Destaque Diocese em Ação Palavra do Bispo

A sociedade dos jovens tristes, por Dom Paulo Francisco Machado

A sociedade dos jovens tristes

Por Dom Paulo Francisco Machado 
Bispo diocesano de Uberlândia 

No século XVIII, em 1774, um genial escritor alemão, Johann Wolfgang von Goethe lançava um livro, quase que autobiográfico, com o título: “Os sofrimentos do jovem Werther”. O jovem retratado nessa obra tinha como que um especial deleite, até mesmo, um mórbido prazer em publicar mediante cartas, as angústias do seu cotidiano, os pruridos de seu coração. Era um desfiar de um longo rosário de dores, sentimento de tristeza e de mal-estar. Tudo por não despertar a paixão, não se sentir amado pela jovem Charlotte. A leitura deste texto terá levado inúmeros jovens ao suicídio.

Passados mais de dois séculos, em plena era de grandes conquistas técnico– científicas, a nossa atual juventude parece não ter encontrado ainda um sentido maior para o seu respirar e o pulsar do seu coração. O ar sombrio, uma profunda tristeza no olhar, parecia conter um certo glamour em alguns “outdoors” de grandes empresas comerciais, os rostos mesmo risonhos deixavam, quando vistos com mais atenção, à mostra uma penumbra no coração.

Hoje vivemos na sociedade dos jovens tristes. Os que têm recursos econômicos financeiros frequentam ambientes sofisticados, têm acesso ao álcool e às drogas, a esconder a monotonia de uma vida sem altos horizontes. Seus desejos, sonhos e ideais rastejam-se num chão lamacento como uma serpente. Só lhes interessa o dinheiro, a droga, o automóvel, o celular de última geração, o prazer sexual (não o amor autêntico), os esportes que põem em risco suas vidas. Para esses é impossível contemplar as alturas, o céu, fazer projetos mais significativos para suas vidas, que possam ir além de seus umbigos.

Não são todos, mas um grupo significativo é constituído por jovens mais pobres que, no afã de possuir toda a parafernália de objetos, roupas, calçados, enfim, tudo o que os meios de propaganda estimulam a comprar, lançam-se no mundo da violência, associam-se em grupos para o assalto, o sequestro relâmpago, os crimes virtuais. Como se, para se ser alguém, é preciso ter muitas coisas inúteis. Como lamento tantos jovens de nosso Brasil com suas vidas ceifadas precocemente. Lançam-se no subsolo do crime porque o ideal que a sociedade lhes oferece é o de ter….ter….ter; comprar…comprar…comprar. Assim, tais jovens vendem – volto ao velho Goethe – sua alma a Mefistófeles.

E ainda, não são poucos, os que pagam um doloroso tributo pela ausência verdadeiramente amorosa dos pais em suas vidas, ressentem-se com a falta da família, do ninho cálido do lar. Esses jovens foram queridos, projetados? Sim, mas queridos e projetados com o fim de realizar os sonhos, tantas vezes egoístas, dos pais. Não foram amados em si. O valor deles está em realizar os sonhos pessoais – desculpem-me – as frustrações de seus pais.

Neste mar, onde singram as naves da vida dos jovens, não há uma bússola, uma “estrela do mar” que indiquem o rumo para um porto seguro. A esses novos Ulisses, não interessa Ítaca, o destino último de uma vida. Contentam-se em manter os ouvidos bem abertos, à diferença do herói mitológico, para serem seduzidos pelo canto barulhento, caótico e alucinante do mundo. Às vezes ficam na calmaria de uma vida insípida e incolor.

É a esse jovem que precisamos apresentar Jesus Cristo, o Morto Redivivo. Há quem diga que uma das características do Senhor Crucificado, do escultor Aleijadinho, é que Jesus tem um dos olhos voltado para o céu, o outro, para a terra. Ah! Se nossos jovens desejassem transformar a sociedade com o olhar fixo em Cristo, Verbo Encarnado, Aquele que olha o céu e a terra!

Foto destaque: IHU, via flickr

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