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A Viúva de Naim e tantas outras

O Evangelista Lucas, embora não tenha sido apóstolo direto do Senhor, mas de Paulo, em seu trabalho de historiador mais parece um arqueólogo a cavar as histórias jesuânicas a fim de que a sensibilidade e as demais emoções de Jesus sejam percebidas nitidamente. O Mestre não esconde suas emoções de si nem tampouco daqueles que o acompanham, quer discípulos quer multidão.

A narrativa da viúva de Naim (cf. Lc 7, 11ss) é única nos Evangelhos, peculiar do jeito lucano de se interessar pelos meandros da história, desejoso de adentrar o interior de cada personagem de seus relatos, como um médico usando o seu bisturi.

O contexto da época era totalmente desfavorável para a mulher: sua dignidade estava atrelada à figura masculina do pai, do esposo ou do filho. Diz o evangelista que aquela viúva em questão era mãe de filho único que agora jazia morto no esquife. Logo, para sobreviver e não morrer de fome, seria relegada aos guetos da mendicância e/ou da prostituição. Afinal, a pobreza há muito que batera à sua porta.

A figura da viúva – inominável – parece trazer consigo tantas outras que as Sagradas Escrituras nos recordam, e outras tantas, atuais, que a história não nos deixa esquecer[1]. Como não nos lembrar daquela de Sarepta[2] que se colocou solícita com o profeta Elias, dando-lhe de comer do pouco que restava para si e para seu filho? Os livros sagrados[3] estão permeados de normativas que abordam a questão da viúva, do órfão e dos pobres a fim de que sejam amparados em seus dissabores, pois tanto um como o (s) outro (s) são objetos da benevolência divina que não deseja a pobreza, mas se identifica e se apieda dos acometidos por ela, lançados à marginalização e à exploração.

Salta-nos aos olhos o detalhe que Lucas evidencia: “acompanhava-a muita gente da cidade”. É de se estranhar, se levarmos em conta que em velório de pobre não comparece tanta gente como quer enfatizar o autor sagrado. Seria um “exagero literário”? Ou teria mesmo aquela morte causado profunda consternação nas pessoas que, seguindo a dor da mãe, enterravam “aquele filho” sabedores, a priori, do calvário que a ela estava destinado? Tanto faz. O fato é que a dor daquela viúva-mãe causou em Jesus o mais basilar dos sentimentos humanos: a capacidade de se colocar no lugar do outro. Melhor: o de se colocar junto ao outro e sofrer com ele a sua dor, assumindo-a como sua.

Desse modo, Jesus mostra-se pleno e integrado em sua humanidade. Ele se deixa interpelar pela vida de quem por Ele passa. Não olha de longe, simplesmente, nem se deixa tocar por um politicamente correto. Não. Ele assume aquela dor como sua e a sente profundamente. Jesus muda a sua rota, o seu trajeto e altera sua direção em virtude daquele fato. Tudo o mais é protelado, pois, diante de si, uma vida vai só, embora acompanhada; mas duas serão enterradas: a do filho morto e a da mãe viúva.

Diante do cadáver inerte do filho e da vida minguada da mãe, Jesus para o cortejo de dor. Interrompe o trajeto cadavérico e impede a morte de continuar. Toca, isto é, assume para si aquela morte: morre com ela para ressuscitá-la. Dirige-se ao morto e o chama à vida: “moço, eu te ordeno, levanta-te!”. A autoridade de Jesus diante da morte é a mesma que O fará entregar-se à morte para cessá-la uma vez por todas, na cruz. Ordenar que a vida volte ao corpo do jovem é testemunhar perante os seus – e de toda a multidão reunida – que Ele é “a ressurreição e a vida e quem nele crer, ainda que morto, reviverá” (cf. Jo 11, 25).

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Não se trata aqui de uma ressurreição em estrito senso, pois novamente aquele jovem, quem sabe na velhice e depois de sua mãe, como costumeiramente chamamos de natural, voltará a morrer. O que houve com aquele jovem foi uma “reanimação do cadáver”. A ressurreição é para além deste tempo e deste espaço, como nos sugere a escatologia vigente, embora dela só possamos dizer uma penúltima palavra. O jovem, voltando ao seio familiar, ao colo e convivência da sua mãe põe fim a uma série de contratempos, como aludimos acima. A compaixão de Jesus é compreensível e ainda mais louvável por sua capacidade de entremear-se na história e transforma-la consideravelmente.

