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Cenas bonitas, por Dom Paulo Francisco Machado

Há, no decorrer de nossa vida, cenas que são ciosamente guardadas como fotos na memória do coração. Escolhi quatro dessas cenas que ainda me encantam por sua beleza. Mas, antes devo justificar porque as chamei de bonitas. É que este termo foi muito usado entre os medievais, porque eles entendiam que a beleza não estava somente na forma graciosa das coisas, na harmoniosa proporção de elementos mas, sobretudo, na bondade, (bonum, bom). A grandeza, a genialidade de uma obra de arte: escultura, literatura, está em despertar na pessoa o sentimento do bem, da vida virtuosa, da bondade.

Como já afirmei, escolhi quatro cenas, três delas fotografadas a partir do cotidiano, dessas com a qual nos deparamos na rua, na praça; a última eu a vi na tela da TV, durante um antigo noticiário.

A primeira poderia se chamar de: o mendigo e a menina. Foi numa escadaria de igreja. Um desses pedintes que nós encontramos, infelizmente, à farta no nosso pobre/rico país. Um velho de cabelo desgrenhado e embranquecido, sentado num degrau. Ao seu lado, uma menina aparentando de 8 a 10 anos. Em determinado instante, a menina pôs a cabeça no ombro daquele que talvez fosse seu avô. A cena comovedora fez-me logo reafirmar a certeza de que todo ser humano tem necessidade de afeto, de amor, de ser compreendido e amado. Vivemos numa sociedade excludente, que pode nos levar a pensar que somos melhores que os outros, que bons sentimentos e bons afetos são propriedades de pessoas intelectualmente bem formadas, com melhores condições de vida.

A segunda cena eu a gravei na memória, quando vi pai e filha atravessando uma rua. A filha cheia de cuidado e atenção ao pai que, pela longa idade, mal conseguia andar. Ela o enlaçava por baixo dos braços para ampará-lo a cada passo que fazia e, aqueles dez metros de rua eram para ele como que uma longa travessia. Contemplei a beleza do cuidado para com as pessoas mais desamparadas, a necessidade de fazer com que se compreenda que a grandeza de uma cidade, de uma civilização, de uma nação se mede não pelos seus grandes feitos materiais, mas pela atenção e cuidado às pessoas, especialmente, as mais vulneráveis.

A penúltima cena, a mais recente. Numa grande avenida, em luxuoso automóvel parado. Observei o que se passou. Abriu-se a porta do carro e dele sai uma criança de seus 8 a 10 anos. Ela vai até um mendigo sentado na sarjeta e lhe entrega algum dinheiro. Não sei qual o valor entregue, era certamente uma pequena quantia, mas a grandeza do gesto tem o tamanho da tão esquecida virtude da compaixão, da caridade. Mais me impressionou a atitude do pai, um educador que faz questão de pôr no coração de sua filha a semente do amor.

Por último, a cena de um noticiário da TV, que correu o mundo há alguns anos: um grupo de homens cristãos ajoelhados, tendo por trás seus algozes do Califado Mulçumano, com as facas prontas para degolar a cada um deles. Eles rezavam, enquanto esperavam o golpe fatal. No coração de cada um deles a prontidão para não renegar a fé em Cristo. Passados dois mil anos, não são poucos os que escolhem a Deus, e que O colocam no centro de seus corações.

Fico por aqui. Nos nossos dias são tantas as fotos desoladoras: hospitais entupidos de doentes, tratados como lixo humano, sangue derramado por um nada, famílias destruídas, fome e miséria, casebres pendurados nos morros. Mas o cristão não se intimida diante do mal, ele crê no Ressuscitado, vive da Páscoa do Senhor, por isso, luta pelo Reino de justiça e paz. Resta-lhe ainda a certeza daquilo que Gonzaguinha cantava: “A vida é bonita, é bonita e é bonita”. Mil vezes bonita!

Por Dom Paulo Francisco Machado
Bispo diocesano de Uberlândia

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