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A alegria do servir: quando as mulheres nos ensinam

Ocorreu nessa terça-feira (14), no Seminário de Filosofia São José, a manhã de espiritualidade para o clero diocesano. O encontro foi assessorado pelo presbítero da Diocese, Pe. Júnior Vasconcelos que, atualmente, reside em Belo Horizonte-MG, onde dá prosseguimento ao seu doutorado em Teologia Sistemática pela FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia).

LEITOR CHAMADO A PROCLAMAR AS MARAVILHAS DE DEUS 1

Segue, abaixo, a reflexão do conferencista na íntegra. Confira:

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Fazendo memória da Sagrada Escritura, os profetas, mesmo que inexperientes, eram convidados por Adonai (Senhor) a falarem, com coragem, propriedade e sabedoria… Até mesmo diante dos reis. De minha parte, não falo a reis, falo a irmãos, como irmão. Certamente, essa consideração, acerca da ousadia de Deus para com nossa pequenez, leva-me a sentir encorajado a falar com vocês; a falar uma mensagem sobre a experiência pascal de Jesus, experiência jamais dissociada daquela que habita em nós. Lembro-me aqui do que diz o Apóstolo Paulo, a Páscoa de Cristo, sua morte-ressurreição é também nossa Páscoa, nossa Ressurreição (Cf. Col 3,1.4).

Começo esta reflexão com as palavras do papa Francisco: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (Evangelii Gaudium 1). Para nós, indubitavelmente, o encontro com Jesus Cristo nos proporciona a alegria de sermos presbíteros. Contudo, como encontrá-lo nos tempos de hoje, com todos os afazeres e atividades que somos convidados a assumir? Como nos encontrarmos com Jesus em meio ao ativismo, ao acelerado ritmo da vida presbiteral? Como garantir, no encontro com Cristo, nossa alegria e a jovialidade de ser presbítero? É, certamente, este o grande desafio de hoje.

Essas indagações estão no coração daquele que lhes fala. Para tratá-las, convido-lhes a avançarmos, passo a passo.

O que é a alegria do Evangelho? E o que significa o encontro pessoal com Jesus Cristo?

Vamos à raiz das palavras alegria e encontro. Certamente esses vocábulos servirão de baliza para nossa reflexão se estender e chegar até o coração, lugar especial para o encontro que gera alegria.

Primeiro, vejamos a etimologia hebraico-grega da palavra alegria. Em hebraico, é chedvah ou chadah, e em grego chara, de chairo (daí, por exemplo, o nome da capital do Egito, Cairo, que pode ser traduzido por “deleite”ou “felicidade”)Em Ne 8,10b, podemos ler: “A alegria do Senhor é vossa força”, diz o sacerdote e escriba Esdras, falando sobre o dia do Senhor. Alegria em hebraico está estritamente relacionado à força, que vem da palavra achad, que pode ser traduzida por “união”: daí a alegria de uma pessoa ser a demonstração de sua força, de uma união interna entre espírito, carne e coração e Espírito (com letra maiúscula). Podemos lembrar, então, que a palavra Cairo, em egípcio pode significar também “campo de batalha”. Assim, deduzimos que só se coloca em batalha quem é forte e traz consigo a alegria que o conduz à luta.

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No Novo Testamento, Paulo, por exemplo, experimentou uma angústia, até hoje discutida em teses e dissertações, tema hipotético de variadas discussões. Paulo fala do espinho que afligia sua carne (2 Coríntios 12,7): a curiosidade surge quando se percebe que uma das palavras hebraicas para espinho (chedeq) também tem a mesma origem que os termos “alegria” (chadah), “união” (‘achad), “afiado” (chadad) e “enigma” (chiydah). Isso porque o espinho nos leva a uma condição de dúvida, coloca diante de nós um enigma. Todavia, quando compreendemos[1] o motivo pelo qual o Senhor nos permitiu que experimentássemos aquele espinho, recebemos uma alegria no Senhor e nossa união com Deus se torna mais sólida.

Vejamos agora, a etimologia da palavra encontro, que em grego é uma palavra polissêmica, synantesi e pantébou (daí em francês vem a palavra rendez-vous, encontro). O sentido da palavra encontro vem do grego “colocar-se junto de”, o prefixo syn em grego é junto, daí a palavra símbolo pode ser entendida como “jogar junto”. Encontro é a condição de possibilidade para o conhecimento e posterior intimidade. Essa última realidade, a intimidade, é a condição sine qua non para o conhecimento, para a partilha: sem encontro não há possibilidade de conhecer as pessoas, nem sequer de gostar delas ou até de odiá-las. Por isso, a primeira (ou a última) impressão que fica é sempre aquela proveniente do encontro.

