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Al-Mustafa: o profeta de Gibran Khalil Gibran

Dia desses, alguém me contou que, certa feita, numa aldeia, aos pés de uma montanha libanesa, ao norte do Líbano, vivia um jovem que quando criança fora embora daquela sua terra natal, mas, depois de um tempo, regressara, agora como estrangeiro. Era um jovem interessante. Profundamente apaixonado por tempestades. Diante de uma tempestade ele se recusava a correr do vento, dos relâmpagos e da chuva; antes, ia ao encontro deles.

Nesse povoado, por falar da bondade e da beleza escondidas sob a angústia e o desespero que perpassam nossa existência, aquele jovem rapaz ficou conhecido como o Eleito, o Bem-Amado, ou, como se dizia na sua língua materna, o Al-MUSTAFA.

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Um dia, no entanto, quando se principiou a aurora, na praia do mar ancorou-se um grande navio. Sua âncora foi jogada ao mar e os marinheiros abaixaram a vela. O grande dia havia chegado. Era o dia de Ailul, o mês da colheita, décimo segundo ano de sua estada naquele povoado de nome Orphalese. Ao avistá-los, o jovem desceu das montanhas em direção ao mar. Era hora de partir.

“Mas como ir embora sem experimentar a tristeza e a dor da partida?”, perguntava-se. Afinal, passara longos anos de sua vida e, com aquele povo simples, havia partilhado tanto de sua experiência e com ele havia aprendido tantas coisas. Um misto de alegria e dor misturava-se à sua alma.

“Muitos foram os pedaços de minha alma que espalhei nestas terras, e muitos são os filhos de minha ansiedade que caminham, desnudos, entre estas colinas, e não posso abandoná-los sem me sentir entristecido e oprimido”, refletia.

E enquanto se encaminhava em direção ao mar, eis que viu, entre o convés do navio, seus compatriotas. E sua alma gritou-lhes:

“Filhos de minha velha mãe, que correis na crista das vagas impetuosas. Quantas vezes navegastes nos meus sonhos. E agora chegais ao meu despertar, que é meu sonho mais profundo. Disposto encontrais-me a partir, e minha impaciência, de velas desfraldadas, está à espera do vento. Tomarei apenas mais um hausto de ar neste recanto sereno, volverei para trás somente mais um olhar afetuoso. E, logo após, juntar-me-ei a vós, marujo entre marujos.”

E enquanto caminhava, viu homens e mulheres abandonando suas hortas e vinhedos e apressarem-se rumo às portas da cidade. E ouviu-os chamarem seu nome e anunciarem de campo a campo, uns aos outros, a chegada de seu navio.

E ao vê-los, pensou em seu íntimo:

“E o que oferecerei àquele que deixou seu arado no meio do rego e àquele que imobilizou a roda de seu lagar? Converter-se-á meu coração numa árvore de abundantes frutos que colherei e lhes distribuirei?”

E concluiu:

“Sou, acaso, uma harpa para que em mim toque a mão do Onipotente, ou uma flauta para que Seu sopro me atravesse? Um ser em procura de silêncios, eis o que sou, e que tesouros tenho descoberto nos meus silêncios que possa distribuir com segurança? Se este é o dia de minha colheita, em que campos plantei a semente, e em que estações esquecidas?”

Quando aquele jovem, enfim adentrou a cidade, rumo ao cais, o povo inteiro o recebeu ao pé da montanha, e todos estavam chamando seu nome numa só voz.

E dizem que os anciãos foram os primeiros a falar-lhe. Disseram-lhe:

“Não nos deixes ainda. Foste um meio-dia em nosso crepúsculo, e tua juventude deu-nos sonhos para sonhar. Não és um estrangeiro nem um hóspede entre nós, mas nosso filho e nosso bem-amado. Não condenes ainda nosso olhar a sofrer a fome de tua face.” E os sacerdotes e as sacerdotisas disseram-lhe: “Não consintas que as ondas do mar nos separem e que os anos que conosco passaste se tornem uma lembrança. Andaste entre nós como um espírito, e tua imagem tem sido uma luz que nos iluminou as faces”.

