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"Malévola": quando apenas o beijo de um amor verdadeiro é capaz de nos arrancar da solidão da morte

As fábulas são importantes. Das épicas gregas, passando pelas clássicas de Grimm até as modernas de Potter e Hobbit, elas cumprem a missão de nos educar. Desde a mais tenra idade, as crianças se envolvem com as estórias contadas por seus pais e professores. E, graças a essa pedagogia lúdica, elas podem se confrontar com valores e princípios tematizados nessas estórias, aparentemente sem maiores pretensões.

Está em cartaz, nas principais telas dos cinemas nacionais, o filme “Malévola” com a renomada atriz norte-americana, Angelina Jolie. O filme apresenta um conto de fadas às avessas, uma vez que “burla” o conhecidíssimo roteiro em que a bruxa é má e os príncipes e princesas são pessoas dignas e dadas ao bem. Aqui, nessa película da Disney, heroína e vilã se misturam. E não há bruxas feias, com narizes pontiagudos e verrugas enormes. Na verdade, é o contrário. A “fada madrinha”, apesar de ter asas e chifres, é extremamente bela e cumpre com diligência o seu ofício de proteger o reino.

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“Malévola” fala de valores como confiança, fé, esperança, ao mesmo tempo em que põe ao telespectador a questão: o amor verdadeiro existe? E é sobre ele que eu gostaria de comentar.

O amor é, antes de tudo, disponibilidade. É levar em conta o outro, sem se deixar cooptar por ele nem fazer dele uma extensão de si. O amor ocorre quando não estamos centrados unicamente em nós mesmos. Afinal, só conseguimos amar, de fato, quando em nossa vida, em nossa agenda e em nossas ocupações há espaços significativos para o outro. Mas é preciso atenção; há relacionamentos em que um não vive sem o outro. Isso não é amor, é dependência, infantilidade e total falta de alteridade. Quando se perde o mistério alheio que nos escapa, corremos o risco de fazer deste alguém uma propriedade nossa. E não faltam relatos policiais em que um, desprezado, sentiu-se no direito de extrair a vida daquele que julgara lhe pertencer. Uma vida inteira, e um será sempre um enigma para o outro. Pois, amar não é possuir. Amar é da ordem da decisão, livre, consciente, mas puramente intencional e que demanda esforço diário.

É preciso que se diga, com honestidade e coragem: o amor Shakespeariano assim como o dos folhetins novelescos fez um grande desserviço à compreensão do amor. Tal como é apresentado pela literatura ou pela teledramaturgia, causa asco e desgosto. Como crer no amor depois de somatizar “Romeu e Julieta” em nossas relações, por vezes carregadas do inverossímil e de igual violência?  É bem verdade que não falta drama à existência humana e seus matizes, mas daí apresentá-lo com feições unicamente de comiserações humanas é não compreendê-lo em sua totalidade. Depois, como acreditar no amor, caracterizado muitas vezes como piegas, insosso e surreal pela teledramaturgia? O amor se tornou produto barato e banal nas mãos da indústria cultural. Um filme romântico tem fórmula manjada. Vamos ao cinema para nos alimentarmos do mesmo. Quando foge um pouco à regra, enlouquecemos intelectualmente. Não vende e não emplaca. Daí, o “choro e ranger de dentes”.

Em outras palavras, não se compreende o amor senão na encarnação mútua que ele exige dos sujeitos na relação. Para amar, é preciso sair da abstração “sentimental” que nos faz desejar o onírico, enquanto o real pulsa suplicante do nosso lado. É preciso olhar demoradamente para o lado e se esquecer, às vezes, de si mesmo. Não dá para querer amar e continuar olhando apenas para o próprio umbigo. Ensimesmados, não notamos quando o outro nos interpela. Não faltam jovens que, ao saírem à procura do amor, entretém-se com suas próprias demandas e se esquecem de se perceberem na relação com o outro. Quantas relações fadadas ao fracasso pelo simples fato de não haver verdade no olhar, ternura na carícia e tempo para recepcionar quem ousou chegar um pouco mais perto. Uma proximidade que, portanto, nos faz fitar demoradamente o outro e enxergá-lo pela ótica do palpável, e não do idealizado.

Segundo alguns teóricos da literatura psicológica, o amor é um dado secundário, resultado da combinação de duas emoções primárias: a alegria e a aceitação. Gosto dessa soma. Sem alegria e aceitação, às vezes quase incondicional – digo quase, pois não se pode prescindir a razão -, o amor não ocorre. Primeiro, nós nos apaixonamos pela ideia do outro. Sentimos que ele ou ela nos é agradável. Gostamos da companhia, de ouvi-lo, e de estar simplesmente ao seu lado. A conversa flui e o riso acontece. Alegramo-nos. Sem estas nuances, o amor é carrancudo, egoísta, nebuloso e tenso. Não ganha fluidez e tampouco prospera. Seu fim é inevitável. Sem diálogo, os casais hão de se perder tão logo iniciem o relacionamento. Por isso, muitos deles ficam juntos durante anos no período do namoro. Mas, quando se casam, não ficam um ano juntos. A convivência não foi construída. Não houve entendimento suficiente nem conhecimento bastante para se perguntarem, com honestidade: Será ele mesmo?  Será ela mesma?