Para nos ajudar a refletir o sentido do encontro pessoal com Jesus Cristo, que nos propicia a alegria, entusiasmo, vamos ler com maior atenção algumas passagens do Evangelho deste ano litúrgico, o Evangelho de Marcos. Posso dizer que esse Evangelho é expressão de um encontro entre o narrador e seu inspirador, o apóstolo Pedro: Marcos é considerado hermeneuta de Pedro, e, esse, por sua vez, o foi do encontro com Jesus Cristo. É a partir de uma experiência pessoal com Pedro que o narrador do Segundo Evangelho foi tecendo suas informações teológicas acerca de Jesus de Nazaré. Pedro, Marcos e nós, hoje: numa busca incessante de hermenêutica, vamos ao encontro não de Marcos ou de Pedro, mas de Jesus.

Podemos encontrar na Boa Nova de Marcos, sobremaneira na narrativa da Paixão, o livro da Paixão como é conhecido, a Memoria Passionis, duas passagens que falam de encontro e que muito nos interessam. Nossa busca se pauta na procura pela alegria do encontro. Narrar o Evangelho para o autor de Marcos, certamente foi motivo de alegria, de memória configuradora de gozo.

Em primeiro lugar, Mc 14,3-9, episódio que se desenrola em Betânia e narra o encontro da mulher que unge Jesus para a morte. Em seguida, Mc 15,40-41 e 16,1-8, que lembram o que se passa nos arredores da cruz, com as mulheres, citadas no Evangelho de Marcos, e que vão ao sepulcro para embalsamá-lo a posteriori, mas que se encontram com a mensagem do jovem lhes anuncia Jesus Ressuscitado.

Em Mc 14, 3-9, temos o encontro memorativo de Jesus e a mulher que o unge para a morte, prestando-lhe um serviço que os discípulos não prestaram. Trata-se da memória do serviço humilde e alegre de uma mulher, inominada, ou ainda, anônima.[2] Isso nos faz perceber que o anonimato, às vezes, é a forma mais fácil de fazer profundas experiências… Quando nomeamos algo ou alguém, estes se tornam circunscritos pelo nome… Os latinos diziam “in nomen omen”, uma locução que os italianos formidavelmente traduziram por “o nome é um agouro” ou ainda “o nome é um presságio”, ou também “o nome é um destino”, o que nós brasileiro poderíamos dizer no “nome a missão de alguém”. Contudo, em Marcos esta mulher não tem nome… Tal fato nos possibilita a pensar nas tantas mulheres daquela época, que poderiam se concentrar em uma boa ação para com Jesus, o Filho de Deus.

Essa mulher leva consigo perfumes aromáticos, muito caros, a fim de ungir Jesus para a morte. É, em si, um gesto de humildade, de diaconia (serviço), revelando a messianidade digna de Jesus e a memória que será narrada enquanto o Evangelho for proclamado e anunciado. Hoje, fazemos memória daquela mulher de Betânia, a “casa da aflição” ou também a “casa dos pobres” e, ainda, “casa do pão”, mulher que se destaca servindo Jesus e ungindo-o para a morte.[3]

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A unção em Betânia precede o maior evento da vida de Jesus, se constitui o coroamento da sua ação messiânica. Ambos os serviços confluem: o serviço da mulher para com Jesus, e o serviço de Jesus para com a humanidade.

Jesus é ungido para a morte. Essa unção, ele a interpreta como uma boa obra em grego kalón érgon, um belo trabalho por parte daquela que nem sequer nome possuía. Seu nome não poderá ser repetido, mas sua ação deverá ser lembrada, rememorada enquanto o Evangelho for proclamado: “Ela fez o que podia: antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo que, por toda parte onde for proclamado o Evangelho, ao mundo inteiro, também o que ela fez será contado em sua memória”.

Dessa maneira, podemos afirmar que o encontro da mulher com Jesus, em Betânia, é surpreendente e um ato transformador para ambos. Tanto a mulher, que unge, quanto Jesus, que é ungido,ambos têm suas vidas modificadas:ambos são afetados por esse gesto. A mulher é tocada pelo desejo de ir ao encontro de Jesus, e nos ensina aquilo que o Papa Francisco sempre insiste em dizer: “estar sempre em saída”, referindo-se à Igreja que não pode estar autocentrada (cf. E.G. 20). Jesus é afetado pela unção e percebe que sua hora já chegou – embora este não seja o Evangelho de João, que fala de sua hora… Jesus agora compreende que sua vida está no fim, que é preciso sair de Betânia e ir a Jerusalém para encontrar-se com a morte, na cruz (Mc 14,17).

