A Igreja no Brasil e no Mundo

Artigo: Carnaval e fé cristã

Aproxima-se a grande festa do carnaval. Fantasias, muita animação, viagens, lazer e descanso, mas também muitos excessos, violência, acidentes e mortes. Muito se diz sobre a origem desse dia que se estende como um grande feriado prolongado. Uns falam de carros navais (barcos) enfeitados nos canais de Veneza, outros falam da despedida da carne, algo como um deboche da condição humana na sua contingência e fragilidade. Contudo, a festa já se verifica em outras civilizações e períodos anteriores ao cristianismo e antes de ser incorporada pela cultura ocidental como parte do seu calendário. Dada à imprecisão de suas raízes históricas, bem menos existe de material que comprove sua origem religiosa ou cristã. É mais fácil dizer que sempre houve uma tentativa de cristianização do carnaval, dando-lhe contornos mais apreciáveis aos cristãos com expressões (músicas e brincadeiras) mais ou menos compatíveis com a fé. Hoje, verifica-se isso sobretudo pelas inúmeras propostas de retiros espirituais, as marchinhas de Jesus, os blocos de Jesus e por aí vai…

carnaval

Cada um faz do seu tempo o que quer e me parece tão legítimo ficar o feriado assistindo a filmes e lendo livros como frequentar um retiro espiritual. Contudo, desejo reclamar para o tempo da Quaresma essa qualidade de retiro. Este sim é o período de aprofundar a vocação cristã pela prática da oração, do jejum e da esmola, pela frequência à liturgia dominical, ao sacramento da Reconciliação e pela leitura das Escrituras. A Quaresma nos convida à reflexão, ao recolhimento, à autocrítica: em que medida minha vida corresponde ao Evangelho? Assim devolveríamos ao tempo quaresmal sua fecundidade espiritual, promovendo momentos em que os fiéis pudessem fazer um itinerário significativo rumo à Páscoa.

Diria, para os retirantes, que escolham um retiro que fomente o desejo de fazer um bom percurso quaresmal, sem contudo antecipar o que é próprio da quaresma

Mas e o que fazer com o carnaval? Em primeiro lugar, é bom nos perguntar: qual carnaval? Para o cristão que gosta de se divertir com a folia, é bom não escolher as expressões que incluam os indesejáveis excessos (violência, alcoolismo, drogas, sensualidade) que colocam em risco a sua vivência da fé e nem a própria vida e a saúde. A postura do cristão autêntico e a sabedoria do Evangelho ajudarão a dizer sim ou não ao que se lhe apresenta. Existem coisas no carnaval que são rejeitadas até mesmo por pessoas que não crêem, pois que nem do ponto de vista humano compensam…

Também é bom tempo para o convívio com a família, desfrutando a alegria do descanso, fazendo um movimento de desaceleração, de repouso e de atenção às coisas importantes que estão à sua volta. Existem opções culturais, viagens, e atividades esportivas que bem substituem o lixo televisivo que invade nossas casas. E, se acuados por tanto bombardeio, é bom ligar a capacidade seletiva, fazendo uma boa reciclagem dos elementos que o carnaval produz. Quem sabe selecionar o samba enredo ou marchinha que despontam pela qualidade poética, musical? O cristão está autorizado e deve usar a inteligência que Deus lhe deu.

Por fim, para não ficar um sabor de reatividade ao carnaval e aos retiros promovidos nesta ocasião, não sou contra nem a um e nem a outro (qual carnaval e qual retiro? – me perguntaria…), diria, para os retirantes, que escolham um retiro que fomente o desejo de fazer um bom percurso quaresmal, sem contudo antecipar o que é próprio da quaresma. Um retiro de verdade que não descambe para um “carnaval batizado”, ou para uma diversão religiosa que, penso eu, enfraquecem a mensagem da nossa fé. Quanto ao carnaval, termino com um samba enredo de Luis Carlos da Vila, com boa música e boa poesia (muito inspirador!):

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o Mestre sonhava

O não chorar
E o não sofrer se alastrando
No céu da vida, o amor brilhando
A paz reinando em santa paz

Em cada palma de mão, cada palmo de chão
Semente de felicidade
O fim de toda a opressão, o cantar com emoção
Raiou a liberdade

Chegou o áureo tempo de justiça
Ao esplendor, do preservar a natureza
Respeito a todos os artistas
A porta aberta ao irmão
De qualquer chão, de qualquer raça
O povo todo em louvação
Por esse dia de graça

Fonte: arquidiocesebh

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