Jacques Lacan (1901-1981) dizia que, na relação, um mais um são três. O terceiro é a própria relação, e esta é construída por ambos. Daí, que o relacionamento não é exclusividade de um dos parceiros, muito menos a onipotência de um sobre o outro. Não se admite num encontro de dois em que um tenha a supremacia do encontro, enquanto o outro apenas se funde e se dilui para que o outro “aconteça”. Isso é opressão, anulação e exílio existencial. Se os dois que constituem a relação não estiverem convencidos e devotados a construírem o que acordaram como relacionamento, o fracasso, repito, será inevitável.

Às vezes, quando assisto matrimônios, gosto de olhar incisivamente para os olhos dos nubentes. Eu os olho na tentativa de encontrar aquele brilho que refulge dos nossos olhos quando estamos diante de alguém que amamos ou quando alguém nos fala de algo que apreciamos ou quando simplesmente estamos felizes demais com alguma coisa. Não poucas vezes eu me decepciono na empreitada. Houve vezes em que a noiva, preocupada demais com os flashes, sequer percebeu o noivo ou aquilo que eu tentava lhe dizer. E o noivo, com certo desdém ou ansiedade, não se ateve ao momento do encontro. Apesar do meu desapontamento, relevo. É que eu sou míope. Pode ser que eu não tenha visto, não tenha percebido o brilho discreto que havia em seus olhos. Quero crer.

Ao tomar-lhes os votos, reflito: como reivindicar eternidade – até que a morte os separe – de um homem e de uma mulher, ambos finitos, marcados pelo transitório e pela contingência da vida? Como é possível alcançar um ponto tão alto na escala das decisões humanas, e afirmar um sim que se pretenda para a vida toda, quando na verdade a vida exige de nós mudanças constantes?

É nesse momento que a teologia cristã me salva. Ela põe diante dos nossos olhos aquele amor que nos antecede a todos: o amor de Deus. É graças a esse amor que nos tornamos capazes de amar. Sãos as feições “crísticas” que corroboram nossa crença: ampara e assegura que aquele sim dado um ao outro não há de se perder na famigerada rapidez que devora tudo. Afinal, para compreender o amor é preciso tempo. Assim como é necessário lentidão para conhecer o outro e aprofundar o olhar em uma mesma direção. Sem pressa e sem atropelos. Do contrário, escolheremos um “poço” onde decidimos saciar nossa sede, mas, pode ser que ele esteja seco ou simplesmente não disponha daquela água que necessitamos. Ou, então, como quando decidimos cruzar por portas que estão cerradas para nós. Nós as esmurramos enlouquecidamente, mas elas estão fechadas a sete chaves. E, em ambas as metáforas, não nos damos conta de que há outros poços caudalosos e outras portas até mesmo entreabertas. Mas, por que elegemos esses, corremos o risco de desfalecermos ali mesmo, a metros do poço de águas limpas ou da porta aberta unicamente para nós.

O poeta Khalil Gibran, a respeito do amor, dizia: “quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados. E quando ele vos falar, acreditai nele, embora a espada escondida em suas plumagens possa ferir-vos…” O poeta hindu personifica o amor. Não como sentimento ou como coisa que o valha, mas como dom imerecido que, deliberadamente, escolhe os corações que irão transportá-lo. Não por que sejam dignos ou coisa parecida, mas por que foram alvos da eleição do amor, simplesmente. Nisso, eu concordo com o autor. Nem todos irão comportá-lo, assim como nem todos que estão juntos estão por que se amam. Há muita conveniência, conivência e comodidades. Entretanto, para alguns, o amor certamente “acontecerá”. Para outros, não ocorrerá. E isso é fato. E a vida segue. Sábios serão aqueles que não fizerem disso uma epopeia shakespeariana, mas se permitirem saborear a vida em outros amores que ela mesma é capaz de nos propiciar. Feliz de quem não apostar suas fichas em uma única forma de viver o amor. Às vezes, o amor nos vem de maneiras insuspeitas e por remetentes não cogitados. É preciso atenção para acolhê-lo, quando chegar. Melhor ter as lâmpadas sempre acesas e o azeite sempre ao alcance, pois, ninguém sabe a que horas virá o noivo (licença poética: cf. Mt 24,36).

E para não me esquecer da moral de “Malévola”, concluo: o amor sempre resgata o amado de si mesmo. E esta é sua maior façanha. O aprisionamento mais letal para o ser humano é o de se deixar encastelar em suas próprias “verdades”. Enquanto Malévola esteve presa nas delas, seu reino escureceu; o verde tornou-se opaco e seu semblante, antes leve, tornou-se pesado e frio. Naquele beijo tímido, mas preenchido de generosidade, não trouxe à vida apenas alguém. Ele ressuscitou também aquela menina cândida que se perdeu em meio às incoerências da vida.

Por isso, nenhum de nós está condenado ao sono sepulcral da morte por que fomos vítimas de um engano, de um trauma ou de uma desventura na arte de amar. É preciso ter a coragem de voltar ao castelo, encarar nossos leitos de morte e, se necessário, beijar nossas experiências afetivas mais gélidas ou já sepultadas. E mais. É preciso ter a audácia de revisitar nossas crenças, sobretudo aquelas nas quais fomos mais atingidos negativamente para, quem sabe, termos a grata surpresa do beijo que nos salva daquela causa mortis que não nos deixa mais crer na possibilidade de um amor verdadeiro. Afinal, ele pode estar mais próximo de nós do que imaginamos; mais dentro do que fora. Ei-lo. Quem tem olhos, veja; quem tem ouvidos, ouça-o.

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Por, Diácono Claudemar Silva

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