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Elogio à Lentidão

A pressa está instalada, assim como está instalado o desassossego em tudo. Corremos desesperadamente para dar conta do que julgamos imprescindível, e, em tudo, queremos chegar primeiro. Haveremos de chegar a algum lugar?

Atropelamos não apenas o tempo, as coisas, mas também quem ousar se colocar em nosso caminho. E mais: atropelamo-nos a nós mesmos. Sofremos de sofreguidões impostas, por nós mesmos ou pelos devaneios alheios, culturais e sociais que, imperceptivelmente, vamos assimilando como nossos. No embate implacável da vida, seguimos inebriados por uma espécie de sonolência que não nos permite reconhecer o visto. Assim, desconhecidos de nós mesmos, desconhecemos quem segue paralelo a nós e, por que visto como concorrente, torna-se nosso inimigo em potencial. Cônscios ou incautos, somos alvos de uma estratégia de extermínio relacional: morremos à medida que “matamos”, ou simplesmente ignoramos o outro, não obstante a condição efêmera que a todos equipara: “somos cadáveres adiados” (Fernando Pessoa).

Há um trecho do livro “LENTIDÃO”, de Milan Kundera, lido recentemente, que me fascinou já na primeira leitura. Gostaria de parafraseá-lo a seguir:

– Eu e minha esposa estamos indo em direção às nossas férias, tão merecidas, planejadas com bastante antecedência. Logo cedo pegamos a alta estrada. No caminho, fomos obrigados a parar. O trânsito tornou-se caótico e, só muito lentamente, conseguíamos avançar. Atrás de nós, um carro pisca freneticamente suas luzes altas. Pelo retrovisor, eu vejo o motorista enraivecido, como se gritasse comigo para que lhe desse passagem. Eu não tenho para onde ir. Tudo está congestionado, inclusive a pista contrária. Não apenas o condutor, mas também o veículo e sua companheira ao lado estão tomados de impaciência. Minha esposa comenta: “o número de mortes no trânsito, pela falta de prudência, aumentou em 20% nos últimos anos”. Consternado, lanço-lhe um sorriso tímido enquanto penso: por que aquele senhor não aproveita a lentidão imposta pela estrada e não conta à sua companheira algo interessante? Uma piada? Por que não lhe segura a mão? Por que não põem a conversa em dia e recordam coisas bonitas que juntos viveram? Por quê?… –

Quando não havia a máquina – a quem delegamos nossa capacidade de ser velozes – éramos obrigados a pensar em nós e, necessariamente, no outro -. Pensávamos, sobretudo, no peso que temos e que somos “obrigados” a carregar – ou em nossa insustentável leveza -, e em como é estafante a “corrida” sobre nossos próprios pés.

Ao correr, não podíamos nos furtar de pensar em nós, no ar que intrepidamente nos adentra alcançando nossos pulmões. Apressados, sentíamos o peso do corpo, as bolhas que se formavam nos pés e no aperto dos sapatos. A ansiedade pela chegada era justificada. E tudo isso pelo simples fato de estarmos encarnados. Vistos assim, de perto, nossa finitude e nossas limitações não são devaneios, mas realidade avassaladora e constantemente presente. Cansados, ponderávamos: não dá para ir mais rápido nem mais depressa por que os pés já não aguentam ou, então, por que chegamos ao limite do suportável. Recostados em nossa frágil humanidade, éramos obrigados a parar, descansar e tolerar o tempo – por vezes inóspito – a fim de readquirimos as forças e a energia perdidas.

Porém, ao ocuparmos um instrumento mecânico e altamente veloz nós nos alienamos. Já não mensuramos mais nossa fadiga nem ponderamos nossa pressa. É como se flanássemos, e isso torna extasiante o momento. Somos induzidos a permanecer no “gozo” da vida, do instante excitável, desejosos de eternizá-lo. Arrancados de nós mesmos e levados para fora – ad extra – seguimos expropriados. O tempo, medido em milésimos de segundos, arranca-nos do chão e já não sentimos mais a estrada, a finitude, o corpo; não nos sentimos.

