Nascença nos encoraje ao lento processo de abrir os olhos e reconhecer o Senhor, aprendendo a ver por entre as tramas do Mistério da Páscoa, no qual o Crucificado se nos revela o Ressuscitado.

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Por, Frei João Júnior ofmcap

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