Deste modo, Jesus afirma: “Ela antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura”. A mulher inominada oferece, de forma antecipada, o corpo de Jesus para o sacrifício de cruz. Ela percebe que Jesus é a mais agradável oblação a Deus, por isso o unge com um perfume de nardo puro, presente em um frasco de alabastro. Um perfume, diga-se de passagem, caríssimo, cujo custo causa indignação por parte dos presentes, cerca de 300 denários. Por outro lado, a vida da mulher também é transformada pela ação de Jesus; transformação que se fundamenta no agradecimento, no gesto de eu-charistós – de ação de graças – pois Jesus mesmo diz que a ação da mulher será contada por toda parte, em memória do gesto realizado… Esta mulher, mesmo sem nome, deixa o anonimato da ação e passa a ser lembrada, rememorada por sua atitude bondosa e alegre de ungir Jesus para a morte.

O relato evangélico deste Sábado Santo, na Vigília Pascal,a lembrar, Mc 16,1-7, mas que deveria ser até o versículo 8, se fundamenta no anúncio realizado à Maria de Magdala, Maria, Mãe de Tiago e Joset e a Salomé. Mas eu pergunto, porque deveria ser até o versículo 8, quando na Vigília Pascal ouvimos o relato marcano até o v. 7? Pois bem, é que o fim “canônico” de Marcos se situa no v. 8 e não no v. 7, como propôs o “litúrgo” que pensou a divisão deste Evangelho no Lecionário Bíblico. O v. 8 não entrou na narrativa do Sábado Santo, pois este versículo conclui o Evangelho de maneira estranha, assinalando o medo e o silêncio das mulheres, que podemos considerar como um temor santo que as apoderou. O que vem depois, os vv. 9-20 são o que podemos dizer uma redação posterior, feita por um re-editor de Marcos. O versículo 8 assinala que as mulheres ficaram com medo, em silêncio, ou seja, “não disseram nada a ninguém pois tinham medo”. Daí, esse versículo 8 nada nos ajudaria a pensar na alegria do encontro. Contudo, podemos lembrar, como dizia Santo Inácio de Loyola, que o encontro com Deus pode nos deixar ora consolados ora desolados…. Pois é no encontro com Ele que Ele nos fala à consciência.

Vejamos os aspectos variados do relato marcano de 16,1-8, tendo em vista os quatro tempos de um relato ou texto bíblico, a saber: 1) O tempo de Jesus, ou seja, como o fato se desenrolou com Jesus. Isso não sabemos, plenamente… Contudo, podemos levantar a hipótese de que Jesus apareceu após sua morte, naquilo que chamamos de aparições e que Mt, Lc e Jo bem elaboram em suas catequeses e evangelhos. 2) O tempo da Tradição, relacionado aos Doze e aos discípulos que estavam próximos de Jesus, às mulheres que o seguiam e o serviam e tantas outras pessoas que foram se aproximando do querigma, Jesus morto e ressuscitado. Paulo de Tarso, por exemplo, viveu neste tempo de tradição e daí elaborou seus relatos. 3) O tempo da redação, compreendendo os anos 54-110 depois de Cristo, que começa com o primeiro relato neotestamentário, 1ª Ts e vai até o Evangelho de Jo, na busca de redigir todos os acontecimentos teológicos que envolveram a vida de Jesus, chamamos isto de sequella Iesu, o movimento de Jesus, iniciado por aqueles que seguiam a Jesus e que foram escrevendo os fatos que envolveram suas vidas à vida de Jesus. 4) O último tempo é o nosso tempo, o tempo da interpretação. Trata-se de olhar o texto e perguntar o que o texto me diz? Quais são os efeitos que eu posso obter do texto, ou de forma mais clara, quais os afetos que o texto me traz?

