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Entre cordeiros e lobos: quando a Fé pede de nós um pouco mais de coragem

Há uma frase do evangelho de Lucas, apresentada como dito de Jesus, que me deixa muito impressionado: “eu vos envio como cordeiros no meio de lobos” (Lc 10,3).

Essa frase pode nos parecer um tanto aterrorizadora, num contexto em que o mestre está dando ordens aos setenta e dois discípulos de como se comportarem na missão à qual serão enviados, dois a dois.

O que para mim desponta, primeiramente, como primoroso é o fato de Jesus não enganar nem iludir os seus seguidores; a missão não será fácil, mas exigente, e até mortal, para continuar no estilo dramático que o contexto evoca. Depois, Ele esclarece as condições e os perigos de segui-lo. Muni os discípulos de autoridade e instrumentais, mas não sem antes adverti-los do perigo do caminho.

Mas, e aquela frase: “eu vos envio como cordeiros no meio de lobos”? Diante de um lobo, o que pode um cordeiro? Olhando de longe e sem maiores conhecimentos de causa, penso que o cordeiro pode pouco; muito pouco. Mas a imagem que a frase parece ilustrar não é que ambos, cordeiro e lobo, estejam distantes ou em cenas antagônicas. Não. Parece-me, e posso estar enganado, que o lobo há muito que se faz presente no seio do redil, infiltrado e quase configurado ao bando de cordeiros. A alcateia é, sem dúvida nenhuma, mais voraz e intransigente do que um aglomerado de cordeiros. Mas estão ali, juntos, como trigo e joio. Diante da ameaça mortal, não seria sábio a investida contra o lobo. O que soaria mais inteligente ao cordeiro: fugir? Manter-se distante? Ignorar? Fingir que nada está acontecendo? Embora nenhuma dessas opções garanta ao cordeiro a manutenção da sua vida.

Não poucas vezes o lobo está travestido em pele de cordeiro. Isso também o mestre nos advertiu: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” (Mt 7, 15). Mas então, como agir? O instinto de sobrevivência do lobo é matar quando a fome o ataca e, em sua cadeia alimentar, o cordeiro está para ele como a relva para o cordeiro. Mas o lobo pode ser traiçoeiro, homicida e criminoso. Ele pode não agir apenas pela sobrevivência, mas tão somente para aniquilar e arrasar. Por isso vive espreitando, procurando a quem devorar. Normalmente, sobram-lhe os mais fracos. Ele os ataca como vítimas indefesas e potencialmente mais fáceis.

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Talvez fosse possível ao cordeiro um enfrentamento. Se se unisse aos demais cordeiros e fizessem um cordão de isolamento, digo, de “protegimento”, quem sabe?!. Mas poderiam ser acuados pelo lobo que, igualmente, nunca vem só. E se fossem cercados, talvez os lobos, sagazes demais, encantoariam os pobres cordeiros próximos a um penhasco, jogando-os lá de cima e devorando-os quando já mortos, estirados sobre as depressões da queda.

Que saída há para o cordeiro, se o lobo é real; se se pode estar infiltrado no rebanho; se há tantos travestidos de cordeirinhos, mansos e amáveis? Que saída tem o cordeiro?

Há quem diga que cordeiro e ovelha são animais pouco inteligentes. Como saber? Deve haver um estudo sobre isso. Mas digamos que de fato proceda. É bem provável que o cordeiro seja mesmo um tanto ingênuo, ao menos em comparação com o lobo. O rebanho, muitas vezes, não dispõe de organização, sabedoria e perspicácia. Disso, também, advertiu-nos Jesus: “sede espertos como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10,16).

As imagens utilizadas por Jesus, confesso, não me atraem nem um pouco. Não enfrentaria nem um nem outro. Cobras e Lobos suscitam-me arrepios. Mas reconheço: a clareza de Jesus ultrapassa os tempos. Sua mensagem é de uma atualidade inquestionável.

No entanto, a linguagem é válida para, quem sabe, extirpar a costumeira ingenuidade quase boçal e pueril presente em muitos cristãos. O lobo, faceiro e quase cândido, se aproxima; espreita, inspira o aroma da vida que pulsa de sua presa em potencial e lhe “sorri hienamente”. O cordeirinho, quase manso, sente a presença “lobal” e o medo se instala. Ele pula e tenta se esconder. Os demais se inquietam e logo a agitação e o pavor estão instalados. O lobo já está em vantagem. Dissipou-se a organização e a serenidade capazes de fazer o rebanho pensar, raciocinar e criar estratégias de defesa. Os cordeiros não se entendem, se acotovelam, pisam-se e se espremem a um canto. E o lobo, salivante, escolhe a vítima do dia. E não há ninguém por ela.

Não há até que chegue o pastor. O pastor é o único capaz de salvá-la do perigo iminente. De cajado em riste e com os pulsos cerrados, o corajoso pastor enfrenta seu adversário mais ardiloso e sutil: o lobo. Munido de coragem “esponsal”, o senhor das ovelhas põe-se à frente do rebanho e, com a própria vida, defende o seu redil. E se está só, desacompanhado de todo, e a alcateia é considerável, ele a enfrenta com pedras, com paus e com gritos. Todavia, se tudo isso não for o bastante, o amoroso pastor não ousa ponderar sua vida e é capaz de perdê-la pelo desejo sincero de proteger e devolver a vida ameaçada de suas ovelhas (cf. Mt 10).

Sinceramente, não me ocorre nada mais real do que esta cena. Diante da temeridade do confronto entre cordeiro e lobo, se vistos assim, sem a presença salvífica do pastor, reconheço que as chances de sobrevivência para o cordeiro diminuem muito, quase a zero.

O confronto é real e não se pode fugir dele. Afinal, no caminho de todo cordeiro haverá sempre um lobo à espreita, assim como no caminho de todo rato, um gato; de todo gato, um cão, e assim, sucessivamente. Talvez a saída para a ovelha continuar viva, crescer saudável até o dia em que se dará também em alimento – sim, pois para quê o pastor cria ovelhas? Para quê servem os cordeiros? Para estimação? Duvido! -, é manter-se próxima ao seu pastor. E aí está sua sabedoria; acolher sua correção, deixar-se conduzir e não se ausentar demorada e reiteradamente da presença dele.

Por último, há algo de que nos recordarmos: é loucura ser apenas cordeiro/ovelha; é preciso ser, igualmente, “espertos como as serpentes e simples como as pombas”. Só não deveríamos ser lobos. Isso não; nunca. Mas, somos apenas cordeiros? Apenas lobos? Quando somos cordeiros? Quando somos lobos?

Mas essa é uma outra reflexão, não dispare nem distante dessa, é verdade. Todavia, para que seja mais honesta, melhor ser feita no silêncio e na verdade que somente os nossos “quartos” são capazes de nos confrontar: “quando orares, entra em teu quarto e ora ao Pai que está no segredo; e teu Pai que vê o que está no segredo te recompensará” (Mt 6,6), recomendou-nos o espertíssimo Jesus.

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Por, diácono Claudemar Silva

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