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A Covid entre o temor e o medo, por Dom João Bosco Óliver

A Covid entre o temor e o medo
Dom João Bosco Óliver
Bispo Emérito de Diamantina

 

O medo é um sentimento de autodefesa diante de um perigo. Tem, de certa forma, um posicionamento negativo, no sentido de fuga, de negação diante de qualquer coisa, pessoa ou realidade que possa significar uma ameaça ao bem-estar e à segurança de quem o experimenta. Assim, por exemplo, o medo diante de uma cobra ou diante de um motorista que corre em alta velocidade em uma estrada perigosa. A pessoa que sente o medo nega a realidade externa que gostaria de evitar, se possível.

O temor, ao contrário, significa, em geral, um sentimento positivo, preocupado com o bem-estar de outra pessoa. Manifesta-se, por exemplo, quando alguém entra na ponta dos pés no quarto de uma criança, ou de um enfermo que dorme, temendo que tal pessoa acorde e fique privada de seu descanso. O temor tem, pois, uma preocupação altamente positiva, dando maior importância ao bem do outro que ao seu próprio bem.

Assim, o temor é altruísta; o medo é egocêntrico, no melhor sentido dessa palavra.

O Vírus da Covid 19 não tem cor nem cheiro, é invisível. Uma pessoa assintomática pode ser portadora desse vírus, sem o saber. Mesmo as pessoas que o contaminam e depois desenvolvem a doença passam por um espaço de tempo em que desconhecem ser mais uma vítima na pandemia. Esses fatos podem gerar, em qualquer pessoa, os dois sentimentos citados.

Pode-se usar o distanciamento, a máscara, o álcool em gel e o lavar correto e frequente das mãos, preocupado em não se contaminar. Nesse comportamento, inconscientemente, vê-se o outro – que atende numa loja ou que presta um serviço ou que busca falar com alguém – como um possível perigo, gerando o “medo” diante do outro e, consequentemente, vendo o outro como ameaça ou alguém que deve ser evitado.

Pode-se, no entanto, ter o mesmo comportamento, imaginando-se ser um perigo para o outro que está em boa situação de saúde. Essa segunda maneira de pensar aumenta em todos o respeito pelo outro, expresso numa forma de amor: o “temor” da possibilidade de ser prejudicial ao outro.

O fique em casa pode, pois, ter uma conotação positiva ou negativa, dependendo da maneira como cada um se coloca diante do outro, numa dimensão de amor verdadeiro e de respeito pelo outro ou numa posição de fuga e de medo.

O cumprimento social, pelas costas dos dedos ou pelo cotovelo, se acompanhado de um sorriso amigo, quebra a distância espiritual entre pessoas que superam a frieza do gesto com a beleza do sorriso sincero.

O distanciamento físico entre pessoas não pode conduzi-las a um distanciamento espiritual. Algumas pessoas que experimentam o distanciamento espiritual, de maneira mais forte, podem caminhar para uma depressão. É muito importante, pois, cultivar a proximidade espiritual em nosso relacionamento humano. São muitas as pessoas que, nos encontros de cada dia, se despedem com um Fique com Deus ou com um Deus o abençoe!

O olhar desarmado e o sorriso amigo, além de quebrarem a distância entre pessoas, tornam-nas mais alegres e felizes em seu dia a dia da vida!

Nesta pandemia, é melhor tratar os outros com temor, mas sem medo!

 

*O artigo apresentado é de responsabilidade do autor.

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