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30/11/2014: "Advento da Esperança"

Comentário ao I Domingo do Advento: Mc 13, 33-37

ILLUSTRATION - Ein Mädchen hält ein entzündetes Streichholz vor vier brennenden Kerzen auf einem Adventskranz, aufgenommen am 25.11.2010 in Straubing (Niederbayern). Seit Mitte des 19. Jahrhunderts gibt es in Deutschland Adventskränze. Sie gelten als Symbol für die vorweihnachtliche Zeit. Foto: Armin Weigel dpa/lby

De urgência em urgência, o tempo nos escapa. Exaustos das exigências do agora, quase nunca paramos para refletir sobre a construção do futuro. Não terão os nossos dias, nos confinado no presente, impedindo nossa esperança?

Não é o desespero, como diria o teólogo Jürgen Moltmann, a mais séria objeção contra a esperança, mas sim a humilde aceitação do presente, como se só neste instante breve e fugidio, o homem pudesse ser contemporâneo a si mesmo[1]. Enquanto se lembra do passado, ou quando se lança na fantasia do futuro, o homem não vive o agora; ao lembrar-se de ter amado ou ao esperar amar, não ama; assim também, caso se lembre de dias felizes, ou caso apenas espere um dia tornar-se feliz, jamais estará em si mesmo, em seu presente, responsável diretamente por sua própria felicidade. Ligado ao passado, o homem corre atrás do que foi; ao futuro, antecipa-se ao que ainda não é. Não deixa de ser verdade, mas por causa disso, muitos se desencantaram da esperança, desiludiram dessa encantação que parece nos arrancar de nós mesmos e nos lançar para o ainda-não… Entretanto, bradar o “não ao futuro”, em nome “do eterno sim do ser” ao agora, não será uma ilusão ainda pior; a de que estamos presos irrevogavelmente ao presente, enquanto na verdade somos memória e promessa?

É possível estar presente ao instante se, ele mesmo, é breve e se de cada momento, salta um novo momento? Deste segundo, salta outro que pode ser surpreendente. O movimento não deixa o presente se interromper, mas o torna futuro imediato, agora e de novo. Há como não esperar nada, se a vida é advento de dias, de encontros, de realizações, de projetos? É claro que devemos estar atentos à vida, pois o que fazem conosco a fé e o amor, e também a cruz e a dor, senão nos tornarem inteiramente presentes? Mas isso não é o mesmo que estar confinado no agora, pois a mesma fé que professamos é memória de uma promessa, cumprida e realizada, atualizada continuamente… O amor que amamos é sonho e saudade, uma espécie de instante zero, de eternidade já aqui… E a cruz e a dor, são o quê, senão a densidade do já e a expectativa do melhor, que ainda não surgiu? Somos, portanto, o tempo que se passa em nós.

Deus também não é o presente eterno, mas Aquele que se revela no Alfa e Ômega da história (Ap 22, 13). Ele mesmo é o nosso princípio e nosso fim. O que cria e leva ao acabamento. Aquele que é, que era e que vem (Ap 1, 8). O Deus que esperamos, como que na aurora de um novo dia. Deus se explica na história

É por isso que a Igreja propõe todo ano, este período inclinado para o futuro; um tempo de esperança em que acordamos para a realidade do que somos: nem passado, nem presente, nem futuro; mas presenças-de-memória-e-desejo. Acordamos para o fato de que o “aí de nosso ser”, o agora de nós, é esperante. O tempo do Advento nos serve, igualmente, para despertarmos para o Deus que nos espera. Um tempo que coloca o Deus que vem, à porta; tão logo ele bata, é preciso estar atento e abrir-lhe o coração (Ap 3, 20). Um tempo que nos prepara para acolher o Mistério de Deus e o Mistério do Homem, na face de um frágil recém-nascido.

O Evangelho desse domingo nos inspira, nessa linha, vigilância. Estar desperto não é certamente ficar preso às sombras do passado, nem perdido em projeções futuristas, mas trabalhando o presente. Não dormindo, como fazemos constantemente, quando não estamos presentes a nós mesmos, “ligados no piloto automático”. Que o Senhor não nos encontre dormindo é também uma provocação, para que não cedamos à dormência que o presente pode gerar se não alimentarmos nossa esperança, esquecendo-nos de que Deus vem.

A esperança cristã põe-nos em contato com o coração de Deus, que por ser só amor, não pode não esperar ou não ter fé na humanidade. Não há melhor maneira, então, de permanecer vigiando, senão com o coração cheio de esperança, enquanto pela mesma esperança já possuímos aquilo que não vemos (Hb 11, 1). A esperança nos impede de ficarmos clausurados no agora; a vigilância, de ficarmos enclausurados no futuro, ou no passado.

Finalmente: se a vida com suas urgências e correrias, ou a hipersensibilidade a qualquer frustração não nos permitem mais cultivar a esperança que salva, melhor que esse tempo que a Igreja nos propõe seja também o advento da própria esperança. Jesus é, afinal, a esperança para a humanidade que, de tempos em tempos, esquece sua verdadeira grandeza. Jesus é a nossa esperança, porque não negando nossa vida, a assumiu, recolhendo o que éramos e fazendo-se promessa do que seremos. Não há vida possível sem esperança, por mais que relutemos. Não é por outro motivo que na entrada do Inferno de Dante está escrita a sentença: “Abandonem a esperança os que entram aqui”… Pois assim é: toda vida humana se converte num verdadeiro inferno, caso se esqueça de um de seus maiores traços constitutivos…

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Por, Pe. Eduardo César

[1] Cf. Teologia da Esperança, de Jürgen Moltmann.

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