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Elysium é aqui!

Está nas principais salas comerciais de cinemas do Brasil o filme ELYSIUM, do diretor Neill Blomkamp, com Matt Damon no papel principal como Max, além dos brasileiros Wagner Moura (Spider) e Alice Braga (Frey). O ano é 2154. No espaço, para além do planeta terra, vive uma parte da civilização humana que construiu para si um habitat edílico, com feições de condomínios luxuosos, cujo título do filme, ELYSIUM, faz uma clara referência ao paraíso dos deuses da mitologia grega, o chamado “campus elísius”, governado por Hades e para onde seguem os homens virtuosos após a morte.

Elysium

No habitat, em toda casa há câmaras curativas nas quais seus moradores podem se recuperar de toda e qualquer doença, não chegando sequer a envelhecer nem tampouco a passarem pela morte. Um lugar de gente saudável, 100% clear. Ali, residem os de castas economicamente superiores, enquanto os das camadas sociais inferiores, famigerados e oprimidos por todos os lados, tentam sobreviver à duras penas e sob uma égide de tolerância zero, num planeta inóspito, brutal e superpopuloso, “administrado” por cidadãos e robôs de ELYSIUM. A visão não poderia ser outra: aterradora.

O personagem principal, Max (Matt Damon), ouve, quando criança, de uma freira latino-americana, uma espécie de “profecia” dizendo-lhe que ele trazia consigo uma grande missão, como se fosse um predestinado ou uma espécie de Messias para o seu povo. Até que um dia, numa tentativa desesperada de alterar aquela realidade de desigualdade colossal, Max segue para ELYSIUM e após uma quase morte, altera radicalmente a condição de todos os moradores do Planeta Terra, tornando-os também cidadãos do habitat dos deuses. A primeira ação após esta mudança, é o envio de cápsulas paramédicas para auxiliarem os adoentados do planeta “irmão”; um dos momentos mais comoventes do filme.

E como a “vida imita a arte”, ou como queria Oscar Wilde em seu best seller “o retrato de Dorian Gray”, “a arte imita o seu expectador”, a realidade ficcional não é muito discrepante da realidade que ora travamos em nosso país e em nossas cidades. Também aqui, no dia a dia, deparamo-nos com as diferenças gritantes que nos colocam em antagonismos paradoxais: ora somos discriminados pelo poder aquisitivo ora pelo patamar social que ocupamos ou não ocupamos.

Para tanto, basta olharmos para a saúde ou a falta dela, por exemplo. Segundo fontes do Governo Federal, até 2014 serão destinados mais de um bilhão de reais para a saúde. Quanto desse recurso chegará, de fato, às instâncias mais carentes do sistema público? Quantos milhares não serão desviados por manobras escusas ou por superfaturamentos? E o que é pior; diante de tantos e de tão caros impostos, e frente a tantos compromissos que o próprio Governo assume ou patrocina, salta-nos dos lábios aquela interrogação, quem sabe um tanto ingênua, mas nem por isso menos verdadeira: falta força de vontade e compromisso social? Por que temos ainda um sistema público de saúde que não atende de forma equilibrada aos muitos que dele necessita? Por que sofremos ainda de tantos atrasos e somos ainda reféns de políticos e de políticas que não levam em conta o cidadão, verdadeiramente, mas, ao invés, o subestimam, solapando suas forças e sua inteligência, quando não lhe furtam as verbas destinadas à sua “salvação”, através de esquemas fraudulentos e corruptos, obrigando-o a assisti-los quase que de camarote? Há regiões, também em nosso país, que são inóspitas, e onde não chegam, suficientemente, recursos financeiros nem mãos habilidosas e generosas, comprometidas em salvarem tantas vidas. E quando vão, são mal recebidas, rejeitadas ou tornadas inoperantes pela falta de quase tudo. E a impunidade que nos cerceia de todos os lados contribui, indubitavelmente, para a perpetuação da doença a que o sistema está relegado, mas não só; tal impunidade torna-se cúmplice da morte do cidadão que ficou sem assistência. E por que lhe foi recusada? Pode ter sido por que alguém, antes, passou a mão no que não lhe pertencia, mas que era de direito comum. Ninguém viu; ninguém se importou?!

A serviço de ELYSIUM havia moradores do planeta terra que vigiavam, oprimiam e até matavam os seus próprios semelhantes. Também aqui, na “Terra”, não faltam funcionários públicos, empresas privadas e profissionais de toda ordem que tentam, a todo custo, ganhar vantagem e, por isso, extraem o quanto podem daqueles a quem deveriam servir e ajudar. Em todos os níveis e setores da sociedade a ética, a decência e a justiça pedem socorro. Tais esferas de poder há muito que estão sofrendo do colapso existencial, isto é, perderam suas identidades e já não sabem mais ou não querem saber para quê existem. Falta compromisso político e responsabilidade social, é verdade, mas faltam, igualmente, sensibilidade, cidadania e solidariedade para [e entre] com todos, do primeiro ao último; do maior ao menor. Como os moradores do Planeta Terra do filme ELYSIUM, estamos também aqui, de um modo geral, adoentados.

Diante de um cenário que se descortina aos moldes de ELYSIUM, haverá alguma esperança para nós, pobres mortais? De certo que sim. E o filme a ilustra esplendidamente. A possibilidade de transformar o que ora tornou-se insustentável não está unicamente nas mãos nem dos políticos de ELYSIUM nem das do Planeta Terra. Aliás, um dos vilões do filme, terráqueo, por sinal, mas que vai a ELYSIUM brigar pelo poder e na tentativa de tomá-lo a todo custo, após um assassinato, afirma: “não se pode confiar de todo nos políticos”. Talvez esta seja a mensagem principal do filme: toda e qualquer transformação, seja ela social ou não, mas que se pretenda duradoura, não se pode esperá-la totalmente dos outros, deixando-nos de mãos postas e de braços cruzados; é preciso reivindicá-la, “brigar” e exigi-la, se preciso for. Pois, não há quem, estando num posto de acomodação e de onde só se põe a contemplar de longe o caos alheio, vá se interessar muito – salvo exceções – pela mudança radical dessa configuração. É preciso “descer” e transformá-la a partir das bases, das periferias e através de pequenas ações concretas. Conscientizar-se e ir à luta, exigindo direitos e manifestando o descontentamento, é uma boa forma de começar. Ninguém, por melhor que seja, irá bater à nossa porta oferecendo-nos gratuitamente aquilo que, por direito, já nos pertence desde sempre. A mesquinhez humana, infelizmente, passa pela maldade de guardar para si aquilo que é do outro. Quem nunca ouviu: “quem parte fica com a maior – melhor – parte”? É bom não nos repousarmos na vã esperança por um “messias alheio” e que nos venha salvar. Daqui a pouco irão exigir nossos “cânticos de Sião” em terras babilônicas. E será bom não nos esquecermos; ELYSIUM é aqui!

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Por, Diácono Claudemar Silva

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