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Editorial de julho: "quem expõe se expõe"

palestra

Graça e Paz.

Este é o nosso 12º Editorial. Há um ano, o senhor bispo diocesano chamou-me à sua sala e apresentou-me as demandas da Comunicação no contexto diocesano. Desde então, fiz o compromisso de mensalmente dirigir-me aos fiéis leigos e ordenados, bem como à imprensa, com uma mensagem simples e que ponha a Diocese em evidência.

A primeira coisa que preciso dizer é que este texto saiu como a maioria dos demais: na madrugada. Após me deitar, veio-me a ideia e os tópicos frasais. Aos poucos, o desenvolvimento e, com ele, o incômodo. Não pude resistir-lhe. À meia-noite, precisamente, comecei a compô-lo. É sempre assim…

Naquele passado remoto, eu, diácono recém-ordenado, tive como primeira reação o medo. Aliás, é outra coisa que preciso confessar: eu tenho medo de quase tudo. O medo é minha companhia constante. Aprendi a conviver com ele. Aquela insegurança e dúvida costumeiras: eu não vou conseguir. E assim foi, em quase tudo que fiz e faço. Diante do novo, lá vem ele, garboso. Durante as cerimônias de casamento em que assisto aos nubentes, a vontade é a de sair correndo dali. Nos primeiro minutos da homilia, diante do microfone, quando estou em evidência e quando preciso me dirigir a um número maior de pessoas, a vontade é sempre a mesma. Tenho sempre receio de me expor e, não obstante, me exponho. O que será que estão pensando? Que julgamentos estão fazendo de mim e do que estou dizendo? Estão rindo, será que é de mim?

Nesses momentos, resta-me racionalizar o medo. É que sou filho do cerrado mineiro. Nasci pobre e no interior das Minas Gerais. E, tal como a natureza que cresce livre e sem peias, a gente cresce com alma que não se acostuma com a crítica e dela sente pavor. Todavia, reconheço que o medo não é de todo ruim. Afinal, ele nos fez chegar até aqui, enquanto espécie humana. Ele é força propulsora. Há uma máxima da comunicação que diz: “quem expõe se expõe”. E tem outro jeito? De repente a palavra está conosco tal como a bola nos pés do atacante. Vai jogar pra quem se você está diante do gol? Não há pra onde correr. O jeito é falar, “dar a cara a bater”, como diz o ditado. Outras vezes, a expectativa, a confiança e a demanda são postas sobre a sua mesa, em suas mãos. Não adianta chorar, nem correr. É preciso enfrentar e seguir.

Os desafios não são poucos. Vivemos tempos de profunda e intensa comunicação. Todos, de algum modo, tornaram-se artífices de informação e promotores de conteúdo. Haja vista os celulares e seus aplicativos ao alcance das mãos. Então, em quê se diferencia o nosso trabalho de comunicadores “institucionalizados”? Para mim, há um dado inegociável: comunicar a Verdade com paixão e amor e respeito ao Ser humano.

Paixão e amor são opostos, mas quase sempre juntos. Paradoxal. Na primeira, há uma dor e um sofrimento intrínsecos. Para quem escreve, a solidão e o silêncio são indispensáveis. A exigência é quase cirúrgica. Noites de sono encurtadas, revisões, bricolagens e um sem fim de burilar textos à procura da palavra certa, quase parnasiana. É o dado passional – páthos. Mas, se em tudo isso não houver amor, não vinga, não prospera. Por isso é que o próprio ato de escrever comporta um prazer em si mesmo, por vezes mais aguçado do que o de se saber lido. Os leitores implícitos para quem escrevo, são realmente aqueles que me leem (leitores reais)?

Toda comunicação exige concentração e treino. Fala-se de um discurso hipotético entre Manoel Bandeira e Clarice Lispector. O primeiro diz: “o difícil é ser simples”, ao que a segunda responde: “não se engane, meu senhor, por trás de toda simplicidade há muito trabalho”. Quanta verdade. Quem, em sã consciência, antes de proferir uma palestra, uma aula, uma homilia, apresentar um programa de rádio ou de tv ao vivo não ensaia quase à exaustão? É que o “natural” é filho do “artificial”. Ninguém chega ao ótimo contentando-se com o bom. Nossos avós já diziam isso. Se a dicção não está boa, mas mesmo assim a gente segue está errado. A pronúncia está atropelada, a voz não está límpida nem amplificada, mas sequer fazemos aquecimento vocal ou nos propomos resguardá-la nos momentos que antecedem ao seu uso profissional. E pensar que nós, cristãos, temos a melhor das notícias a ser veiculada: a boa-nova do Reino de Deus. Como transmiti-la se não estivermos convencidos dela? Disso nos advertiu Paulo Autran, ícone do teatro nacional, numa entrevista concedida anos atrás ao Padre Nereu Teixeira para o livro “Comunicação na Liturgia”. Se há tanta verdade no teatro, na teledramaturgia, por que não nos vestirmos dessa couraça em nossas celebrações religiosas? Do presidente ao animador, passando pelos proclamadores da Palavra e os ministros do canto litúrgico, deveríamos todos estar imbuídos dessa “técnica” que nos potencializa para o anúncio do Evangelho do Cristo.

