Destaque Palavra do Bispo

Maria, nossa Mãe, por Dom Paulo Francisco Machado

Maria, nossa Mãe
Dom Paulo Francisco Machado
Bispo de Uberlândia

Com o passar dos anos, quando os cabelos se tornam mais ralos e embranquecidos, insinua-se em nosso coração um certo saudosismo, porque só dispomos, bem guardado no inexpugnável cofre do coração, de um longo calendário do passado, enquanto se torna cada vez mais curto o desconhecido futuro. Por isto, peço licença para falar dos doces anos do seminário que me formou. Especialmente, guardo com ternura dois cantos marianos.

O primeiro era como um acalanto a embalar o meu sono de criança, adolescente e jovem. O canto fazia-me sentir a ternura materna e, então, recolhendo-me, dormia em paz. Era uma simples saudação à Mãe de Deus, honrada com o título de Nossa Senhora do Amor Divino, padroeira da minha casa formadora. Os versos bem simples, cantados em uma melodia, salvo engano, do maestro Furio Franceschini, repetiam, por três vezes: “Nossa Senhora do Amor Divino, rogai por nós”.

O outro, era um tradicional hino, uma antífona mariana, cujos versos se encontram nas nossas completas da Liturgia das Horas. Era cantado em Latim, muitas vezes até mesmo para iniciar viagem à passeio ou para as férias no Sítio São José do Oriente, em Secretário, Petrópolis: “Sub tuum praesidium confugimos Sancta Dei Genitrix/ Nostras deprecationes ne despicias/ In necessitatibus nostris/ Sed a periculis cunctis libera nos semper Virgo gloriosa et benedicta”. Tradução: “ À vossa Proteção recorremos/ Santa Mãe de Deus/ Não desprezeis as nossas súplicas/ Em nossas necessidades/ Mas livrai-nos sempre de todos os perigos/ Virgem Gloriosa e Bendita”.

O texto acima, um pequeno papiro, foi encontrado no Egito, no século passado. O sujeito do hino não é um indivíduo, mas uma comunidade que recorre a Maria em suas necessidades. Quais seriam estas necessidades? Não sabemos. Presume-se que se trata de perseguições movidas pelos pagãos. É confortante saber que a Igreja nascente entendia que a Mãe do Filho de Deus, Verbo Encarnado, realmente nos foi dada na cruz como mãe. Segundo as palavras do Quarto Evangelho, o Crucificado, se voltando para Maria, aponta o discípulo amado como o filho dela: “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo amado, disse à Mãe: “Mulher”, eis o teu filho! Depois disse ao discípulo: “Eis tua Mãe! ”

Maria é reconhecida como Santa, sem necessidade de uma declaração papal, que chamamos de “canonização”. O reconhecimento de sua santidade foi feito pela própria Igreja, Assembleia que reconhece em Cristo, o Senhor. Ela é a “Panágia”, a toda santa, a mulher corajosa que ofereceu sua vida, seu corpo e sangue para gerar, criar, educar e, sobretudo, amar o Salvador. O seu título maior é o de Mãe de Deus (Theotokos), conforme será declarada solenemente no Concílio de Éfeso.

É em vista desta maternidade divina, do entregar-se nas mãos do Espírito Santo, para que nela se moldasse a humanidade do Filho de Deus, que Maria Santíssima é agraciada com os títulos encontrados nessa antífona tão antiga: “Santa, Virgem, Gloriosa, Bendita”.

Hoje, com grande alegria, vemos em numerosas igrejas e capelas, homens que se reúnem para rezar o rosário, o conhecido “terço dos homens”. O profundo e piedoso sentimento de que somos filhos da Mãe de Jesus, vai gerando em nós uma cultura nova e tão necessária nos nossos dias: a “cultura da ternura”. Esta é, sem dúvida, uma das mais belas iniciativas populares da Igreja no Brasil. Queremos, estar na pupila dos olhos de Nossa Senhora e, com sua materna intercessão, desejamos ser discípulo, missionário, samaritano.

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