E muitas outras coisas lhe foram ditas. Quem testemunhou tudo isso de muito perto contou-me que ele nada disse. Apenas abaixou a cabeça e de seus olhos viram lágrimas caírem.

Naquela cidade, de nome Orphalese, vivia uma velha sacerdotisa de nome Almitra. Ela se aproximou dele e pediu-lhe:

“Profeta de Deus em procura do infinito, quantas vezes sondaste as distâncias à espera de teu navio… Uma coisa, porém, pedimos-te: antes de nos deixares fala-nos e dá-nos de tua verdade. E nós a transmitiremos a nossos filhos, e eles a transmitirão aos seus filhos, e ela não perecerá.”

E sobre muitas coisas se perguntou ao jovem amado. Questionaram-no acerca de muitos temas. E ele lhes falou da amizade, do amor, do matrimônio, dos filhos, da gratidão, do trabalho, da alegria, da tristeza, das roupas, da dor, da beleza, da morte e das leis e de outros tantos temas.

Ao final de sua exposição em forma de ternura, Almitra, a sacerdotisa vidente, disse-lhe: “Bendito seja este dia e este lugar e teu espírito que nos falou.”

Ao que ele lhe respondeu: “Fui eu realmente quem falou? Não era eu também um ouvinte?”

E após subir ao convés, virou-se e, com uma força estremada ainda disse-lhes:

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“Povo de Orphalese, o vento me convida a vos deixar. E embora eu não esteja tão apressado como o vento, devo afastar-me. A aurora nunca nos deve encontrar onde o poente nos deixou. Um dia voltarei a vós como a maré… Vou-me com o vento, povo de Orphalese, mas não descerei ao vácuo do nada. O pulsar de vossos corações repercutia no meu coração, e vosso hálito flutuava sobre meu rosto, e assim vos conheci a todos. Sim, conheci vossas alegrias e vossas mágoas; e quando dormíeis, vossos sonhos eram meu sonhos. […] Sim, vós sois como um oceano. […] Vós sóis também como as estações. E embora em vosso inverno negueis vossa primavera, a primavera, que descansa dentro de vós, sorri na sua letargia e não se sente ofendida. Eu vim tomar de vossa sabedoria. E eis que encontrei o que é superior à sabedoria: um espírito em fogo que se alimenta de si próprio e cresce constantemente. […] É a vida à procura da vida em corpos temerosos da sepultura. Não há sepulturas por aqui. Estas montanhas e planícies são berços e alpondras. […] Eu vos tenho dado menos que uma promessa, e, no entanto, fostes mais generosos comigo. Destes-me uma sede mais profunda de viver. Certamente não se pode fazer dom maior a um homem do que converter seus desígnios em lábios ávidos, e toda a vida num manancial. E nisto consiste minha honra e minha recompensa. Que toda vez que venho à fonte para beber, encontro a própria água sedenta; e ela me bebe enquanto a bebo.”

E mirando o capitão do navio que a esta altura o aguardava postado ao leme, já tendo as velas desenroladas, e mirando o horizonte, concluiu:

“Adeus, povo de Orphalese, […] o que aqui nos foi dado, nós o conservaremos”

Dizendo isso, acenou aos marujos, e eles levantaram ferro, soltaram as amarras e rumaram para o leste.

Disse-me, quem me contou tudo isso, que apenas uma pessoa ficou ali, a espreita do navio que partia, silenciosa: Almitra, fixando o navio até que ele encobriu-se no nevoeiro. E mesmo depois que todos se dispersaram, ela ainda continuou por lá, sozinha, em pé, sobre o quebra mar, rememorando em seu coração as últimas palavras de AL-Mustafa.

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Por, Pe. Claudemar Silva

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