Depois, o que nos deve diferenciar enquanto comunicadores cristãos é a caridade na verdade. Dizer a verdade doa a quem doer não é elegante nem educado. Sem misericórdia e sem se colocar no lugar do outro, a verdade só causa dor e sofrimento.

Em nossos dias, reverberada pelas técnicas modernas de comunicação, evidencia-se nossa apatia diante da dor e do infortúnio alheios. E não é preciso nem mesmo sair de casa para constatarmos nossa des-humanização. Basta digitar no navegador um endereço de um portal famoso de notícias e, ao lê-las, descermos com o cursor até os comentários postados abaixo. Ali, como numa “terra de ninguém”, as pessoas depositam o pior que pode haver em nós: a dor é ridicularizada, a pessoa humana é vilipendiada, o trágico é tornado cômico e noções mínimas de boa educação não encontram o menor espaço entre os caracteres. Faltam no texto, por que faltam na vida? Somos capazes de expor ali o mais primitivo em nós. Às vezes, há o cuidado em não se identificar; covardia. Em outras, não há receio algum em deixar estampada a face ante o comentário ofensivo e despudorado. As redes sociais, por sua vez, tornaram-se como que janelas em cujos parapeitos nos debruçamos para espionar ou deleitarmo-nos com a vida, a intimidade e a privacidade do outro. Aliás, pouco se fala de privacidade. Confunde-se, normalmente, moralidade pública e privada.

Não são poucas as ocasiões em que recebo comentários e e-mails ofensivos de pessoas que discordam dessa ou daquela postagem, ou que têm reivindicações a fazer. Eu ainda me assusto com a linguagem empregada. Falta o básico. Dispensa-se o protocolar e o formal em nome de uma intimidade e de uma liberdade que não existem. Podemos mesmo dizer tudo a quem quer que seja e como nos aprouver? Não se ensina mais os bons modos; caíram mesmo em desuso? Não há nada mais violento do que uma intimidade forçada. É preciso que se diga que, entre estranhos, a comunicação se dá no respeito ao estranhamento. Do contrário, gera-se antipatia, descontentamento e repulsa à mensagem e ao comunicador. O respeito, a tolerância, o diálogo e a finesse, esses sim, são promotores de bons presságios.

Somos todos fenômenos. Eis nossa exposição irrenunciável. Se apareço diante de alguém, o cérebro dele precisa, necessariamente, decodificar minha presença: “Quem é ele? O que ele está dizendo?”, etc. É aí que está: “quem expõe se expõe”. Significa que nos damos ao mesmo tempo em que transmitimos uma mensagem. Eis um dado inquestionável da comunicação. Nos primeiros segundos, o meu interlocutor faz uma apreciação de mim – psicológica e inconscientemente. Se houver simpatia, ganhei um ouvinte. Se houver aversão, posso “pintar o sete”, minha mensagem não o alcançará. É por isso que se aconselha: um sorriso, um olhar afável, um conto interessante, uma voz aprazível aos ouvidos além de um conteúdo instigante. Por isso comecei meu texto confessando o meu medo.

E por falar em medo, há quem não acredite, mas sou tímido. Amo e admiro os anônimos, sobretudo em uma cultura que, solapada pelo espetáculo, torna tudo explícito. Nessa sociedade, bom, valioso e rentável é o que está em evidência na tv, no rádio e na internet. O simples e o próximo não são levados em conta. Mas não dá para fugir do mundo. Estamos nele e nele precisamos agir concretamente. Graças à solidariedade e o compromisso de tantos homens e mulheres, eu não estou sozinho. Minha gratidão se estende a tantos fiéis leigos e consagrados que se empenham em colaborar com a Comunicação Diocesana, sobretudo através do Portal ELODAFE.

E, por fim, sou também devedor de outro comunicador, o saudoso cartunista Millôr Fernandes, que dizia: “eu sofro de mimfobia: eu tenho medo de mim mesmo e me enfrento todos os dias”. Com medo ou apesar do medo é preciso seguir. Se você deseja, torne-se também um agente da PASCOM (Pastoral da Comunicação). Escreva para nós. E obrigado pela companhia nesse nosso primeiro ano. Vamos juntos?

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Por, Diácono Claudemar Silva

1 comentário

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  • Parabéns, meu caro irmão, pelo excelente artigo. Sua cultura é admirável, não tenha medo, vá em frente.
    Abraço fraterno.
    diacsamu

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