A primeira atitude do jovem foi falar. A palavra é constitutiva da pessoa que se torna indivíduo autônomo, livre, responsável e senhor de si. Ele fala, pois a vida lhe foi dada novamente. O ar vital o percorre e ele pode se comunicar. A palavra, afinal, rompe o silêncio e a mudez causados pela frieza e desesperança da morte. Jesus o entrega à sua mãe. É a entrega vivaz, pulsante, cadenciada e ritmada dos corações que se alegram e vibram pela vida que agora vive novamente. Diferente de Jesus na cruz que, morto, será entregue desfalecido aos braços silenciosos de Maria, sua mãe, como quis a sensibilidade artística de tantos poetas das tintas esboçar[4].

Frente ao evento estupefato que viu, a multidão incrédula e absorta pelo fantástico, enche-se de temor e tremor, sinais concretos daquilo que nos escapa e que não podemos bem discernir. Estão todos envoltos pelo mistério da vida. E maior milagre não há. E a confissão que fazem não é outra, senão a comprovação de que “Deus voltou seus olhos para o seu povo”.

Outra frase que nos faz pensar: em que momento Deus havia distanciado o seu olhar? Para onde ou para quem Ele estaria olhando senão para o seu povo? Talvez como hoje, os desafortunados da época, sufocados por tantas mazelas e infortúnios, não conseguissem fazer a experiência da proximidade e do amor de Deus que os acompanhava, colocando-se junto a cada um que sofre e morre. Talvez faltassem aos homens e às mulheres de outrora, como aos de agora em nossa história, alguém que lhes despertassem a esperança e a convicção de que Deus jamais estará do lado dos grandes que oprimem, sejam eles de que ordem e posto forem.

Afinal, não faltou e não faltarão na história homens e mulheres de alma pequena, pusilânimes, que escoam até as últimas migalhas daqueles que já nada têm ou possuem. Basta olharmos atentamente para nossos jovens, pais, mães, crianças e anciãos preteridos do mínimo para sobreviverem. E não precisamos ir longe ou distante de nós: para onde vão tantos impostos que opressivamente somos obrigados a pagar? E o direito inelutável de cada homem e de cada mulher de terem sua saúde, sua moradia, seu emprego, sua educação e sua segurança garantidos pelos poderes constituídos?

A vida de Jesus e o modo como Ele a viveu é a maior e a mais terrível denúncia feita aos seus seguidores de ontem, de hoje e de sempre. Enquanto nos furtarmos deste Horizonte, nossa missão será equivocada, inerte e morta como que a passear dentro de um esquife. De nada valerá nossas lágrimas, nossos lamentos e nossas parcas indignações se diante da dor e da “morte alheia” não ousarmos parar o trajeto e ordenar que o ciclo mortífero tenha fim para que a vida possa de novo voltar.

Em nossos dias, muitos se levantam como “salvadores da pátria” e profetas de um tempo inaudito. Oxalá tenhamos a clareza, a lucidez e a perspicácia para não nos deixar iludir e inebriar o coração com palavras doces ou promessas acalentadas de tempos de outrora. Que o Senhor, o único capaz de nos salvar integralmente, nos (re)anime outra vez e nos ajude a sermos audaciosos, assumindo-nos e assumindo esta vida até as últimas consequências.

__________________

Por, Pe. Claudemar Silva

[1] Mulheres vitimadas pela dor da perda de seus filhos pela violência urbana, pelas imprudências de trânsito, pelo excesso do álcool, das drogas, entre outros.

[2] Cf. I Reis 7, 17 – 24.

[3] Cf. Lc 21, 36; Mc 12; Dt 24; Jó 31, 16; Sl 146, 9; Pr 15, 25; Is 1, 17; Jr 7, 6; Ez 22, 7; Zc 7, 10.

[4]Pietá (Piedade) de Michelangelo é talvez a mais conhecida e uma das mais famosas esculturas feitas pelo artista, embora tenham outras, como a de Aleijadinho cultuada atualmente no Santuário de Nossa Senhora da Piedade em Caeté – MG.

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