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Artigo: "O que pode a Fé?"

 Por, Pe. Claudemar Silva

ano-da-feNa conclusão do Ano da Fé (11/10/2012 – 24/11/2013), promulgado pelo papa [emérito] Bento XVI, nossa reflexão deseja se revestir daquela “prontidão em dar razões” (cf. 1Pd 3,15) daquilo que cremos, uma vez que, “sem Fé é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6). Para tanto, partiremos do geral para o particular; da fé do dia-a-dia para aquela mais vital, a saber, uma Fé que, crida, possa ser confessada, professada e testemunhada pessoal e comunitariamente.

A Fé não é atributo unicamente do ser humano; pelo contrário. Ela é algo próprio também de Deus. Ele é o primeiro a demonstrá-la através de sua ação criadora e, mais explicitamente, ao se dirigir ao ser humano: “crescei-vos e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). Os Evangelhos, na mesma esteira dos demais livros sagrados, partem do pressuposto de que a fé é inerente ao gênero humano. Quando no Evangelho de Lucas os discípulos pedem a Jesus para que aumente a Fé deles, (17,5), podemos supor que o evangelista parte desse pressuposto: da fé-trivial, e, depois dela, queira transparecer aquela compreensão teológica mais radial; Fé-em-Deus.

Assim, é digna de fé a ação do homem e da mulher que, ao acordarem, vão à luta e não temem os inconvenientes que lhes aguardam da “porta pra fora” de suas casas. É também fé quando duas pessoas se encontram e se dispõem a acreditar um no outro e, juntos, assumirem um compromisso que se pretenda para a vida toda. É ainda fé quando os casais, depois de ponderar e se perceber capazes e prontos, ousam conceber a vida e dar-lhe espaço. É preciso ter fé, e muita, para colocar no mundo um outro ser que, a bem da verdade, nenhum deles saberá, a priori, que “bicho vai dar”.

No entanto, o contexto do Evangelho, apesar do pressuposto acima, aborda uma Fé ainda mais radical; “se tiverdes fé, do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta amoreira ‘lança-te ao mar’ e ela vos obedecerá”. É o que poderíamos chamar de “a grande ousadia da Fé”; acreditar sem ver, esperar sem possuir, amar sem exigir nada em troca. Essa pedagogia da Fé tem, em Deus, sua raiz e seu motivo de ser. E não o que se pode obter com Ele ou por meio dEle. Isso é barganha, e não Fé. É “prostituição sagrada”, e não Santidade. Pois, na relação com Deus, busca-se Ele mesmo e não por aquilo que Ele possa ou não nos conceder. Neste encontro relacional, tal como numa relação esponsal, adquire-se o desejo de conhecer mais e mais a pessoa amada; conviver com ela e saber minúcias a seu respeito; “Disse Filipe: ‘Senhor, mostra-nos o Pai’. Disse-lhe Jesus: ‘há tanto tempo convosco, Filipe, e você ainda não me conhece? Quem me viu, Filipe, viu o Pai, pois eu e o Pai somos um’” (Jo 14, 8-9).

Entretanto, estamos acostumados a uma Fé que é vista, quase sempre, como um “seguro caução”. Entramos em relação com Deus não por Ele ser quem é e pelo “prazer” de se estar com Ele, simplesmente. Não poucas vezes, reivindicamos um Deus que nos assegure uma vida tranquila, sem maiores dissabores; que nos garanta certa plausibilidade em tudo. Daí, acreditamos que a Fé possa nos angariar algum privilégio, bens e favores. Pensamos, tão somente, nas benemesses de Deus. Por que temos fé, acreditamo-nos melhores do que os outros; por que mais justos, mais santos, mais crentes, sejamos merecedores do “melhor”. Rezamos não por que almejamos uma renovada e crescente relação com Deus, mas por que temos muito a pedir, afinal, são tantas as nossas exigências existenciais. E Ele, como Deus, pode nos beneficiar e muito. Então esperamos, concretamente, que Ele nos livre do mal e de todos os males. Queremos ter saúde, paz, segurança, amor, família, dinheiro, vida longa e filhos perfeitos. Acreditamos que, se formos pessoas boas e de bem, Ele nos concederá tudo isso e muito mais e, na vida futura, o reino dos céus. Ledo engano! A verdade é bem outra.

A Fé em Deus não nos pode auxiliar em nada mais do que aquilo que podemos por nós mesmos, em última instância. A Fé, por exemplo, não nos garantirá uma vida tranquila e feliz, nem tampouco uma conta “pomposa” no banco mais próximo de casa ou num “paraíso fiscal”; nem nos dará sorte no amor nem no prêmio da loteria. A Fé não poderá nos tornar ricos nem mais saudáveis nem mais bonitos nem melhores do que os outros. A Fé também não nos salvará de correr riscos, sérios e inalteráveis. Ela não nos livrará da dor, do sofrimento, da violência nem da angústia nem da morte. A Fé, por melhor e mais pura que seja, não impedirá de nos enganarmos com as pessoas, de sermos traídos, humilhados, decepcionados e até violentados. Ela também não poderá impedir que os nossos filhos sofram dissabores ao longo de suas vidas e que, por infelicidade, algum deles venha a se extraviar para o mal caminho. A Fé não nos colocará em uma redoma de vidro, inquebrantável e inamovível, enquanto tudo o mais ao nosso derredor gira e se precipita sobre o caos.

Poderíamos, então, nos perguntar: enfim, o que pode a Fé? Na verdade, a Fé pode bem pouco, ou muito, dependendo da largueza sincera do coração do Homem.

