Diocese de Uberlândia Em Destaque

Crônicas da vida: "generosidade"

Ela me convida a entrar. Seu olhar é simples. Sua voz é simples. Ela toda é simples. Sua casa, rusticamente simples. Não há móveis. Há uma cama, de casal, que não vejo; contaram-me. Não há estantes, nem livros; não há tv, nem sofá; nem geladeira nem fogão. Não há mobílias, nem utensílios. Tudo é pobre. Demasiadamente pobre.

Eu adentro respeitosamente e um tanto comovido, de “pés descalços”. A ordem para “retirar as sandálias” ecoa em meus ouvidos. Ambos estão ali, sentados: ela e ele. Anciãos de muitos anos. “90 anos, cada um”, disse-me um dos filhos, talvez lendo em meus olhos o êxtase diante daquela epifania. Diante deles, como se “ardessem como sarça”, detenho-me: “de onde você veio?”, pergunta-me ela. “Tudo bem com você? Insiste, estendendo-me a mão. Eu, estático, respondo-lhe: é um prazer estar aqui. Estendo-lhe minhas mãos e alcanço as suas: trêmulas, macias e frágeis. Não as aperto, acolho-as candidamente. Não sei bem o que dizer, como dizer e por que dizer. Calo-me.

hqdefault

Diante daquelas vidas, amplamente vividas, sinto-me tão ínfimo, como se estivesse apenas no início. Por um momento tenho lampejos filiais: gostaria de me assentar aos pés daqueles “pais” e beijá-los. A sabedoria, intuo, perpassa-lhes não apenas pelo corpo, tão marcado, mas é como se ousasse se hospedar ali, permanentemente. Ponho-me silente. Quero ouvi-los. Não as palavras ou por meio delas, mas através do silêncio que o instante evoca. Os olhos estão a dizer. Ouço-os. Quem sabe me contem algo que já não conseguem ou não podem mais dizer: nem a mim nem aos seus que, a esta altura, estão todos ali, naquela sala.

A vida daquele casal atravessou o tempo. Juntos, romperam as encostas do possível e, desgastados, sobreviveram. São vidas de outras eras, sem dúvida. Trivialmente vividas? Inenarráveis? O que pensam? O que almejam? Que sonhos ainda possuem? Estou extasiado. Diante de tanta vida, eu me sinto retroceder. Perguntam-me pelo meu nome. Eles insistem em me trazer de volta. Há um estalo, um instante de intimidade: meu nome? Pergunto-lhes um tanto assustado. A esta altura, a minha voz já se ausentou. Sobra-me o engasgo, o rubor pelo momento e a fadiga do êxtase. Sinto que minhas forças vão se esvair por completo. Alguma coisa parece deixar meu corpo. Eu poderia jurar que levitava. Que mistério é este que me assombra ao mesmo tempo em que me encanta? Questiono-me balbuciante.

Eu ainda os fito por um instante. Demoro em olhá-los. O silêncio impera e nossos olhares se respeitam. O mergulho mútuo é inevitável. Eu os adentro e eles em mim. Eu os sigo, e eles me acompanham. Enfim, encontramo-nos lá onde não há nem rota nem roteiro a seguir. De repente, entendemo-nos perfeitamente. Eu os compreendo e lhes devolvo o sorriso. Convenço-me: de fato, não é preciso temer nada; absolutamente nada. A vida é plena. O viver é nostálgico, mas o futuro é grávido de maravilhamentos. Esses encontros me transpassam. Sou solapado de todos os lados. Minhas veias doem, meus nervos se estiram e meu coração adoece. Falta-me o ar, o fôlego e o respirar torna-se difícil. Eu não sei bem o que dizer. Tudo me escapa.

Enfim, digo-lhes apenas que vim para vê-los. E esta é a mais absoluta verdade. Vim de longe para amá-los. Isso me parece um tanto mais honesto. Ela me encara de baixo, assentada junto ao seu companheiro: “você aceita jantar?”. Eu duvido dos meus ouvidos. Afinal, tudo ali parece se ausentar: a memória, a visão, as forças, a saúde, a dispensa com os mantimentos, e, aos poucos, os dias. Mas algo a robustece: sua generosidade. Ela ainda se sabe capaz de partilhar; de dar-se um pouco mais, docemente.

Vagarosamente eu me afasto. Dou um passo para trás e agradeço-lhes. Algo se agiganta. Aquela visão ofusca os meus olhos. Eu cubro a face e, num filete de serenidade e paz, despeço-me. Não há nada mais a dizer. Tudo já foi dito. A esta altura tudo ali já se impregnou indelevelmente em mim: a casa, os rostos, as marcas, as histórias, a ausência das presenças sentidas e partilhadas entre lágrimas; o cheiro intenso do guardado, do restolho de tudo e do acúmulo dos vícios e das virtudes que, “a essa hora”, já se confundem e se intercambiam. Eu me arrasto como se não quisesse partir. A saída, antes tão próxima e ampla, agora se apresenta tão distante e estreita. Meus pés pesam e, só a muito custo, alcançam o último degrau. Minha alma, porém, se detém um pouco mais. Não sei me desprender de vez.

De repente, eu me dou conta: aqui, minha carne ganhou corpo. Por isso, eu me volto e os alcanço uma vez mais. Com certeza a última. Agradeço-lhes demorada e veementemente. Volto-lhes o meu olhar enquanto sigo meu caminho, díspare e oposto ao deles. Se por um momento me faltam a cor e o viço, por outro me sobra a dor da ternura e da gratidão, caladas definitivamente em mim. Não resisto. Volto, abraço-os e a ouço sussurrar sobre o meu peito: “você nos fez tão bem…”.

_______________

Por, Diácono Claudemar Silva

Assine a nossa newsletter

Junte-se à nossa lista de correspondência para receber as últimas notícias e atualizações de nossa equipe.

You have Successfully Subscribed!