Diocese de Uberlândia Em Destaque

"A menina que roubava livros"; quando as Palavras nos educam

Está em cartaz nas principais salas de cinema do Brasil o filme “a menina que roubava livros”, do diretor Brian Percival, com distribuição da Fox Filmes do Brasil.

Antes, preciso confessar que eu não li o livro [SUZAK, Markus. A menina que roubava livros. São Paulo, Editora Intrínseca, 2007]. Todavia, o filme inspirou-me a lê-lo assim que puder.

“A menina que roubava livros” é ambientado na Alemanha durante a segunda guerra mundial (1941-1945) e tem como pano de fundo o horror do nazismo de Adolf Hitler. Felizmente, o filme não tem o “comercialismo” e a “urgência” de Hollywood, e, por isso, deixa-nos a impressão de estar assistindo a um filme francês, por exemplo, com diálogos bem construídos e com o primor da fotografia europeia.

A mensagem principal do enredo passa pelo poder e pela beleza das palavras [“palavras são vida”]. Ao longo do filme, recordamo-nos de que as palavras, tal como diziam os gregos antigos, podem ser pharmacon, isto é, usadas para curar uma infinidade de males, inclusive o da ignorância, da suspeita apressada, do horror e do preconceito.

O título sugestivo do filme é contra-argumentado pela protagonista, Liesel Meminger (Sophie Nélisse): “eu não roubo livros, eu os pego emprestados”. E o que a motiva é justamente o fato de não saber ler e sentir que algo lhe escapa. Assim, sente-se impulsionada a buscar, vorazmente, pela descoberta das palavras e pela ação transformadora que elas produzem na vida das pessoas.

Imagem: google
Imagem: foto divulgação / fox film do Brasil

Apesar da frieza, do caos e do desencanto perpetrados por uma guerra, “a menina que roubava livros” é uma estória otimista e emocionante em todos os sentidos.

Primeiro, porque evoca o sentido mais profundo da vida. E neste sentido a película é magistral: a própria morte é a contadora da estória. E mesmo no óbvio da sua fala, não há sofreguidão nem tampouco dramaticidade, mas uma certa leveza quase pueril: “… é fato: não importa o que você faça, irás morrer”. Não há dicotomia entre vida e morte, mas, ambas se completam e se correlacionam. E ela vem para todos, indistintamente. Há quem se desespera quando a percebe aproximar-se e há os que se entregam, resignadamente.

Depois, numa construção poética das palavras, quase parnasiana, o filme é um convite à essencialidade de tudo: “…fomos humanos”, diz a personagem central num diálogo com o seu pai adotivo, Geoffrey Rush, comentando o fato de terem ocultado, no porão de casa, um judeu, temendo a represália nazista. A humanidade, para Liesel, passa pelo acolhimento do outro, pela proteção ao indefeso e pela amizade até as últimas consequências, como a que tivera com Rudy (Nico Liersch), seu amigo mais próximo e de quem ouvirá mais tarde a declaração mais inesquecível de sua vida, e também de Max (Ben Schnetzer), de quem “recebera olhos” e pudera auxiliar contando-lhe sobre o dia e o sol opacos, por sobre as nuvens.

Por fim, “a menina que roubava livros” desperta nos mais sensíveis o desejo de uma sociedade livre de guerras, de violência e do terror [nunca mais a guerra; nunca mais o ódio, nunca mais o nazismo; nunca mais]. Utopia? Talvez, mas o filme fala de crenças e valores mais profundos que a temeridade dos dias nos faz esquecer com certa facilidade.

Que mundo e que sociedade queremos? Não basta odiarmos os “Hitlers” de ontem e de hoje, nem gritar a plenos pulmões o ódio que sentimos deles e vociferar-lhes o mal que nos causam. Não. É preciso algo mais. É preciso redescobrir o valor da vida, em si [dar-lhe sentido, já que ela é este instante entre o nada o sem-sentido de tudo]; do amor devotado aos amigos e à família, e, sobretudo, ao conhecimento que nos colocam de prontidão para, quando necessário, sermos capazes de amenizar a dor, o sofrimento e o medo que assolam o outro, ainda que seja com um gesto pequeno, uma simples palavra, contando-lhe uma estória a fim de, por um momento, ajudar-lhe a superar o tédio ou a inadequação do vivido, ou um abraço um tanto mais demorado em quem precisa partir para atestar-lhe a nossa estima.

Por fim, “a menina que roubava livros” é uma proposta para que voltemos a sonhar e a nos despertar do pesadelo real que, não poucas vezes, solapa a nossa existência, tão frágil e desprotegida. É ainda um grito, embora não desesperado, mas sutil, para que sejamos mais humanos; digo, humanos, de fato. A aparente lentidão do filme quer nos educar para isso; não se consegue nada que se pretenda mais profundo e verdadeiro de uma hora para outra. Pois, a vida, assim como a construção do humano, requer tempo… Pausa… Silêncio…

________________

Por, Diácono Claudemar Silva

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!