E, assim, no trânsito e na vida, eis-nos irremediavelmente fugidios. Intolerantes ao tempo que se esvai, desprezamos a contemplação e a burilagem de tudo. Já não ruminamos a palavra, quando dita, nem a experiência vivida. Por isso, não nos deixamos interpelar por nada nem por ninguém. As ponderações antigas não encontram mais lugar acomodado em nós. A imagem do visto é aprisionada sob as lentes das técnicas modernas para ser vista depois. Ali, virtualmente, aprisiona-se o real, o instante, enquanto desprezamos – incrédulos – o detalhe que só muito lentamente se pode notar, embora ei-lo ante os nossos olhos entreabertos. Deixado para depois, há que se perguntar: haverá tempo para perscrutá-lo outra vez?

No enamoramento juvenil, os parceiros não se detêm mais na “soleira da porta”, mas adentram-na impetuosamente, sem discrição nem cerimônias. Falta assunto e sobram carícias que, indubitavelmente, irão lhes questionar pelo “dito”, pela ausência da palavra criadora de mundos; de seus mundos possíveis. E, por que faltou a “encarnação da palavra”, não será possível forjá-la abruptamente nem tampouco torná-los igualmente seres encarnados. Desprovidos de “corpos”, flutuarão por aí, sem sombra nem alma. Tornar-se-ão em estranhos que coabitam. Afinal, há uma arte na conversa, na beleza do encontro e no protocolo do amor, da amizade e da convivência. E tudo isso requer progressão e continuidade. Exige-se tempo.

Kundera, retomando um conto famoso do séc. XVIII, “Madame de T.”, cujo autor é desconhecido, fará referência àquela lentidão dos passos que faz a memória retomar o que, infelizmente ou felizmente, se esqueceu.

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Perceba: quando temos algo que nos dói na consciência e que nos é insuportável lembrar, apressamos os passos como se fosse possível embaralhar os pensamentos e confundi-los até o limite de não mais discerni-los. Aí, impera-se o anestesiamento da dor, do remorso, ainda que momentâneos. É um modo de proceder, sem dúvida. Porém, quando queremos lembrar algo efetivamente importante, mas que não nos vêm à mente com facilidade, diminuímos os passos como se adentrássemos ao porão de nossa memória e, ali, pudéssemos resgatar o que nos é imprescindível recordar. E assim, gaveta após gaveta, vamos retomando nossas lembranças mais ternas e felizes, ora ao sabor das lágrimas ora ao sabor do riso. Eis a bem-aventurança do esquecimento: poder nos alegrar, sempre de novo, com os nossos próprios equívocos.

Todavia, “Lentidão” não se trata de regredir, voltar no tempo ou pará-lo, simplesmente. Afinal, quem ousaria repreender Chronos, haja vista nossa filialidade e porque somos indefinidamente engolidos por ele? Também não se trata de assentar sob a árvore à beira do caminho e, sem critérios, aguardar por quem disse que viria – Godot – até o enfastio, mas nunca veio. Absolutamente não. Impensável, até.

Entretanto, não há outro modo de fazer durar, seja o que for, a não ser na percepção do essencial, cuja visibilidade continua ainda invisível aos olhos. O essencial não é estático, inamovível, mas núcleo propulsor, tal como a fonte de um rio que borbulha para fora de si mesmo enquanto se avoluma, gradativamente, e se lança caudaloso em direção ao mar, seu destino. Se ousarmos vivê-la [Lentidão], tal como nos foi apregoado pela sabedoria dos antigos, será preciso aguardar o tempo do aprimoramento, da maturação e do alinhamento. Pois, tal como astros sobrepostos, o universo poderá, enfim, conspirar conosco favoravelmente. E então, o tempo será outro quando saboreado lentamente. Será dito, enfim, eternidade, pois, longe de toda totalidade fechada, lá no mais íntimo de nós, onde vive instalada uma brecha, receberemos maravilhados uma visita; uma visita do In-finito (E. Lévinas).

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Por, Pe. Claudemar Silva

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