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Editorial – Quanto vale a verdade?

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Desde a Grécia Antiga a Verdade era procurada como o melhor dos bens possíveis ao homem. Alcançá-la era como apoderar-se das coisas divinas, já que ela, por excelência, cabia aos deuses. Assim, a Verdade não era apenas verdadeira, mas também bela e bondosa. Alcançá-la, portanto, era libertar-se das amarras ilusórias da falsidade, daquilo que maquila e distorce o real. Aprisionado ao interior da caverna, via-se tão somente a sombra do provável. Preso, sem conhecê-la e sem experimentá-la, o homem pensa contemplar o verdadeiro quando, na verdade, apreende apenas o fantasioso.

Daqui a alguns dias o cristianismo celebrará a sua maior festa; a Ressurreição daquele que, enquanto caminhava com os seus, afirmou: “eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); Jesus de Nazaré. Celebrá-la é, antes de tudo, celebrar a Verdade de Deus. Aquela mesma verdade que o mundo, contrário aos projetos salvíficos do Seu Reinado, não quis e não quer aderir. A Verdade de Deus não é contrária à Verdade do homem. É, antes, dela parceira e promotora. Não há concorrência entre o divino e o humano, antes, há relação amistosa, respeito e valorização.

Entretanto, as opções são sempre embasadas pela crença, valores e liberdade de cada um. Enquanto há no mundo propostas, meios e canais de comunicação que insistem em parar na cruz, como referência final de uma verdade inquestionável – afinal, o que se pode fazer diante da morte de alguém? -, Deus, em Jesus, autoriza-nos a ir mais além. A Verdade, sem máscara nem véu, está para além do visto. É preciso ir a outro lugar que não seja somente o calvário. Permanecer no calvário é contentar-se com o anúncio do que já cheira mal, do que está em estado adiantado de putrefação, por que morto.  Deter-se aí, como se esta fosse a única verdade ou o único lugar de onde se pode dizer algo, é se recusar a sair das amarras da morte e da violência a que o mundo tão facilmente se acostumou a reivindicar e aceitar.

Todavia, aos cristãos, Deus nos aponta outro caminho, outra notícia, algo novo a ser dito, anunciado com força e coragem novas; “Ele não está aqui. Ressuscitou!”. Esta notícia, não serão todos capazes de anunciá-la, pois, a sua força e a sua fonte comunicadora não estão disponíveis nos meios fáceis e sem maiores esforços para açambarcá-la. É necessário adiantar-se ao sol. Buscá-la minuciosa, cautelosa e cuidadosamente, pois, há vidas que dependem dela. Vidas que anseiam por ela e que por ela se doaram por inteiras. Tal como a apóstola dos apóstolos, Maria de Mágdala, é preciso ter a ousadia de adentrar os túmulos entreabertos e, se preciso for, vasculhar os lençóis cuidadosamente dispostos e se perguntar: “onde o puseram?” (Jo 20, 1-18). É que a Verdade, nem sempre, está a olhos nus. É preciso “chorá-la” como quem reconhece que, perdendo-a, perde-se o melhor e o maior dos bens.

Se não for assim, seremos ainda hoje homens e mulheres aprisionados em verdades encasteladas em nós mesmos, proficiência de comunicadores de uma “notícia” que tolhe, escraviza e mata. Uma comunicação que não prima pela Verdade está fadada ao fosso existencial. E pior; presos em nossas próprias correntes e não desejosos de estar sós, avançaremos sobre inúmeros outros para trazê-los também para junto de nós. Mas, se soubermos ter a persistência e a coragem daqueles que não se contentaram com o dito, fácil e mortífero, que apenas reverberam: “Ele morreu”, poderemos então comunicar algo efetivamente válido e de valor inquestionável: “Ele ressuscitou! Eu O vi!”.

E por que ressuscitados com Ele, saberemos ressuscitar a tantos moribundos ou já mortos pelo caminho. A escolha é sempre uma decisão de pauta, pessoal e intransferível, da qual nós, comunicadores natos ou ensaiados, seremos os únicos produtores responsáveis.

Abençoada Páscoa!

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Diácono Claudemar Silva
Assessor de Comunicação da Diocese de Uberlândia-MG

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