Bispo Diocesano Colunistas Destaque

A galinha dos ovos de ouro, por Dom Paulo Francisco Machado

A galinha dos ovos de ouro
Dom Paulo Francisco Machado
Bispo Diocesano

Se no passado a questão ecológica era vista com certa desconfiança por muitas pessoas, culpa de atitudes de muito de seus defensores, nos últimos anos, hoje, pessoas preparadas filosófica e cientificamente se colocam à frente dessa causa, realmente ocupadas com o futuro da criação. O meio ambiente está sob o olhar atento dos melhores homens de estado, de conscientes e verdadeiros cientistas e, até dos últimos papas.

Usei conscientemente o termo “criação” porque para membros do judaísmo, do cristianismo, e penso que, mesmo para os fiéis do islã, ou seja as pessoas que creem num único Deus/Criador, tudo o que existe não é obra do acaso lançado no vórtice de uma evolução teimosa a insistir sempre em se superar, aperfeiçoar-se buscando alcançar níveis mais altos no grau dos seres, o que me faz temer por um dia em que a humanidade tenha que curvar-se diante de uma mega/super minhoca, uma vez que acaso e evolução são alçados ao mais alto plano da realidade, como substitutos de Deus.

Os monoteístas tão desagradáveis – às vezes com razão, uma vez que se postam como senhores da verdade, e não servos dela – em muitos ambientes contemporâneos creem no universo criado, obra misteriosa de um único Deus que lhe deu/dá a existência e, se brilham as estrelas no céu é por força Daquele que é o Amor Essencial, pois como escrevia Dante “é o amor que move o sol e as estrelas”. E, se existe o espaço e o tempo é porque um Ser Absoluto, infinitamente acima dessas categorias, as fez existir: “no princípio Deus fez o céu e a terra “ (Gn1,1).

A fé na criação tem suas consequências, entre elas, a de que todos os seres, sem exceção, estão unidos por um forte laço de amor a nascer, crescer e tender para a plenitude “mais plena” do amor, Naquele cujo existir é amor (1Jo 4,8).

O cuidado com a obra do Senhor, sua criação, atinge-nos a todos em graus diferentes. Cito dois grupos com grande responsabilidade: os empresários do agronegócio e os da mineração. Penso que esses, se forem suficientemente inteligentes, responsáveis, atentos aos outros (“nenhum homem é uma ilha”) e aos seus ganhos futuros devem se recordar de uma velha fábula de Esopo, cuja tradução tive que fazer há mais de 50 anos, encontrada em um dos meus velhos cadernos. Eis a tradução: “Certo homem tinha uma galinha que punha ovos de ouro e tendo julgado que havia dentro dela alguma porção de ouro, tendo-a matado, encontrou-a semelhante às outras galinhas. Ele, porém, que esperava encontrar abundante riqueza, até daquele pouco ficou privado” E a estória se completa com a moralidade: “A fábula mostra que é necessário contentar-se com as coisas presentes e fugir da ambição”.

Eis, pois, o motivo de minha simples advertência aos empresários do agronegócio e da mineração. O cuidado com a obra da criação, ou se desejarem com a natureza, com a casa comum, com a “nave mãe’ é expressão de prudência e inteligência. A desmedida ambição não nos leve ao esgotamento das riquezas da terra e cuidem para não matar a galinha dos “ovos de ouro”: nosso bem-estar e o das gerações futuras.

O cuidado com o espaço vital eu tenho hoje em alta conta, afinal, cuidar da vida, das suas condições é reconhecimento não só de sua importância, mas também sinal de inteligência, prudência e interesse pelo futuro. Solo, mares, rios, nascentes, florestas bem cuidadas, preservados são “galinhas de ovos de ouro” para a humanidade.

Que São Francisco, inigualável santo cuja vida e ensinamentos são de tanta importância para o nosso futuro, merecedor de uma declaração da ONU como patrimônio imaterial da humanidade, nos dê um olhar solidário e fraterno em relação ao mundo que não é somente mundo, mas cosmos, beleza a ser contemplada.

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!