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Deus desconcertante, por Dom Paulo Francisco Machado

Deus desconcertante

Dom Paulo Francisco Machado
Bispo Diocesano

Um escritor carioca que admiro, enquanto escritor, Gustavo Corção afirma que os cristãos são seguidores de um Deus ensanguentado e, nesta Semana Santa, poucos terão a oportunidade de segui-Lo presencialmente, mediante a Celebração do Tríduo Pascal, os dolorosos passos de Nosso Senhor até a proclamação solene de sua vitória sobre a morte. Mas de nossas casas poderemos, através dos meios de comunicação social, acompanhá-lo de longe, como as santas mulheres (Maria Santíssima, Maria Madalena, etc.) na narrativa dos últimos dias de sua vida, e, ao seguir Jesus, beberemos a água da Vida.

O Tríduo Pascal é celebrado para nos aproximarmos, aprendermos a viver segundo novo modelo, palmilhando na vida uma nova gramática que nos é anunciada no Crucificado/Ressuscitado. Queremos contemplar o sentido da crucifixão e morte de Jesus, o que nos tem a ensinar e, então retrocedemos à cena do lava-pés, para assim realmente podermos, nesta vida, no nosso cotidiano, seguir os passos de nosso amado Mestre e Senhor, o ensanguentado/ressuscitado.

Consideremos o texto de Jo 13,3-18: “Jesus, sabendo que o Pai tinha entregue tudo em suas mãos e que saíra de junto de Deus e para o Pai voltava, levantou-se da ceia, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura. Derramou água numa bacia, pôs-se a lavar os pés dos discípulos, e enxugava-os com a toalha que trazia à cintura. Chegou assim a Simão Pedro, que lhe disse: ‘Senhor, tu me lavas os pés?’ Jesus respondeu: ‘Agora tu não entendes o que faço, mas tarde o compreenderás’. Pedro disse: ‘Nunca me lavarás os pés!’…

O gesto do Senhor era tão inusitado que recebeu imediatamente os protestos do apóstolo Pedro. Vemos Aquele por Quem foram feitos os astros, as estrelas e o casal humano postar-se humildemente ante suas criaturas. Eu creio no Único criador de tudo que, não só assumiu nossa carne, mas também nossa morte e, abaixado, pôs-se a serviço – Servo humilde – de sua criatura. Creio no Deus que ama infinitamente a cada um de nós.

Ao contemplar a cena do lava-pés, imediatamente reflito sobre o orgulho humano que destrói a beleza, a ‘boniteza’ da convivência humana, vocacionada à fraternidade, à comunhão no amor, sem se intimidar por nenhuma diferença individual. Assim, inúmeras perguntas vêm-me à mente: “Porque, se Deus – O Totalmente Outro – vem ao nosso encontro, nos convida à união com Ele, rejeitamos tantas vezes o próximo, como se nos fosse totalmente estranho? Por que não raro deixamos inserir no nosso íntimo um inoportuno sentimento de superioridade no relacionamento com os outros? Por que nos nossos dias tantas pessoas se sentem melhores que seus irmãos e irmãs devido à pigmentação da pele, ao tamanho (altura e peso) de seu corpo, à gorda conta bancária, a uma inteligência privilegiada – dom de Deus – e não autoconcedida?”

Vejo com apreensão grupos a propalar, após tantos genocídios, conhecidos no século passado, o ‘fake’ da ‘superioridade racial’, a recriar este mito, no esquecimento da contingência humana, de nossa finitude e limitação. Pascal afirma que, ao lado de nossa fraqueza, convive ao mesmo tempo a nossa grandeza, encontrada na nossa razão. Ora é justamente esta razão que vem sendo desprezada, ao negarmos que somos iguais e, no momento atual, ao percebemos nossa fragilidade de ‘caniço’, vítimas de um invisível inimigo, o novo coronavírus.

Vem-me à mente outras tantas perguntas: “Quando vamos nos convencer de que não somos deuses, mas por obra Daquele que se ajoelhou diante de nós? – Sim, fomos divinizados a ponto de, por ação da graça, mudarmos nosso jeito de ser, de se comportar, de olhar o próximo cheio de amor compassivo?”

Deus, aos pés de sua criatura, deixa para cada um de nós um exemplo, uma lição e está disposto a nos conceder a graça de não cultivar nenhum sentimento de superioridade em relação aos outros. Assim, com o presente e despretensioso artigo, repleto de perguntas, faço a última delas: “Quando deixaremos de infantilidades, de sermos ‘criançolas’?

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