Diocese de Uberlândia Em Destaque

Beth Goulart: a vocação e o talento de humanizar pela arte

Que o amor seja uma máxima universal, ninguém duvida. E que este seja o mais radical dos mandamentos cristãos, disso sabemos bem: “amar a Deus sobre todas as coisas”, “ao próximo como a si mesmo” e “ao inimigo” são afirmações contundentes que os Evangelhos põem na boca de Jesus. E amar é, indubitavelmente, a melhor das identificações do cristão, senão a única.

Esteve em Uberlândia-MG nesse final de semana o espetáculo encenado pela atriz carioca, Beth Goulart, o monólogo “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, uma promoção da Prefeitura para o projeto Circuito Grande Otelo, no Teatro Municipal. O monólogo é uma compilação de cartas, poesias e textos da poetisa, minuciosamente selecionados pela atriz que, desde 2009, os encena nos palcos dos teatros brasileiros e com o qual fora premiada com quatro prêmios de melhor atriz (Shell, APRTR, Revista “Contigo” e Qualidade Brasil), além de melhor espetáculo.

beth-goulart
Foto: Circuito Grande Otelo

Os teólogos de ontem e de hoje são unânimes em afirmar que a poesia é a melhor forma de se fazer teologia, visto que ela nos coloca dentro da vivência da mistagogia, a experiência do inaudito de Deus. Todo poeta, por isso, é, indiscutivelmente, um teólogo. O contrário, porém, não é verdadeiro. E a poesia está aí para extrair das pessoas o melhor e mais radical da humanidade presente em cada ser humano.

O espetáculo “Simplesmente eu, Clarice Lispector” teve duas sessões, uma no sábado e outra no domingo, embora nenhuma delas tenha esgotado os ingressos. Talvez por causa da ínfima divulgação ou do atraso na distribuição dos ingressos, o que, dessa vez, tornou-se mais difícil para os interessados. Fora disponibilizado uma única loja para as trocas, na Provanza do supermercado D’Ville, enquanto em edições anteriores os ingressos foram liberados na loja Provanza do Center Shopping, o que facilita e muito a retirada dos ingressos, tendo em vista a localização da loja em área central da cidade. Também as informações referentes ao monólogo nas grandes mídias, por exemplo, impressa e televisionada, apenas foram veiculadas na semana da apresentação, além do acesso ao Teatro Municipal ser ainda um limitador para quem não possui condução própria. Tudo isso torna a arte em nossa cidade um tanto quanto reduzida a um pequeno grupo. Uma pena.

Todavia, apesar dos entraves, a artista conseguiu com o seu carisma, competência e profissionalismo emocionar e encantar o público presente. Do riso ao choro, do drama à comédia, o espetáculo revelou uma Lispector talvez pouco ou nada conhecida por grande parte dos espectadores uberlandenses. Nesse sentido, a peça foi um convite à leitura de uma das maiores e mais enigmáticas poetisa brasileira. Na voz emoldurada à exaustão, Goulart reproduziu o vozerio inconfundível da mulher que, embora de nacionalidade ucraniana, não se reconhecia como tal, senão genuinamente brasileira: “eu falo assim não por que eu seja estrangeira. É que eu tenho a língua presa. Meu médico diz que tem cirurgia, mas que dói”.

Clarice Lispector, segundo a releitura da atriz de 52 anos, filha de atores, Nicette Bruno e Paulo Goulart, era amante da escrita, embora a tenha relativizado quando posta ao lado das duas outras grandes vocações para as quais Lispector acreditava ter nascido: “escrever, ter filhos (ser mãe) e amar”. Para todas essas, como para qualquer outra, não bastava ter vocação, simplesmente; era preciso ter talento. Uma coisa não está necessariamente para a outra, segundo a poetisa: “Você pode ter vocação, mas não ter talento; ou ter talento e não ter vocação”. Ter ambos é uma raridade. E amar era-lhe sublime: “Eu tenho raiva de amar tanto”.

