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ARTIGO: A MORTE: EXPLOSÃO DOS LIMITES, POR DOM JOÃO BOSCO ÓLIVER DE FARIA

Novembro: Finados

A MORTE: EXPLOSÃO DOS LIMITES

 

+ João Bosco Óliver de Faria
Arcebispo Emérito de Diamantina

 

É comum associarmos o termo morte aos sentidos de perda, de finitude, de fracasso.

Perda: tive cinco filhos e perdi um.

Finitude: ele abandonou os estudos; vai ser o fim de sua carreira.

Fracasso: depois de sua última apresentação, o palco morreu para ele.

Em qualquer dessas acepções, o sentido evoca limite.

                Não podemos, contudo, nos esquecer de que tudo o que é criado é limitado. Quem constrói uma casa, estabelece antes seus limites: tamanho, número de salas, número de quartos, tamanho da cozinha e de suas dependências, etc. Ao criar suas obras, Deus também estabelece para cada criatura – e o ser humano é a mais perfeita delas, sem contar os anjos – os limites apropriados. Assim, nós recebemos, com o dom da vida, os nossos limites.

                A vitalidade de uma pessoa é limitada no tempo e na sua ação na história. Ao longo da vida, começam a aparecer os sinais dos limites, que crescem quando surge alguma doença. Se esta prospera, vão se acentuando os sinais dos limites: o leito, o hospital, o CTI, o isolamento, o coma. Na mesma proporção em que aumentam os limites do corpo, diminuem as expressões de comunicação da inteligência, do espírito. Perde-se a fala, diminui-se a visão, mas a audição tende a permanecer. A pessoa vê, mexe seus olhos, acompanhando o movimento do quarto; escuta, mas não consegue falar, exprimir seus sentimentos: entra no túnel da solidão e do silêncio. O espírito vai se sentindo cada vez mais sufocado: quer se exprimir, mas o corpo não obedece. Imagino ser essa uma solidão terrível. A pessoa percebe que a vida lhe escorrega das mãos, nota as conversas sussurradas das pessoas no quarto, sabe que não está bem, mas não tem a real dimensão do fato. Apesar disso, o moribundo não perde a esperança e o desejo sempre mais forte de viver. Lamenta-se a sós – na solidão – por tudo aquilo que deixara de fazer e que, na sua percepção, talvez não possa mais fazer. Terrível. O espírito sente-se limitado, amordaçado, quase massacrado pelo corpo enfraquecido. Transcorridos os dias que não consegue mais andar, passa a sentir o enfraquecer dos braços, já não estende a mão às suas visitas, até a comida lhe é colocada na boca. Quer se manifestar, mas, quando fala, ninguém entende seus balbucios. Ainda que tente ser forte e esconder a dor diante dos limites impostos pela natureza, alguma lágrima incontida brota-lhe sorrateira dos olhos.

                Quando, finalmente, a morte – antes temida e agora desejada – chega, arrebentam-se todos os limites para o espírito que, na liberdade absoluta, penetra na Visão Beatífica Divina, contemplando Deus Pai Criador e Providente, na glória de Seus anjos e de Seus santos! E a pessoa, antes mortal, sente-se, agora, entre os santos prediletos de Deus, gozando da imortalidade, na alegria eterna, ilimitada e infinita. Rompe-se o véu do tempo e a pessoa penetra no mistério da eternidade! A morte é ruim para quem fica, mas é a doce e suspirada porta que se fecha à dor e ao sofrimento, para se abrir à Festa sem Fim, no Céu, que lhe fora preparada desde toda a eternidade!

Nesse momento, a pessoa poderá, então, dizer:

                                Ó rei de tremenda majestade,

                                que salvas sem pagamento os que devem ser salvos,

                                salva-me, fonte de piedade!

Rex tremendae majestatis, qui salvandos salvas gratis, salva me, fons pietatis.

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