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A Palavra é para andar, por Dom Paulo Francisco Machado

A Palavra é para andar
Dom Paulo Francisco Machado
Bispo Diocesano

Numa bela, e mesmo admirável, tradução da Bíblia, obra de grande amor para com as Sagradas Escrituras, de Andre Chouraqui, elogiada por Urs von Balthasar como “uma tradução verdadeiramente inspirada (pois): ela devolveu a palavra”, no texto do Sermão das Bem-aventuranças, capitulo 5 de Mateus, o tradutor recorre aos ecos do sermão pronunciado na língua materna de Jesus, o aramaico, dizendo que o termo que hoje traduzimos como bem aventurados ou felizes, corresponde à palavra ‘ashéi’ que indica a retidão do homem marchando na estrada que leva ao Senhor Deus e seu Reino. (nota ‘p’ p 83-84 da Bíblia Matyah – O Evangelho segundo Mateus, na tradução de Andre Chouraqui).

Assim, andar no caminho do Senhor é que constitui a nossa felicidade, bem-aventurança e nele trilhamos com alegria. Nessa tradução, encontramos grande riqueza, pois a Palavra de Deus não nos serve tão somente para o nosso deleite pessoal, como toda obra literária, mas, para seguirmos uma estrada que tem nome e rosto: Jesus Cristo.

A Sagrada Escritura existe para nos pormos a caminho com prontidão. Será preciso levantar-se e por o pé na estrada. E temos um modelo, Abraão, o nosso pai na fé. Ele ouviu o chamado: ‘Sai da sua terra, da sua família e a casa de seu pai, e vai para a terra que Eu lhe indicar’ (Gn12,1) e não hesitou em tornar-se um caminhante.

A partir daí, formou-se uma interminável corrente de andarilhos que carregam consigo um mapa rodoviário, ou melhor, um waze, pois a história da salvação é uma procissão de andarilhos, de pessoas que sonham com a terra prometida. ‘Em marcha’, Abraão foi descobrindo o sentido do seu existir, sempre acompanhado pelo Senhor que lhe dirigia a Palavra e, pode perceber a sua missão de, na força da fé, ser o pai de uma nação mais numerosa que as estrelas, ou os grãos de areia de uma praia. Seus descendentes terrenos não chegaram a um número expressivo, mas os que se abeberaram da fé no Deus único professado por Abraão, tornaram-se uma multidão incontável.

Abraão, Isaque e Jacó foram peregrinos, os grandes patriarcas do Antigo Testamento. Os seus descendentes formaram uma nação cujo grande aprendizado deu-se no palmilhar o deserto por quarenta anos e, assim, aprenderam a confiar no Deus dos pais. E, até hoje, é assim. Também os cristãos são peregrinos, a trazer sempre nos ouvidos, olhos, e sobretudo no coração, a Palavra de Deus.

Não vou tratar do mais eminente descendente do pai na fé, que se preparou por trinta anos, período que andou pouco, mas depois descobriu que só poderia fazer a vontade do Pai no palmilhar o chão poeirento, desértico de sua amada pátria. Ele, a Palavra Viva e vivente, preparou-se num longo silêncio para anunciar os segredos do Reino de Deus.

A Palavra de Deus é dirigida para pormos os pés no Caminho, convida-nos a nos desinstalar de nossas seguranças e, na alegria do caminhar, seduzir, convidar os sedentários à grande alegria de marchar no Caminho do Senhor. Temos o Espírito Santo, coluna de Fogo; temos a Água Viva para dessedentarmos; temos o Maná como alimento; temos o óleo perfumado do Amor de Deus, contemplado no excelso Mistério Pascal; temos, na infinita misericórdia divina, o remédio da cura quando envenenados pelo egoísmo. Finalmente, temos o mapa do caminho para não nos perdermos por desvios: a Sagrada Escritura, Palavra de Deus.

A cada dia acompanham-nos as Santas Letras a nos incitar para o Caminho (‘em marcha’), deixando de lado as tralhas de nossas insatisfações pessoais, medos, fracassos, traições, pecados. A Bíblia foi escrita para nos lançarmos no caminho da justiça, do bem, da verdade, da alegria, do amor a deixar por terra tantas cargas inúteis, a nos paralisar, travar os nossos passos. Ela é convite ao abandono de nossos planos pessoais e ao abraço do plano de Deus, traçado por Jesus nos Evangelhos e, é Ele, que nos ensina a ir ao encontro de Deus, peregrinos do Eterno que somos, a abraçar e caminhar alegremente juntos com os irmãos.

Eia, em marcha!

 

*O artigo apresentado é de responsabilidade do autor.

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