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Cremação: o que a Igreja diz a respeito?

CEMITÉRIO-2

O cuidado com os corpos dos falecidos sempre foi levado em alto grau pela caridade cristã. Santo Agostinho, por exemplo, em seu tratado “De Cura pro Mortuis Gerenda” (O Cuidado Devido aos Mortos) escrito em 421, como resposta a uma consulta feita pelo bispo Paulino de Nola, a respeito da vantagem de se sepultar um cristão junto ao túmulo de um santo, esclarece:

“É verdade que a terra não recebeu o corpo de grande quantidade de cristãos, mas, mesmo assim, ninguém separou a terra do céu, pois ela está cheia da presença d’Aquele que sabe de onde chamar à vida para aquilo que criou. […] É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus santos. Assim, as providências quanto ao funeral, a escolha da sepultura, a pompa do enterro, etc., é mais consolo para os vivos do que alívio para os mortos”.

Embora a pergunta fosse, de certa forma, simples, Santo Agostinho aborda uma série de fatos importantes e interessantes a respeito dos mortos, que até hoje são conservados e respeitados pela Igreja. Entre outras coisas, fala da utilidade da oração pelos mortos (antiquíssimo testemunho do Purgatório, ainda que tal palavra não apareça), a oração dos santos falecidos a nosso favor, o dia que a Igreja dedica a todos os falecidos (Dia de Finados).

E mais;

“Já que o sepultamento é, por si mesmo, uma obra religiosa, a escolha do local não poderia ser estranha ao ato religioso. É consolo para os vivos, uma forma de testemunhar sua ternura para com os familiares desaparecidos. Não enxergo, porém, como os mortos podem encontrar aí alguma ajuda, a não ser quando o lugar onde descansam é visitado e são encomendados, pela oração [dos visitantes], à proteção dos santos junto ao Senhor. Contudo, isso pode ser feito ainda quando não é possível sepultá-los em tais lugares santos…”

E mais importante:

“Contudo, se tão piedosa pessoa não consegue sepultar aquele que ama no lugar onde desejaria por inspiração cristã, ela não deve, por isso, suprimir as orações necessárias para a encomendação do defunto. Pouco interessa se aqui ou ali está um corpo sem vida: o essencial é que a alma encontre seu repouso […]”.

Dom Anuar Battisti, arcebispo de Maringá (PR), em artigo veiculado no site da CNBB (www.cnbb.org.br) nos recorda:

“Na sua etimologia cremar ou incinerar se traduz por reduzir às cinzas. Nós cristãos lembramos anualmente com o início da Quaresma que viemos do pó e ao pó  voltaremos. As cinzas, como sinal visível do que no mundo passa, contribuem com a reflexão sobre a nossa transitoriedade e caducidade”.

Levando em conta que hoje “muitos pensam na cremação somente como algo ligado ao sistema ambiental, ao problema higiênico das grandes cidades ou ao custo econômico de um funeral” e outros, “simplesmente deixam na sua decisão final expressões como esta: ‘Não quero que ninguém venha no cemitério me visitar’”, e diante das perguntas de muitos fiéis se depois da morte podem ter seus corpos cremados, dom Anuar Battisti esclarece:

“A prudência que a Igreja manteve sobre o fato dos corpos serem cremados, somente foi esclarecida no Código de Direito Canônico de 1963, quando foi levantada a proibição que se mantinha a respeito da cremação. A ressalva que foi estipulada é aquela de que a cremação seria permitida sempre e quando seus fins não fossem nem materialistas, nem utilitaristas e que por nenhum motivo fosse omitida a celebração ritual do que comumente conhecemos como a encomendação do corpo ou liturgia das exéquias“ (CDC. can. 1176, 3).

O Catecismo da Igreja Católica (CIC) expressa o ensinamento o qual não impede a cremação sempre e quando o corpo humano não seja nem manipulado, nem muito menos aproveitado por nenhum outro motivo diverso daquele da condução final das cinzas, de modo reverente e respeitoso, a um local apropriado. Não é recomendado, espalhar as cinzas no mar, no jardim ou serem depositadas num lugar da casa onde moram os familiares do defunto (CIC 2301).

Por fim, dom Anuar ressalta: “a passagem desta vida para a Eterna deve ser marcada não por meras discussões sobre onde vão repousar os meus restos mortais.  Alguns preparam o seu lugar, o seu túmulo e deixam estipulado o ritual, as músicas e as leituras; tudo isto denota organização, realismo e até maturidade. O que importa é que todos professem que Cristo é a nossa vida, e que esperamos a vida Eterna porque a nossa fé O proclama Senhor dos vivos e dos mortos. Não centremos a nossa esperança no espaço que ocuparão os nossos restos mortais”.

Demos dignidade ao momento da sepultura e ofereçamos uma boa palavra para aqueles que pela dor não conseguem muitas vezes entender a separação; tanto aos corpos que serão sepultados nos cemitérios como aqueles que serão cremados. A todos podemos lhes dedicar a frase que se encontra no cemitério da igreja dos Freis Capuchinhos, na Via Venetto em Roma: “Vocês são hoje o que nós um dia fomos”.

Resolução da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé 

Caso a família opte pela cremação, “as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim determinado pela autoridade eclesiástica”.

“A conservação das cinzas num lugar sagrado pode contribuir para que não se corra o risco de afastar os defuntos da oração e da recordação dos parentes e da comunidade cristã”, diz a nova regra. “Os fiéis defuntos fazem parte da Igreja, que crê na comunhão ‘dos que peregrinam na terra, dos defuntos que estão levando a cabo a sua purificação e dos bem-aventurados do céu: formam todos uma só Igreja'”.

— Para a Igreja Católica, o cemitério tem um sentido muito profundo de comunhão — explica Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.

Por isso, a conservação das cinzas do morto em casa não é permitida, apenas em casos excepcionais. Da mesma forma, os restos mortais não devem ser preservados em peças de joalheira ou outros objetos, nem devem ser espalhados “no ar, na terra, no mar ou de alguma outra maneira”, pois essa prática poderia ser confundida como “panteísta, naturalista ou niilista”.

As novas instruções foram aprovadas pelo Papa Francisco em março deste ano. O autor do texto, cardeal Gerhard Mueller, foi questionado durante coletiva de imprensa sobre a proibição de as famílias guardarem os restos dos amados em casa.

— O corpo morto não é propriedade privada dos familiares, mas um filho de Deus é parte da comunidade de Deus — disse Mueller. — Nós temos que acabar com esse pensamento individualista.

Dom Leonardo Steiner destaca que a questão central da nova instrução é o cuidado de não afastar a devoção pelos falecidos, para a tradição cristã de comunhão entre mortos e vivos não ser perdida num momento de crescimento no número de cremações.

— Hoje, cada vez mais existe esse desejo das pessoas de serem cremadas. Algumas chegam a manifestar essa vontade por escrito — diz Steiner. — É claro que a Igreja teria que se manifestar teologicamente, o que o fez com essa instrução.

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