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Feminicídios, por Dom Paulo Francisco Machado

Feminicídios
Dom Paulo Francisco Machado
Bispo da Diocese de Uberlândia

Os noticiários dos últimos anos e meses estão repletos de homicídios perpetrados contra mulheres. Em publicação do IBGE, dia 04/03/2021 da Editoria Estatísticas Sociais trago informações: “Utilizada para a análise do fenômeno do feminicídio (definido na Lei n. 13.104/2015 como o homicídio contra a mulher por razões da condição do sexo feminino – violência doméstica ou familiar e menosprezo ou discriminação à condição de ser mulher), a informação sobre local de ocorrência da violência mostra que a proporção de homicídios cometidos no domicílio tem maior vulto entre as mulheres. Em 2018, enquanto 30,4 % dos homicídios de mulheres ocorreram no domicílio, para os homens a proporção foi de 11,2%. Entre as mulheres, as pretas ou pardas tinham maiores taxas de homicídio que as mulheres brancas, tanto no domicílio, quanto fora dele. No domicílio, a taxa para as mulheres pretas ou pardas (1,4) era 34,8% maior que para as mulheres brancas (1,1); fora do domicílio, era 121,7% maior (3,8 e 1,7, (respectivamente) ”. Números a nos envergonhar, quando sabemos que mais de uma dezena de países tem taxa inferior a 1 assassinato, sem distinção de gênero, idade, etnia por grupo de 100.000 habitantes.

Mas afinal, o que é “feminicídio”? – Trata-se de assassinato cometido contra a mulher, justamente por ser mulher, tida como ‘pessoa’ de segunda classe, não detentora de direitos inerentes à sua natureza humana e, portanto, não tem reconhecida plenamente a sua dignidade de pessoa, de um ser capaz de conhecer e amar e detentora de um variado mundo de sentimentos próprios de todos os humanos, a nos distinguir dos animais pela riqueza e variada gama.

Antes de continuar minha reflexão, quero advertir aos leitores que não pretendo, nem sou capacitado a dar explicações científicas, formular teorias e hipóteses que possam dar explicação a esses fatos, elucidar suas causas. Cabe aos cientistas sociais, antropólogos, sociólogos, filósofos, advogados, etc. esclarecer as motivações, as causas desse triste fenômeno, e mesmo, as consequências nas vítimas desses algozes.

Volto-me para, à luz do mistério de Cristo, Senhor e Mestre, haurir dos Evangelhos os ensinamentos de como ‘desmontar os mecanismos’ que fazem com que um homem venha a perpetrar um homicídio. Tomo o Evangelho segundo Mateus 5,21-22 quando, no Sermão da Montanha, Jesus se reporta ao mandamento do decálogo “Não matarás”. Jesus nos explica onde se encontra a raiz do homicídio, lição preciosa para os potenciais feminicidas: a fonte está no coração. Mas o ódio fermentado, incubado no interior, ou como dissemos, no coração contra a mulher, vai se exteriorizando indo de uma palavra má até um insulto e, finalmente, a agressão.

Jesus começa por reconhecer o inestimável valor da vida, na cultura hebraica: “Foi dito aos antigos” (…), mas Ele avança: “Eu lhes digo…” Para Cristo, a violência que nasce do coração a se encolerizar contra a mulher (“Todo aquele que se encher de cólera contra seu irmão – no nosso caso – irmã, esposa, noiva, namorada responderá perante o tribunal) sobe a um triste patamar, o da palavra má, o das ofensas verbais. Do coração fermentado por pensamentos de ódio, inveja, ciúme seguem-se as ofensas verbais, insultos carregados de desprezo, que negam à mulher a capacidade de compreender. Em outro instante, vem as agressões, ou seja, das agressões verbais e morais, passa-se à violência física. A raiva expressa por palavra corre rápida do coração até às mãos.

Jesus nos adverte mostrando-nos os tristes passos que levam um homem a cometer homicídio – no nosso caso feminicídio- e chama a atenção para a gravidade de toda e qualquer agressão verbal e afirma que a ira, inveja e ciúme acalentados no coração, são veneno mortal, que não pode encontrar espaço no interior de nosso ser.

Se um leitor, ao viver momento de ira e desprezo por uma mulher, conseguir sustar sua mão e buscar os meios de desmontar seu ciúme, ódio, violência, valeu a pena ter escrito este artigo e LOUVADO SEJA DEUS.

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