O relato acima lembrado, Mc 16,1-8, nos leva a perceber a alegria do encontro das mulheres com o jovem homem, vestido de branco, sentado à direita do lugar onde havia sido colocado o corpo de Jesus. Nesse encontro há aspectos simbólicos notáveis. Primeiro dizendo, as mulheres foram ao túmulo de Jesus para embalsamá-lo. Este era um serviço póstumo. Havia o costume do embalsamamento dos defuntos com unguentos fúnebres, uma mistura de óleo, incenso e mirra. Esta mistura era utilizada também pelos pobres, embora fosse um pouco cara, a fim de receber as visitas em suas casas. No caso das mulheres da narrativa de Marcos o que surpreende é que elas vão ao túmulo no dia seguinte, bem de madrugada, para embalsamar o corpo de Jesus. Eles haviam ido ao túmulo antes para ver o lugar onde sepultaram Jesus (15,47). Agora voltam em 16,1, mas não o encontram no sepulcro. No lugar de Jesus está presente um jovem, vestido de branco, cuja túnica branca simboliza a vida nova, o estar à direita do lugar lembra-nos à direita de Deus Pai todo poderoso, que professamos no Credo. Há um aspecto teofânico neste jovem e sua mensagem é de fato nova e entusiamadora: “Não tenhais medo. Buscais Jesus Nazareno, ele não está mais aqui, ressuscitou! Vede o lugar onde o puseram. Mas, ide e dizei a Pedro e aos discípulos que ele vos precede à Galileia. Lá o vereis como vos tinha dito”

Estas mulheres ouvem um anúncio, um querigma marcante. Para o Judaísmo, nesse sentido, bastava o sentido da audição. Maria Madalena, Maria Mãe de Tiago e  Joset e Salomé ouvem, mas não dizem nada a ninguém, pois estavam com temor… Em grego este termo é ephobonto, do medo phobia (Mc 16,7-8). Mas esse medo pode ser traduzido por temor, tal como o temor de Deus. Elas têm reverência, temor fascinante – diante do numen da divindade do tremendum que é fascinans. Diante do grandioso sentimos o temor, o santo temor de Deus. Na perspectiva de Rudolf Otto, teólogo, filósofo e historiador das Religiões, o temor fascinante é aquilo que o ser humano experimenta diante do Sagrado. Por isso, diante dos mistérios de Deus, que se descortinam em nossa vida, basta nosso silêncio, nossa forma de temor santo, de acolher no consentimento da fé a ação de Deus.

As mulheres não chegam a encontrar fisicamente com Jesus ressuscitado, mas se encontram com a palavra do jovem, que as anuncia a Jesus o Vivente. Esta também é a nossa experiência de fé, ouvir a voz do Ressuscitado, da mensagem de seu Evangelho que se repete hoje para nós. Como disse João no Evangelho deste domingo da Misericórdia “Felizes os que não viram e creram” (20,29).

A expressão “Ele Ressuscitou”, não está mais aqui, é para nós um verdadeiro alento para qualquer esperança que não seja a esperança real pela fé… É preciso esperar contra toda Esperança.  O Papa Francisco mesmo nos exorta: “Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar dia a dia sem cessar” (E.G. 3).  É verdadeiramente esta a decisão do Cristão de hoje. “Ser um místico”, como disse o Teólogo Karl Rahner, “ou não ser nada”. Para nós, presbíteros, é preciso redescobrir a mística do Evangelho, sua beleza fascinante, numinosa, brilhante e sedutora. Faz-se indispensável encontrarmos com Jesus anunciado pelo Evangelho, a fim de experimentar a mesma alegria no Sepulcro.

As mulheres do Evangelho de Marcos, sem qualquer sombra de dúvida nos ensinam muito, tanto no testemunho daquela que unge Jesus para a morte, no vestíbulo de entrada do relato da Paixão como as mulheres presentes no santo dos santos do Evangelho, que simbolicamente dizendo consiste no relato da Ressurreição, uma verdade que deve ser buscada, perscrutada. Uma pergunta, porém, nos cabe nesta altura? Onde estão os discípulos homens do Evangelho. Segundo o relato de Marcos, Pedro ao negar Jesus pela terceira vez pôs-se a chorar (Mc 14,72). Daí em diante Pedro e nenhum outro discípulo aparecem no relato a não ser a menção ao nome de Pedro que é feita em 16,7, segundo o qual o jovem diz que as mulheres devem anunciar a Pedro e aos discípulos que Jesus havia ressuscitado.

Então, como estamos na hora do intérprete, da hermenêutica e como diziam os teóricos da linguagem, como Paul Ricoeur e Gadamer, na “hora do leitor”; então, cabe-nos uma possível leitura positiva do papel das mulheres na comunidade Cristã. Não estou aqui tentando forçar o texto bíblico, longe de mim, um estudioso de Análise narrativa bíblica, fazer qualquer digressão no texto ou qualquer esforço que o texto não  tenha feito. Nem também estou aqui para levantar uma bandeira feminista em vosso meio, uma suposta reinvindicação da ordenação sacerdotal para as mulheres.

