A Igreja no Brasil e no Mundo

Artigo: aprender a ser uma presença de cura

Por Bill Tammeus

Estamos perdendo um homem que chamarei de Dan.

Funcionário valioso da mesma empresa por 30 anos, ele se aposentou há pouco tempo. Até um ou dois anos atrás, Dan, o marido de uma amiga, era engajado na vida, ocupado em sua oficina madeireira, brincando com um monte de netos, viajando e apoiando o trabalho profissional que sua esposa ainda faz.

Hoje, na maior parte do tempo ele se senta em sua cadeira e assiste TV, às vezes soltando uma risada bem baixa – não exatamente uma risadinha –, independentemente do programa a que esteja assistindo. A sua risada significa que algo é engraçado ou triste, amedrontador ou maluco, com ou sem sentido. Às vezes, isso tudo significa apenas que ele está aí.

Não há nenhum diagnóstico oficial para isso que está acometendo-o, embora imediatamente possa-se pensar ser o mal de Alzheimer. Parece-me, no entanto, um pouco mais complicado do que isso. Ele ainda pode andar, ainda que seu ritmo seja instável. Os seus sapatos com sola de borracha emitem um chiado quando ele cruza o piso de madeira, de forma que fica fácil saber por onde ele anda.

Às vezes, Dan pode se envolver num diálogo e fazer muito sentido. Porém estas trocas não demoram muito. A alegria de sua esposa é que Dan parece feliz, ele não está violento, não parece desejar viver uma vida maneira diferente desta que ele tem tido no momento.

Recentemente, minha esposa e eu passamos alguns dias com eles no estado onde vivem só porque quisemos ver Dan antes de ele ultrapassar o limite cognitivo que lhe permite nos reconhecer. Não trouxemos conosco nenhuma reposta para a situação dele, nenhuma palavra que faria passar a dor, a angústia que sua esposa sente, nenhuma pilha de livros repletos de conselhos.

Tudo o que trouxemos foi nós mesmos. Esperávamos que a nossa presença fosse o nosso presente.

Não é nada deslumbrante, imaginativo dizer que, às vezes, o melhor presente que podemos dar é a nossa presença. Mesmo assim, por mais que esta ideia tenha se tornado senso comum – especialmente para as pessoas nas comunidades de fé –, ela parece ser mais dita do que praticada.

A minha experiência me diz que as pessoas ficam nervosas quanto a se colocarem em situações difíceis envolvendo doenças ou lesões porque temem dizer as palavras erradas, fazer a coisa errada ou serem indesejáveis. A minha experiência também me diz que, às vezes, quando as pessoas despertam para coragem de fazer o que chamarei de uma visita pastoral, elas sobrecarregam o sujeito com palavras desnecessárias, supostamente bons conselhos e muito de si mesmos.

Em ambos os casos – temer resultar em inércia ou em agir demasiadamente, resultando numa falta de jeito –, nada de bom é realmente realizado.

O que as nossas igrejas e outras comunidades de adoração precisam fazer é ensinar os seus membros sobre como ser uma presença de cura. Frequentemente, isso irá exigir nada mais do que se sentar silenciosamente e segurar uma mão. Ou simplesmente manter uma escuta ativa. Esta última é quando nós deixamos o que sofre ou o que cuida dele descarregar, falar tudo o que está acontecendo e como se sente.

Isso é um pouco do que minha esposa e eu fizemos enquanto estivemos visitando. Tivemos várias e ótimas conversas com a esposa de Dan sobre como ela está lidando com tudo isso e o que o futuro pode trazer. E nós, por vezes, simplesmente nos sentamos na sala de TV de Dan e assistimos qualquer coisa que ele estava vendo, fazendo pequenas falas ocasionais.

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Em Mateus 25, Jesus urge as pessoas a se engajarem no acompanhamento pastoral. Ele coloca na boca das pessoas às quais está se dirigindo esta pergunta: “Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?” A resposta, é claro, nos convence: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram”.

Nunca gostei da palavra “menores” aí porque ela parece criar uma espécie de sistema de castas. Porém sou fã da ideia de que não precisamos trazer ouro, incenso ou mirra para os feridos. Tal como os pastores de Belém, podemos apenas trazer nós mesmos.

National Catholic Reporter, 12-11-2014.
*Bill Tammeus é irmão presbiteriano e ex-colunista premiado do jornal The Kansas City Star, escreve diariamente para o blog “Faith Matters” e mensalmente para a revista The Presbyterian Outlook. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

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