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Ano Litúrgico, mistério de um Deus Conosco, por Pe. Douglas Nunes

Ano Litúrgico, mistério de um Deus Conosco

Pe. Douglas Nunes
Coordenador Geral da Comissão Diocesana de Liturgia
Pároco da Paróquia São Francisco de Assis

Com o mistério da Encarnarão, Deus irrompe no tempo e na história humana; Deus habitou como um de nós. Jesus, o Verbo encarnado, nasceu na pequena cidade de Belém da Judéia no tempo do rei Herodes (Mt 2,1). Passou seus primeiros anos em Nazaré onde vivia submisso a seus pais (Lc 2,51) e com eles participava das festas hebraicas (cfr. Lc 2,41-42). Andou pelas cidades e pelos campos da Palestina, escalou suas colinas e montanhas e atravessou seu lago. Quando os Evangelhos narram a missão de Cristo, nos dão informações sobre as circunstâncias, às vezes sobre o dia e sobre a hora em que ele fazia ou dizia alguma coisa. Ele louvava o Deus de seus pais, rezava, perdoava os pecadores, defendia os oprimidos, curava os doentes e ressuscitava os mortos em momentos e lugares específicos. Quando chegou para ele a hora de completar sua obra messiânica, entregou-se à morte na cruz em uma sexta-feira as três da tarde aproximadamente numa colina chamada Gólgota (Mt 27,46; Jo 19,31). Em seguida, os seus discípulos anunciaram a sua ressurreição de entre os mortos e aparição às mulheres na manhã do primeiro dia da semana (cfr. Mc 16,2). Para coroar sua obra de salvação, mandou o Espírito Santo aos discípulos no dia de Pentecostes às nove da manhã (At 2,1; 15). Como está afirmado em Ad Gentes (AG) 10, “O próprio Cristo, através de sua encarnação, ligou-se a determinadas condições sociais e culturais dos homens com que viveu”.

Na pessoa de Cristo, Deus viveu e realizou a salvação humana no tempo e no espaço. No cristianismo o tempo e o espaço são a fase em que Deus e o homem se encontram. Eis porque o cristianismo é uma religião histórica que progride em espiral, diferente dos ciclos fechados das religiões mitológicas.

Por causa da encarnação de Cristo, o tempo não é mais simplesmente cósmico e histórico: adquire uma dimensão soteriológica (salvação). Para os cristãos, o tempo não é mais a simples sucessão de dia e noite, semanas, meses e estações do ano, mas tornou-se o momento privilegiado em que, mediante a liturgia, os cristãos fazem experiência da presença e do poder salvífico de Cristo. O “tempo de Cristo”, isto é, o tempo que ele percorreu nessa sua atividade messiânica e sacerdotal, deu origem ao “tempo da Igreja”, isto é, ao tempo litúrgico que incorpora “o tempo de Cristo”. Eis porque o Calendário Litúrgico da Igreja se distingue do Calendário Civil.

Porém o Ano Litúrgico é muito mais que um conjunto de ciclos e tempos de celebração com seus ritmos próprios, isto é o Calendário Litúrgico. Em todo caso, este é expressão visível e estruturada do Ano Litúrgico.

Desde os primórdios do cristianismo, a Páscoa é o eixo central da pregação, da celebração e da vida cristã. O culto da Igreja nasce da Páscoa e para celebrar a Páscoa. A Igreja primitiva permaneceu fiel à celebração da Páscoa semanal e anual. Esta última era celebrada com a Vigília Solene – a “mãe de todas as vigílias” -, considerada sob o aspecto da passagem de Cristo, da morte para a ressurreição. Ao redor desse núcleo primitivo vai-se constituindo o “Tríduo Sagrado” que celebra a morte de Cristo (Sexta-feira santa), a sepultura (Sábado santo) e sua ressurreição (Domingo com a grande vigília). Trata-se sempre da Páscoa celebrada em três dias. A Solenidade Pascal vai se prolongando numa festa de cinquenta dias, o “Pentecostes”, com um marcante destaque para a vinda gloriosa do Senhor, considerada iminente.

A Quaresma, que nos prepara para a Páscoa, nos é oferecida a cada ano, como “sinal sacramental da nossa conversão”. “Por sua dupla característica [batismal e penitencial] reúne, catecúmenos e fiéis na celebração do mistério pascal”. Tempo de “recolhimento espiritual” para ambos (RICA 152). A conversão é a possibilidade de superar o mal pelo exercício constante do bem. A este fim está destinada a penitência quaresmal que deve estar “sempre impregnada do espírito evangélico e orientada para o bem dos irmãos”, recorrendo ao trinômio ditado pelo Senhor: esmola, oração e jejum (Mt 6,1-6.16-18).

Ao lado do Ciclo da Páscoa, encontramos o Ciclo do Natal/Epifania. Estes dois grandes ciclos estão no centro da vida da Igreja.

Desde o início, as festas do Natal e Epifania consistem na celebração de um único e idêntico objeto: a encarnação do Verbo, embora com diferentes matizes no Ocidente e no Oriente. Essa diversidade de tom pode ser constatada pelas duas denominações. No Oriente, o Mistério da Encarnação era celebrado no dia 6 de janeiro, com o nome de Epifania; no Ocidente (em Roma), o mistério era celebrado no dia 25 de dezembro, com o nome de Natalis Domini. A distinção entre as duas festas, com conteúdo diferente, aconteceu entre o fim do século IV e o início do século V.

O tempo da preparação – o Advento – nos é dado a cada ano como “sacramento” da nossa espera. Nas duas primeiras semanas, compartilhando a esperança do povo de Israel, nossos corações se voltam, sobretudo, para a segunda vinda de Jesus no fim dos tempos; nas duas últimas (coincidindo com a Novena de Natal), o foco é a memória da primeira vinda a ser celebrada nas Festas de Natal. Em todo o Advento, nossa atenção se faz vigilante aos sinais velados da sua vinda a se manifestar em nosso dia a dia.

O “Tempo Comum” constituído por 33-34 semanas, que têm o seu lugar, depois da festa do batismo de Jesus e depois do Domingo de Pentecostes, se chama “comum” porque não tem como objeto a celebração especial de algum mistério determinado de Cristo. O fato de ser “comum” não significa ser algo de menor importância. Ao contrário, é tempo importante, tão importante que, sem ele, a celebração do mistério de Cristo e a sua sucessiva assimilação pelos cristãos seriam reduzidas a episódios isolados, ao invés de impregnar toda a existência dos fiéis e das comunidades.

Vivamos com alegria e entusiasmo o Ano Litúrgico que iniciamos e celebremos com fé firme a esperança de sermos abraçados inteiramente pelo Amor Misericordioso de Deus.

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