Digo-vos, estou aqui apenas para que possamos pensar, em termos da narrativa bíblica de ontem, o papel das mulheres na nossa Igreja no dia de hoje. Elas, bem como aquelas dos relatos de Marcos, têm muito a nos ensinar, sobretudo em falando da docilidade e da afetividade do acolhimento aos irmãos, tal como elas seguiam e serviam a Jesus. A primeira mulher do início da Paixão vai ao encontro de Jesus à casa de Simão, o Leproso. Ela unge Jesus para a morte. Presta-lhe um serviço honroso e santo. As outras mulheres, nomeadas por Marcos, como Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e Joset e Salomé estão com toda devoção ao largo da cruz de Jesus, isso nos diz Mc 15,40-41. Elas vão ao sepulcro onde depositaram o corpo de Jesus e depois voltam para embalsamá-lo.

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Desse modo, o Evangelho Marcano nos ensina que o serviço das mulheres é sinal de destaque nos momentos derradeiros da vida de Jesus, aquilo que podemos considerar o clímax do Evangelho. Por isso, a partir desta constatação, somos convidados a repensar o papel das mulheres em nossa vida. Elas estão por todos os lados, muitas são nossas secretárias, muitas são as que lavam nossas alfaias e belas casulas, muitas são aquelas que passam nossas “batinas”… São mulheres por todos os lados, algumas tentando ser ouvidas, outras são massacradas e o que podemos fazer por elas? Eis-nos novamente diante de indagações. Contudo, a vida não é só feita de respostas, prontas e satisfatórias, a vida é também constituída de muitas indagações, perguntas muitas vezes sem a devida resposta que queremos.

Portanto, somos convidados ao encontro com Jesus e ao encontro com tantas mulheres que esperam de nós a mesma resposta de Jesus para suas questões. O serviço destas mulheres é essencial para que o Evangelho continue sendo uma boa-notícia no mundo que está repleto de más notícias, de maus entendidos, de interstícios. Convém, portanto, que sejamos como Jesus na vida destas mulheres e as encorajemos para que anunciem ainda mais o Evangelho que nós mesmos somos convidados a reatualizar em nossas atitudes e em nossos discursos.

Desse modo, finalizo, dizendo que, no encontro com Jesus, tal como a mulher em Betania, somos convidados ao serviço de ungir de maneira orante e alegre a Jesus de Nazaré na pessoa dos enfermos, dos marginalizados, das vítimas deste sistema excludente de hoje. Somos convidados por Maria de Magdála, Maria Mãe de Tiago e Joset e Salomé a vigilância e a espera do despertar da ressurreição que cintila em nós, como os primeiros raios de luz de uma manhã que repete todos dos dias o silenciar das trevas pela luz da verdade que se levanta como os pássaros anunciando a vida que supera toda morte. Que possamos também vivenciar o temor santo e fascinante, que nos tira do ativismo exagerado e nos introduz na dimensão do silêncio contemplativo, na experiência do calar-se quando apenas  queríamos falar. Que nossa vida presbiteral seja renovada pela força da alegria do encontro com o Senhor, o Vivente, aquele que renova todas as coisas. Que oxalá ele renove nossa jovialidade de servidores, de anunciadores de Evangelho do seu Reino, do Reinado de sua Alegria pulsando em nós.

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Pe. Júnior Vasconcelos do Amaral

[1] Compreender aqui não é apenas uma experiência cognitiva-conceitual, mas apenas para formalizar ou relatar nossa experiência de conhecer, de se envolver ou ainda de ser envolvido. A experiência leva à palavra, daí quando alguém sofre é preciso que pela palavra, pela arte de narrar a si mesmo ele possa descobrir o remédio para suas dores. Quando falamos de nós nos curamos de nossas enfermidades.

[2] É oportuno perceber que no Evangelho de João a mulher é nomeada de Maria. Ela é a irmã de Lázaro e Marta, em Jo 12,1-8.

[3] A vida de Jesus é mesmo excêntrica, em saída, e, portanto, possível de ser transformada pela unção em Betânia, unção que nos lembra um oferecimento a Deus. Todo aquele que se oferece a Deus é ungido. Neste momento, lembramos da unção de nossas mãos presbiterais, mãos que oferecem a Deus o louvor por meio de Jesus Cristo, mãos que oferecem Cristo aos homens e mulheres. Lembramo-nos também da unção dos enfermos que tem um sentido de oferecer o sacrifício do sofrimento do enfermo em reparação de seus pecados, para que, sendo perdoado, possa recuperar-se para reestabelecimento de suas atividades ou para morrer em paz. A unção dos sacerdotes no Antigo Testamento, em Ex 30,30, sinalizava o intuito de santificar o sacerdote, oferecendo-o a Deus. Em 1Rs 1,39, o sacerdote Sadoc unge Salomão Rei.

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