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A monografia, meu orientador e eu

Concluída a monografia do meu curso de Filosofia, meu orientador me fez, segundo ele, uma pergunta de praxe, embora um tanto indiscreta. Perguntou-me, sem meias palavras, se o texto que eu acabara de lhe entregar era fruto da minha própria reflexão ou se o havia copiado de algum outro local; de algum outro autor.

Por um momento, incrédulo, diante daquela questão posta à queira roupa, disse-lhe que não. Eu o havia escrito. Era, portanto, fruto de minha intuição acadêmica, de minha intelectualidade posta à prova.

Porém, logo em seguida, confesso que pairou sobre mim uma nuvem tenebrosa de dúvida inquietante: teria sido eu mesmo a compor aquele texto, ou, de fato, o teria furtado de outros, talvez sem me dar conta, sem ser intencional? Posta a questão e ponderada exaustivamente a resposta, conclui: de fato, eu havia copiado. Aquele texto, como todos os demais outros, e falas, e pensamentos posteriores, eram frutos de minha “ladroagem”, de meu banditismo. Tornei-me, desde então, conscientemente, furtador de ideias e pensamentos alheios, de noções e intelecções de terceiros. Tornei-me um ladrão de palavras.

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Afinal, como eu poderia tê-lo composto, aquele texto, e todos os demais outros, como este que agora escrevo, sem ter me valido e sem me valer de autores e poetas e sonhadores que me antecederam e dos quais não canso de sorver continuamente? Seria presunção de minha parte afirmar que o compus de modo solitário e abandonado à minha própria capacidade intelectual. Aquele texto foi resultado dos muitos autores que li; das muitas impressões que senti ao ler um e outro filósofo, poeta, literata e teólogo. Ontem, como agora, sou vulnerável à palavra. Ela me adentra impiedosamente, inescrupulosa e factível. Ela me destroça e me recompõe. É verdade. Eu ainda sou profundamente afetado pela palavra. Ela, como as demais outras artes, ainda me encantam. “Até quando?”, perguntou-me outro dia alguém. Até quando elas quiserem, respondi.

De fato, todos os textos, todas as intuições, das premissas mais simples às mais complexas – se bem que não sou dado a essas – não me pertencem de todo. Não são frutos de minha capacidade intelectual e, portanto, filhas propriamente de minha faculdade neural. Eu não sou dado à geniliadade de nenhum modo. Pra dizer bem a verdade, todos os meus textos, todas as frases, ideias e sínteses, não são minhas. Foram forjadas a partir dos muitos encontros que tive; das muitas pessoas que, algumas anonimamente, me fizerem descer vertiginosamente para dentro de mim. Elas me conduziram ao mais íntimo de mim mesmo e de lá, muitas vezes sangrando, me fizeram regressar. Por isso, as palavras “enfrasadas” me chegam como quem não quer nada. Aturdiam o meu interior e me comovem quase às lágrimas. Às vezes, diante delas, a vontade que tenho é de gritar; de chorá-las uma a uma até à última gota. Quanta beleza há nos ditos bem ditos, harmoniosamente construídos ou naqueles esdrúxulos, dicotomicamente escritos. Gosto do texto que diz e não diz. Quando verte sangue e água por um mesmo canal. Quando mata e ressuscita. Tantas são as frases ditas na exatidão da hora e que me fazem calar num silêncio quase sepulcral. Não são poucas as palavras que me fazem morrer e, doidamente, ascender às alturas como quem desce ao fundo do mar e, desesperadamente, procura pelas águas da praia. Nas palavras eu morro e ressuscito continuamente.

Ao orientador, naquele momento, não lhe pude dizer tudo quanto agora posso nitidamente perceber. Eu necessitei de tempo. Aliás, o que seriam das palavras se não fosse o tempo. É ele, e somente ele, que nos dá a verdadeira dimensão do dito e, somente nele, a palavra ganha o peso que ela deve ter de verdade. Dizer por dizer ou dizer sem pensar é desperdiçá-la, interrompe-la, mitigá-la ao ínfimo dela mesma. É uma violência, portanto.  A palavra sempre requer tempo e sepultura dentro da gente, tal como a semente no fundo da terra.

Sim; eu o copiei. Confesso. Aquele texto, como todos os demais outros, não são propriamente meus. Eu os roubei. E reafirmo: roubarei este e aquele e tantos outros quanto encontrar. Não me ausentarei daqueles momentos, raros e demasiadamente insuperáveis, de extasiamento do lido, do percorrido com o olhar, do ouvido e do assimilado que me fazem “regurgitá-lo” em forma de palavra, cadente e silenciosa, desejosa de gritar. Tudo quanto degusto pelos olhos suplica-me que o devolva para fora. As palavras nunca se aquietam de todo. Reconheço: Sou inscrição de tantas veias abertas, mesclas de suor e cheiro alheios, de fadiga de anos e de noites mal dormidas de terceiros. Sou usurpador de sonhos e de vivências. Sou como carne desfiada e músculos desnudados que se deixam aparecer propositadamente. Sou paladares diversos. Sou reunião de muitos e de todos e, no fim, simbiose deste múltiplo. Sou um amontoado de fábulas, contos e dizeres. Sou repentes e versos, sutis e enfileirados, menestrel de composições de outros, e sou, por assim dizer, solidão acompanhada.

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Por, Pe. Claudemar Silva

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