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Carta a S. Santidade, o papa Francisco

Santidade, li, recentemente, na mídia que o Senhor teria dito: “Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, (…) mas é tudo falso. O mundo continua em guerra, fazendo guerras, não compreendeu o caminho da paz” (Homilia – 19/11/2015, Vaticano).

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Infelizmente, esta é uma triste constatação. O seu lamento doeu também em mim. Por onde andamos e sob os mais diversos ângulos o que vemos são homens e mulheres se digladiando, entregando-se a expressões nefastas do mal e do horror. De fato, não se pode conseguir grandes coisas pelo viés da disputa acirrada, acalorada pelos ditames das bombas, dos mísseis, dos artefatos de guerra. É impressionante como o mundo não aprendeu ainda, depois de duas grandes guerras, e de um sem fim de conflitos, que a violência só gera violência. Que o espiral da vingança não tem fim e que os primeiros a pagarem caro pela dívida bélica são os inocentes, os pobres, os desafortunados desse mundo.

Santidade, uma pessoa em sã consciência será, indubitavelmente, capaz de diagnosticar: estamos à mercê dos poderes opressores desse mundo. Hoje, os que combatem o terror, o crime, a violência – e utilizando-se das mesmas armas que aqueles – foram, no passado, e não muito distante, os promotores de toda forma de exploração, de insurreições e de vilipêndios dos bens naturais, dos recursos hídricos, petrolíferos, naturais e, pior, humanos.

Se hoje o mundo está mergulhado no horror, no mal e na violência, isso se deve, em grande parte, às opções deliberadas que fizemos ao longo de nossa história. Quantos países vitimados por uma política ditadora, opressiva e desagregadora. Nações inteiras subjugadas pela tirania de homens e mulheres desprovidos do mínimo de civilidade, sem contemplar os valores inalienáveis já apregoados pelos Direitos Humanos, desde 1948. Tantas democracias enfraquecidas pela corrupção de políticos desonestos e homicidas, pois suas ações criminosas impedem que os recursos cheguem à educação, à saúde, e às muitas ações sociais e de interesse coletivo. Os governantes e suas políticas já demonstraram ineficácia para os clamores hodiernos. Muitos desses líderes estão impotentes e aprisionados em suas próprias teias, ou se deixaram “prostituir” com os outros poderes que constituem uma nação democrática. Numa tática de boa vizinhança e de camaradagem, acobertam-se uns aos outros e as questões de ordem pública e que envolvem os principais interesses de uma nação não são resolvidos. Falta interesse e vontade política. Falta sensibilidade e amor à causa. Falta vocação explícita em contribuir para o melhoramento de tudo. Sobram interesses escusos, pessoais, partidários e criminosos.

Santo Padre, de fato, a luz e o brilho do Natal foram obnubilados pelas mazelas do tempo presente. Quanta tristeza e dor há no mundo! Crianças sem a menor chance de crescerem em países pacíficos e promotores de vida e de sonhos. Que adianta crescer sem ter o privilégio de sonhar? Jovens solapados e envenenados pelo crime hediondo das drogas, lícitas e ilícitas, aliciados desde a mais tenra idade por homens e mulheres peritos em desumanidades. Traficantes de vidas, de sonhos, de esperanças e de um futuro promissor. Herodes ainda caminha por entre nós, e continua a matar tantos meninos e meninas inocentes. O sangue desses nossos irmãos menores clama, dia e noite, por justiça.

O Natal, festa genuinamente familiar, perdeu espaço para o consumismo sempre mais desenfreado e selvagem. A ânsia de ter e de acumular cegam os pais e os filhos e os impedem de se verem em suas reais necessidades. Cônjuges indiferentes um ao outro; filhos esquecidos e abandonados à própria sorte e famílias inteiras desagregadas, porque se deixaram levar pela infinidade de opções tecnológicas de ponta que não conseguem eliminar as distâncias sempre mais gigantes entre os seres humanos. Os idosos, embora seja a casta que mais tenha se avolumado graças à qualidade de vida possibilitada pelas inovações e descobertas científicas, e de serem considerados sábios por causa das experiências vividas, muitos deles são abandonados em asilos ou relegados à própria sorte. O que é uma lástima. Um país que não cuida do seu início – crianças – e do seu fim – idosos – é um país que facilmente se esquece de sua constituição mais radical. Deixa de ser povo.

Santidade, o cenário é aterrador. Concordo. É quase estagnante e incute em nós uma profunda letargia. Parece-nos que nada muda e que não há verdadeiro interesse de mudança. Haverá ainda algo a ser feito? Ainda vale a pena viver?

Essas perguntas habitam muitos corações. E quando não encontram respostas plausíveis, não são poucos aqueles que atentam contra a própria vida. O número de suicídio, especialmente entre os jovens, é alarmante. A falta de sentido na vida tem levado uma quantidade considerável de jovens a buscar realidades que lhes deem segurança. Daí, tantos se embrenhando nas fileiras do terror, do crime, da violência e tão apáticos a realidades antes consideradas dignas: política, educação, artes, religião.

Santo Padre, por tudo isso, por um diagnóstico simples e que qualquer pessoa observando a realidade seria capaz de fazer, é que eu, um simples padre do interior das Minas Gerais, Brasil, ouso discordar do senhor, com toda humildade e amor filial.

É por tudo isso, Santidade, que o Natal é tão necessário. Celebrá-lo com grande júbilo e proclamá-lo sob fortes luzes é nosso dever. O anúncio da chegada do Messias, daquela luz “que brilha nas trevas” é ainda capaz de dissipar toda e qualquer escuridão; é, aliás, a melhor notícia que o mundo, ainda hoje, pode receber.

Se o homem de hoje, mais do que o de outrora, tem se esquecido de sua gênese e do sentido mais radical de sua vida, é preciso que nós, homens de fé e de esperança, anunciemos com coragem a mensagem da boa-nova do Evangelho: “O verbo divino se fez carne e veio habitar entre nós” (Jo 1, 14). O EMANUEL continua conosco. Não nos deixou sós.

Apesar de todos os rumores de guerras, de tantos leitos de rios banhados pelo crime de empresas que destroem vidas, de tantos crimes contra o patrimônio público e frente às avalanches homicidas de fanáticos por instaurar o medo e o terror, o que de melhor nós temos para informar ao mundo é isto: “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz. Rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos. […] porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz. Seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino. Ele o firmará e o manterá pelo direito e pela justiça, desde agora e para sempre. Eis o que fará o zelo do Senhor dos exércitos. […] Isaías 9, 2-7.

Suplicando sua benção, pp. Francisco, na proximidade do Natal do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem servimos nos homens e mulheres de hoje, desejo-lhe, de coração, um Feliz e Santo Natal.

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Por, Pe. Claudemar Silva

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