Reflexões Dominicais

04/08/2013 – LUCIDEZ: Comentário ao Evangelho

A advertência de Jesus, proclamada no evangelho desse domingo é mais do que um simples aviso; é uma proposta desafiadora, um convite a libertar nossa própria liberdade que, muitas vezes, ainda é escrava de coisas, quando não, ludibriada, cooptada por ideologias, ou tentada por propostas que nos levam a tomar o relativo por absoluto, ou que nos levam a esquecermo-nos dos outros.

paisagem

É o que vemos na parábola que Jesus narra. Um homem se dá conta de uma grande colheita e se vê obrigado a pensar o que fazer.  A história de Jesus não faz nenhum interlocutor surgir, não aparece nenhuma referência a outras personagens, nem nos solilóquios do protagonista. É só ele e seu campo e sua colheita e seus celeiros pequenos e sua ideia de construir celeiros maiores e seu sonho de ter vida boa e comer e beber e descansar. Esse homem pensa apenas em seu bem estar, em sua comodidade e não aparece ninguém em seu campo de visão, a não ser ele mesmo e, por isso, não lhe ocorre dividir, partilhar.  Ele é escravo de si mesmo, tomando sua riqueza como o absoluto para o qual ele dirige todos os esforços, a fim de juntar mais e mais. É, verdadeiramente, um insensato. Um pobre rico, com celeiros grandes, mas cuja alma é uma tulha, entulhada de egoísmo e ganância.

Mas há um interlocutor na história de Jesus que finalmente aparece. Sua intervenção é uma explicitação de que a busca por assegurar a própria vida, por salvá-la (Mc 8, 35), fincando a própria segurança na riqueza, é loucura. Em outras palavras: servir ao dinheiro (Mt 6, 24) é, na realidade, uma insensatez; é assolar, ao mesmo tempo, a vida de tantos que precisam, guardando tudo só para si, bem como, não conseguir garantir a própria existência. O nome desse interlocutor é Deus e ele entra na história, não para condenar o homem, mas para acordá-lo de sua ilusão, pois, pensando em juntar e ter, possuir e guardar, manter e multiplicar, ele se torna num escravo; num homem desumano, propriamente, porque rico em propriedades, mas pobre na solidariedade; porque com grandes armazéns, mas de vida estreita. E para quem ficará tudo? Quem se beneficiará de todos os esforços desse homem?

Na verdade, repousar de todas as fadigas, comer e beber à saciedade, desfrutar de uma boa vida, parece ser o sonho edílico de todo homem. Carpe diem! Entretanto, o ser humano não é só anseio por bem-estar e vida boa. Aliás, bem estar não é mau, mas querê-lo só para si, sem pensar nos outros ou, pior, às custas dos outros, é ser escravo dele. Também não é muito consistente buscar que os outros também tenham uma vida melhor, a partir de um ressentimento, de um sentimento de culpa. Não é por que eu tenho oportunidades e os outros não têm e isso me culpabiliza, que ajudo. Nada disso. Antes, a solidariedade é um reconhecimento de que todos nós somos irmãos e que o ser humano para ser digno desse nome precisa cultivar o que ele tem de melhor: o amor fraterno, que sabe partilhar. É saber que todos têm direitos.

A cobiça é uma idolatria (Cl 3, 5) exatamente, porque faz o que deveria ser um meio (posses, dinheiro, propriedades) tornar-se um fim. Depois de terem virado um fim, os sentimentos, pensamentos e desejos ficam direcionados somente para tais coisas absolutizadas. Então valerá tudo, para conseguir o almejado; até perder a própria vida, tirando a de outros. Esquece-se do verdadeiro fim, o único Absoluto ao qual, direcionados os nossos pensamentos, sentimentos e desejos a vida não se perde, mas é redimensionada, é abundante (Jo 10,10): Deus.

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Por, Eduardo César. Diácono da Diocese de Uberlândia. Formado em Filosofia pela CATÓLICA, bacharel em Teologia pela FAJE (Faculdade Jesuita de Filosofia e Teologia-Belo Horizonte/MG). Atualmente vive o seu ministério na Paróquia São João Batista. Escreve reflexões a partir das Liturgias Dominicais para o ELODAFÉ.

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