De fato, a Fé não nos pode salvar da dor, mas ela pode ser estímulo a não estacionarmos nas sequelas e nas machucaduras ao longo da travessia. Ela pode nos colocar em marcha pela busca do fim da dor, da sua ressignificação ou da reorientação da vida. Pois, mesmo que a Fé não nos possa impedir de sofrer, ela pode nos encorajar a lutar, a enfrentar com bravura os dias difíceis e a buscar a solução para o aparentemente impossível. Eis a “montanha” que a Fé pode e deveria mover sempre. A Fé em Deus nos faz enxergar a vida, o mundo, as pessoas, as situações que vivemos, nós mesmos, enfim, tudo, a partir daquele olhar sobre a cruz: “Pai, em tuas mãos, eu entrego o meu Espírito” (Lc 23,46). Entregar o Espírito ao Pai e dizer-lhe, em outras palavras, que a Fé que eu tenho nEle é mais forte, inclusive, do que a morte da qual eu não posso me ausentar. Embora ela esteja às portas, eu confio que o meu Espírito volta para o Pai; volta para onde ele veio. Isso é Fé. Daí que o nosso modelo, perfeito e honesto de Fé, é Jesus de Nazaré; o Cristo de Deus.

A Fé de Jesus nos ensina a sermos autênticos na relação com Deus. Ele confiou plenamente no Pai. Permitiu que o Pai fosse quem Ele era; não o manipulou, não lhe exigiu nada, não se revoltou contra Deus nem o blasfemou, mas confiou: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice, mas faça, no entanto, a Tua vontade e não a minha” (Mt 26,39). Jesus não optou por sofrer nem desejou o sofrimento como um masoquista, mas não fugiu da dor quando ela lhe apareceu, nem buscou por culpados nem perdeu a confiança. Podemos aprender muito olhando para a Fé de Jesus; ela nos ensina o nosso lugar em [e na] relação a [com] Deus: sou o que sou – criatura – e Ele é o que é – Deus.

A Fé autêntica não deixa perturbar o coração nem inverter os papeis. Ela nos dá o senso de equilíbrio e de sensatez que muitas vezes a simples crença ou religiosidade nos fazem perder rapidamente. Por isso, na Fé, o crente não se desespera, mas crê: “tudo está consumado”, isto é; há coisas que não dependem de mim, mas de Deus e a Ele, somente, cabe julgar, decidir e executar. Assim, a Fé autêntica pode e deve esperar por Milagres, mas ela não se fundamenta neles. Ela busca purificar-se sempre dos subterfúgios que, costumeiramente, se apresentam a ela sob o véu de “milagres” e com os quais ela pode se identificar, refastelando-se.

Por fim, poderíamos justificar o nosso modo de crer, por vezes duvidoso e anticristão, com a tese de que Jesus aceitou a cruz por que sabia, a priori, que o Pai o ressuscitaria, como se fosse um prêmio ou um gran finale ou ainda um happy end hollywoodiano. Não é verdade. Tal afirmação seria desonesta e “brincaria” com a vida de Jesus; uma vida inteiramente doada à causa do Reino de Deus, com os seus valores e princípios, e na qual Ele assumiu, consciente e livremente, todos os riscos de se fazer mensageiro dessa Boa-Nova do Reino, onde coexistem o direito, a justiça e a vida plena para todos.

Jesus não sabia, a priori, que o Pai o Ressuscitaria. Ele sabia, isso sim, que o Pai lhe asseguraria o seu amor. Mesmo quando Ele não sentiu a presença do Pai e precisou amargar o Seu silêncio desconcertante, Jesus orou e a sua oração foi súplica: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34), questionou. O questionamento não é falta de Fé, mas é fruto do coração que crê e quer compreender; busca por respostas. E se as busca é por que alguém as pode dar – no caso, o Pai -. Por isso, na cruz, Jesus se lançou nos braços amorosos do Pai, sem exigir certezas e garantias [na angústia, Ele questionou a Deus; na confiança, Ele se entregou ao Pai]. Jesus não aceitou a morte no desespero e na violência do ato perpetrado contra Ele, por mais cruel e desumano que tenha sido. O seu grito não soou como de quem é arrancado da vida e a tenta reter, mas como alguém que se lança num abismo e, tomado de adrenalina, grita e o seu grito torna-se eco enquanto ele cai no “vazio”. O grito de Jesus foi o seu lançar-se no “vazio” de Deus. Foi a sua última prova de Fé e de Confiança no Pai. Lá embaixo, no beijo da morte, o Pai O esperava.

Portanto, a Fé autêntica do fiel que crê tem em Jesus o seu respaldo e a sua razão. Eis “a nossa razão” (cf. IPd 3,15). É porque Jesus acreditou e teve Fé no Pai é que nós, cristãos, podemos, como Ele, também acreditar-confiar-esperar-dar-créditos ao Pai e a Seu Reino. Jesus nos provou até aonde a Fé autêntica pode ir. E Ele foi para nos dizer, dentre muitas outras coisas, que também nós podemos ir muito além do que até aqui ousamos ir. Na ousadia da Fé e na “obscuridade” do crê, o testemunho de Jesus sustenta a nossa decisão. Oxalá nossa Esperança se fortaleça e nossa caridade se robusteça na Fé e no Exemplo do Cristo de Deus. Pois, firmes na Fé, alegres na Esperança e solícitos na Caridade, somos chamados a ir [com Ele] até o fim (cf. Fl 3,16). E, por que dom, a Fé nos faz sentir no “lugar” de Deus; Ele nos chamou na sua Graça a participarmos da Sua vida (cf. Cl 3,3). Regozijemo-nos, pois; sendo Fiel, Ele garante a nossa Fé.

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Claudemar Silva é do clero da diocese de Uberlândia/MG.

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