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Editorial de Março: Fraternidade e Tráfico Humano

JE-Editorial

Graça e Paz!

Em virtude da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano, cujo tema é “Fraternidade e Tráfico Humano”, e o lema: “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1), e de três notícias veiculadas nos meios de comunicação essa semana (24 a 28/02), gostaria de me estender um pouco mais em meu Editorial deste mês para comentar todas elas.

Anualmente, desde 1965, a Igreja no Brasil por meio da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – propõe aos cristãos católicos e às demais pessoas interessadas, uma reflexão cristã à luz da realidade nacional e, por que globalizados, internacional. Assim, a Igreja apresenta-se como “advogada da justiça e grito dos silenciados” pela tirania do lucro que expropria a liberdade e dignidade alheias, dos filhos (as) de Deus.

Segundo a ONU – Organização das Nações Unidas – o tráfico humano rende em torno de 32 bilhões de dólares ao ano, junto ao tráfico de armas e de drogas. A OIT – Organização Internacional do Trabalho – informou que, em 2012, mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo foram vítimas de alguma forma de exploração sexual; 14, 5 milhões em trabalhos forçados e 2, 2 milhões explorados militarmente pelo Estado. Mulheres e jovens representam 11, 4 milhões de vítimas; 9,5 milhões são homens e jovens, 15,5 milhões são adultos e 5,5 milhões são crianças até 17 anos. No Brasil foram detectadas pela Polícia Federal, em 2003, 241 rotas – nacional e internacional -. Dessas, 76 na Amazônia, 69 no Nordeste, 35 no Sudoeste, 33 no Centro-oeste e 28 no Sul. Um crime altamente rentável, silencioso (por que conta com a ação de criminosos nas mais variadas instâncias da sociedade e são, na sua maioria, orquestrados por parentes ou pessoas próximas às vítimas), e magistralmente organizado[1].

Num ano em que o país sediará a Copa das Confederações, a CF alerta, inclusive, para o “turismo sexual”, tão presente em eventos como esse, onde, em nome do entretenimento e do próprio turismo, se comete tantos crimes de exploração sexual de homens e de mulheres, jovens e crianças. Um dos destaques na mídia nessa semana foi, justamente, a confecção, pela ADIDAS[2], de modelos de camisetas com apelo sexual. O Brasil foi “vendido” no exterior como o país da prostituição “institucionalizada”. Graças à péssima repercussão, a empresa voltou atrás e cancelou os produtos já confeccionados.

Dois outros crimes causaram revolta ao mesmo tempo em que expôs, mais uma vez, a fragilidade da justiça brasileira, além do nosso preconceito e racismo tão velados (?).

Um jovem ator[3], negro e com cabelo no estilo “black power”, foi confundido com um assaltante, também negro, tendo que amargar por 16 dias o dissabor de dividir uma cela com mais outros 15 detentos. A vítima alegou ter se confundido. O verdadeiro criminoso trajava bermuda e camiseta na cor preta; o ator, calça jeans e camiseta branca. Ele foi imobilizado quando saia da loja em que trabalhava num importante shopping da capital paulista.

Um outro senhor[4] fora preso anos atrás, acusado de ter molestado sexualmente uma criança de 9 anos. Graças à sensibilidade de uma promotora de justiça que acreditou em sua história, veio a público a verdade: ele fora vítima da vingança de seu vizinho, pai da garota em questão, por rixas passadas. Por causa de uma mentira, e da incapacidade da justiça de averiguar com precisão os fatos, aquele senhor fora preso e, na prisão, estuprado, contraiu o vírus HIV de um dos seus algozes. Agora, liberto, vai aos poucos tentando retomar a própria vida, violentamente arrancada dele.

Em todos esses casos, constatamos que, não poucas vezes, o mundo se configura como um lugar hostil e perigoso demais para a vida humana. E por quê? Porque nós, chamados à humanidade, “aprendemos a voar como os pássaros, nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos” (Martin Luther King).

São para casos assim que a CF deseja sensibilizar-nos, enquanto cristãos, a fim de termos cada vez mais um olhar crítico sobre as notícias veiculadas e sobre a própria sociedade. Não deveríamos nos furtar à nossa condição de profetas: anunciadores de um mundo novo e denunciadores de um mundo já corrompido e ferido pela morte e pela insensibilidade para com o outro, especialmente para com aqueles que mais sofrem.

Ao tomar conhecimento desses fatos, perpassa-nos um sentimento quase que de impotência frente a tantas mazelas humanas. Não nos angustia o grito preso à garganta de todos esses citados acima, e de tantos outros, esquecidos e roubados (por que com violência) em tantas celas, presídios e cativeiros em nosso país e em nosso mundo? Tantas mulheres (80% dos casos de exploração sexual), homens, crianças, jovens e adultos amordaçados em seu direito inalienável de serem ouvidos, respeitados e valorizados pelo que também são; humanos. Como não pensar nas famílias, nos amigos, nos parentes e nas muitas pessoas de bem que se veem maltratados e igualmente violentados juntamente com essas vidas que se perdem, se não totalmente, em grande medida, já que são arrancados de suas condições mais invioláveis e que a Constituição Federal garante reconhecer? Não deveríamos cuidar delas, não por que somos bons, ou cristãos, mas por que, em primeira e última instância, nós somos também elas?

De fato, a Igreja não poderia e não poderá jamais se calar e se omitir diante de tantas des-umanidades. Conscientizar-nos de tantas situações como essas, e em tantas que desconhecemos, mas nem por isso ignoradas pelo Criador, que é também Vítima com as vítimas, faz-nos reconhecer o quanto ainda precisamos nos converter, isto é, tornar-nos aquilo que ainda ensaiamos, desde o nascimento: humanos.

Assim, na oportunidade que o Tempo Litúrgico da Quaresma nos apresenta – com início na próxima quarta-feira de cinzas -, fazemos coro a tantas vozes que gritam e rezam por um mundo novo, onde a liberdade individual e coletiva seja, efetivamente, liberta de toda e qualquer amarra, pois, do contrário, numa única vida que se violenta, é todo um projeto que se compromete, pois, em cada um que cai, ferido, vilipendiado e arrancado de sua dignidade, é a humanidade de todo homem que se des-configura um pouco mais.

Como Igreja, olhemos, portanto, um pouco mais demoradamente para o Homem da cruz e supliquemos-lhe que nos auxilie na busca por “novos céus e uma nova terra” (Ap 21,1).

Indo ao deserto com o Cristo, “convertei-vos, pois o Reino de Deus está próximo de vós” (Lc 10,9).

Fraternalmente,

 Diácono Claudemar Silva

Assessor de Comunicação da Diocese de Uberlândia-MG

 


[1] Dados fornecidos pelo texto-base da CF-2014, edições CNBB.

[2] http://br.reuters.com/article/topNews/idBRSPEA1O05G20140225

[3] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/02/ator-preso-por-engano-no-rio-diz-que-tirou-forcas-do-apoio-de-amigos.html

[4] http://noticias.r7.com/cidades/fotos/quero-recuperar-minha-dignidade-roubada-diz-preso-injustamente-que-contraiu-hiv-12022014#!/foto/3

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