Num dos momentos mais emocionantes do espetáculo, Beth Goulart, digo, Clarice Lispector, [quando o artista cumpre o seu papel de interpretar, o espectador se convence quanto ao personagem; quem é quem?] tematizou Deus e, embora sendo judia, não era dada a liturgias. Preferia a relação mística com o sagrado, de forma livre e pessoal. Suplicou que ele, Deus, viesse viver dentro dela, tal como o silêncio a que ela tanto almejava. Aquele silêncio que nos coloca diante do drama da vida. Beth Goulart “rezou”, cantou e emocionou. Numa interpretação digna de grandes sopranos, entoou o Salmo 22 em tradução livre, para o deleite do público presente, especialmente na evocação do estribilho mais conhecido: “o senhor é meu pastor, nada me falta”.

Num conto que traduz a sua experiência mística, Clarice se pôs de um modo novo ao se relacionar com Deus: “Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo […] Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre”, num belíssimo texto intitulado “perdoando Deus”, quando a poetisa, num dia em que saíra para um passeio e neste encantara-se com a beleza do mundo, viu, de repente, surgir diante de si um espectro de horror e que a fez sentir-se insultada: um rato morto. Fato do qual ela não pode se esquivar: “[…] Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. […] E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. […] Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. […] Então era assim? eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto”.

Uma hora e meia depois, a artista se despediu do público que a ovacionava de pé e por um tempo quase ininterrupto. A atriz voltou ao palco e agradeceu, especialmente pela iniciativa da troca dos ingressos por presentes pedagógicos, destinados a instituições de caridade.

Por fim, desejou ao público um natal genuinamente solidário e humano: “sejam gentis uns com os outros. Tenham amor no coração. Amem-se e amem o próximo. A grande transformação da sociedade que almejamos começa hoje, em cada um de nós. Vamos fazer a nossa parte. E lembrem-se: ela começa pelo amor. Obrigada pela presença de cada um de vocês. O teatro se faz conosco, artistas, e por vocês que vêm ser extensão da nossa arte”, finalizou.

Arte e poesia a serviço da evangelização, da humanização do homem e da promoção do Reino de Deus. Alguém duvida?

_________

Por, Diácono Claudemar Silva

1 comentário

Clique aqui para postar um comentário

  • Uma bela leitura do espetáculo, traduzida neste texto.
    Gostaria, no entanto, de esclarecer dois pontos:
    1) Não é verdade que nenhuma das duas sessões tenha esgotado os ingressos, como mencionado pelo diácono. Para as duas sessões os convites acabaram. No sábado, apenas algumas poltronas na lateral esquerda ficaram desocupadas. Muitas ausências aconteceram em decorrência da tempestade que começou a cair minutos antes do início do espetáculo. Ainda assim, foi registrado um público de quase 700 pessoas. No domingo, foram colocadas poltronas extras, uma opção que a estrutura do teatro permite quando o fosso de orquestra é abaixado ao nível da plateia, atingindo, nesse formato, uma lotação de 818 espectadores. Registrou-se um público de 750 pessoas. A divulgação não foi “ínfima” e nem houve “atraso na distribuição dos ingressos”. Eles estavam disponíveis para os interessados desde o dia 27 de novembro, o que foi amplamente noticiado no jornal e nas redes sociais.
    O outro ponto é que há transporte urbano para os que não têm condução própria, com parada na porta do teatro. Isso foi solicitado à Settran e já está disponível há várias semanas, com parada na rua que fica atrás do teatro, de onde também é possível entrar, pelo estacionamento do mesmo. Além deste, há uma outra linha, que já existia antes, com parada próxima ao local. Quanto à veiculação na mídia apenas na semana da apresentação, é assim mesmo que acontece. Nenhum veículo jornalístico se dispõe a cobrir o evento muito tempo antes que ele aconteça. Para eles isso não faz sentido. Ainda assim, em colunas sociais do jornal Correio, por exemplo, a notícia tem sido repetidamente veiculada há mais de dois meses. Isso para não mencionar os sites de internet e as redes sociais, onde também a comunicação do evento começou com bastante antecedência. A comunicação, portanto, existiu. E foi bastante eficiente.
    Basicamente é isso, as duas sessões foram sim esgotadas e isso foi resultado dessa comunicação.
    No mais, parabenizo pelo olhar sobre o espetáculo e sobre as reflexões que ele provoca.
    Cordiais abraços.

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!