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E a Palavra de Deus se fez gente

É Natal. É preciso partir e ser do jeito de Belém. E não há necessidade de irmos até lá, fisicamente. Na verdade, Belém está aqui, bem próxima a nós. O Salvador, nascido num estábulo – curral ou “coxo” -, faz-se presente na casa vizinha; ali mora o Salvador [imagine se cada um de nós pensasse assim, Ele moraria também na minha]. Disso, aprendemos o essencial; o grande escândalo da fé cristã: um “Deus” que se torna aquilo que Ele criou. Ou poderíamos ainda chamá-la de a grande ousadia; aquela mesma ousadia para a qual, na eucaristia, ouvimos o presidente da celebração convidar-nos: “… ousamos dizer: ‘Pai Nosso’…”.

marianiño

Ao celebrar esse grande mistério da fé cristã – só não é maior do que o mistério pascal -, nossa atenção se volta, uma vez mais, para aquela cena singular em que um casal pobre e desprovido de quaisquer recursos se vê obrigado a pousar num lugar inapropriado para um recém-nascido. E isso nos diz muito. Diz-nos da atitude da fé autêntica, sobretudo; daquela fé que não espera e não confia em nada mais, senão no próprio Deus. Que espera dEle, e nEle confia unicamente o coração. Haverá feno e “coxo”. A lua e as estrelas brilharão alegremente no céu e o silêncio e o burburinho daquela noite serão inconfundíveis. É uma noite especial, sem dúvida, como o é para todos aqueles que recebem com alegria um recém-nascido. Deus não se alardeia nem se deixa anunciar com fogos de artifícios, como fazem os grandes do mundo. Naquela noite, como em muitas outras ainda hoje, os “Herodes” continuam a espreitar como um anjo da morte a fim de liquidar os possíveis “des-tronadores” de seus impérios. Morte e vida coexistem, e no meio da tormenta brilha uma luz que indica o caminho a quem O procura de coração sincero e O almeja encontrar.

E diz-nos ainda mais; diz-nos da inversão que Deus empreendeu no seu relacionamento com a criatura que fizera. Enquanto tantos almejam “endeusar-se”, idolatrando a si mesmos, a outros ou a coisas que julgam possuir, Ele, Deus, quis “engatinhar”, fragilizar-se, aninhar-se no seio de uma mulher e receber dela a seiva, o sangue, os genes e a vida. E, paulatinamente, como todos os demais de sua espécie, ir humanizando-se. Aquela Palavra, outrora proferida “de fora”, adentrou-se na História e incorporou-se do nosso jeito, do nosso cheiro, do nosso gosto e adquiriu feições e digitais como nós. Isto é: passou a ter mãos, pés, pulmões, coração… Um corpo. E, com ele, reconheceu nossas dores, nossa fadiga, nossa solidão, nossas limitações e nossos impossíveis. Deixou-se tocar por nossa queda a fim de nos levantar não ao ponto de Deus, mas ao ponto do Homem que havíamos nos esquecido [ou desistido] de ser. Postos de joelhos, ante o peso da vida calcada quase ao extremo, Ele, descendo-a conosco, sustentou-a e, na força verdadeiramente humana do amor-vivido, soergueu-nos à estatura do Homem completo e pleno.

Assim, tendo se tornado Homem, Deus o fez em seu Filho a fim de nos provar [ou seria nos recordar?] que somos muito, valemos muito e que não há por que nos ocultar e fugirmos daquilo para o qual e com o qual fomos talhados. É em nossa humanidade, também com a nossa corporeidade, sem eximir nossas fragilidades, limitações e contingências, que seremos capazes da maior experiência a qual o Homem é vocacionado a empreender: humanizar-se, humanizando-se.

Tal como reza o salmista: “somos obra inacabada de tuas mãos”, (Sl 138, 8), numa espécie de recordação a Deus de que Ele nos precisa tecer todos os dias, hoje e sempre, pois o “homem é novo todos os dias” (Heráclito). De fato, a humanização de Deus é, para nós, um grande convite a (re) descobrir a beleza que a vida é, bem como tudo o que diz respeito à humanidade possível em nós e a partir de nós. Ele, Deus, não se encarnou por que o mundo e o ser humano estivessem perdidos ou fossem maus; absolutamente o contrário. Ele o fez por que desejou nos salvar, isto é, tornar-nos saudáveis, felizes, capazes de nos olhar de frente e nos alegrarmos por não sermos outra coisa senão homens e mulheres, frutos da mão benfazeja, bondosa, habilidosa e criadora de Deus: “Que é o homem, Senhor, para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste”. (Sl 8, 4-5)

Por isso, todas as vezes que ousarmos nos afastar daquilo para o qual fomos feitos; todas as vezes que nos eximirmos de nossa condição intrínseca e refutarmos a gestação do humano em nós, será sempre um “atentado rebelde” contra aquele que se fazendo carne-corpo-gente desejou permanecer permanentemente[1] conosco. Afinal, Ele mesmo desejou, por amor, aprender conosco o que vem-a-ser Ser Humano. E Ele se identificou tanto com a nossa humanidade que a levou consigo, para Deus; para sempre.

É tempo de voltar às nossas “manjedouras” para contemplar, quem sabe um pouco mais demoradamente, a nossa gestação, o nosso nascimento e a nossa vida, a fim de nos perceber também imersos nessa atmosfera do inaudito de Deus que continua a nascer todos os dias em nossa vida e na vida do mundo. Pois, enquanto houver mundo e enquanto houver um novo dia, um único Homem, Ele continuará a vir para nos en-tu-si-as-mar sempre: “sede humanos”! Ele o foi. E, de tão humano, divinizou-se!

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Por, diácono Claudemar Silva


[1] Aqui não se trata de redundância, visto que em nossa cultura podemos perfeitamente permanecer por um dia, uma hora, um ano, mas, talvez, não para sempre.

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