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Missa do Crisma, por Dom Paulo Francisco Machado

Dom Paulo Francisco Machado

Bispo Diocesano

 

Este é um momento muito especial para cada um de nós membros do clero da Diocese de Uberlândia, expressão de nossa unidade em Cristo e no serviço à sua Igreja, que é seu corpo. Para tanto, retornamos aos propósitos, às promessas de nossa ordenação sacerdotal, agradecendo a Deus o dom da vocação e a fidelidade no santo serviço à seara do Senhor.

No ano anterior, no intuito de reforçarmos a nossa confiança em Deus, em Jesus Cristo, convidei a todos – padres e diáconos – a visitarmos nosso passado nos seus grandes e mais significativos momentos, desde a convivência no seio da família, à entrada no seminário, as grandes etapas da formação, as ordens e os anos iniciais do pastoreio do rebanho de Cristo, que a Igreja Particular de Uberlândia lhes confiou.

O ano que se passou foi repleto de angústias que não cessaram, mas são acentuadas nestes três meses. Daí, penso ser oportuno visitar o passado, não o nosso, mas o de Jesus, na última ceia, quando o Senhor, ao instituir a Santa Eucaristia, deixa-nos, para o bem de sua Igreja, o poder de, em seu nome e agindo na sua pessoa, celebrá-la em memória de seu infinito amor pela humanidade, manifestado no mistério da Cruz e da sua Ressurreição.

Ao recordarmos os fatos, encontramos uma série de elementos que nos auxiliam para uma celebração mais consciente da Santa Missa, num serviço mais qualificado ao altar, sem esquecer que é o próprio Cristo, e não nós, o principal protagonista de cada rito litúrgico.

A última Ceia foi cuidadosamente preparada por Jesus, mesmo porque nela Ele dará o sentido, a significação de sua entrega à morte, àquele seu círculo mais íntimo, aos seus amigos: “Chegou o dia dos Pães sem Fermento, quando se devia imolar o cordeiro pascal. Jesus mandou Pedro e João, dizendo: ‘Ide, preparai-nos a ceia pascal, para que a comamos’. Eles perguntaram: ‘Onde queres que a preparemos?’ Jesus respondeu: ‘Ao entrardes na cidade, virá ao vosso encontro um homem carregando uma bilha de água. Segui-o até à casa onde entrar, e dizei ao dono da casa: ‘O Mestre manda perguntar: ‘Onde está a sala em que posso comer a ceia pascal com os meus discípulos? Ele então vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala arrumada. Ali, fareis os preparativos” (Lc 22,7-12).

Todas as igrejas, todas as capelas, todas as salas tidas como espaços celebrativos da Santa Eucaristia são Cenáculo, edificados com generosa oferta, com o esforço e suor dos fiéis. É o povo de Deus quem nos oferece esses espaços celebrativos, como aquele generoso e anônimo senhor do Evangelho, como muitas vezes é a doação da pequena moeda que constrói uma catedral. Por isso mesmo é que cuidamos como carinho de cada altar, porque dedicados ao Senhor e fruto do suor de pessoas generosas. Não temos dúvida do amor de predileção de Jesus por cada um de nós, e Ele que viveu as mesmas emoções e sentimentos nossos, sabe apreciar cada cuidado, cada gesto, e, até a mínima expressão de afeto pelo sacramento de sua doação, de seu amor por nós.

Sabemos pelos evangelhos, que Jesus se fez acompanhar por mulheres piedosas. Gosto de imaginar a presença delas na sala do Cenáculo e, especialmente, a de sua mãe. Pela atuação das santas mulheres aquele espaço se tornou agradável e carregado de ternura. Também hoje o cuidado com a celebração eucarística tem a marca, o envolvimento afetivo da genialidade e ternura própria das mulheres, presentes no devido asseio, na limpeza das alfaias, no canto, nas leituras, na acolhida aos fiéis.

Em dado instante daquela ceia solene, Jesus, tomando do pão e do cálice com vinho, pronuncia as palavras ainda hoje recitadas por nós: “Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e lhes deu, dizendo: ‘Tomai, isto é o meu corpo’. E tomando o cálice, deu graças e passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: ‘Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado em favor de muitos. Em verdade, não beberei mais do fruto da videira até o dia em que o beber, novo, no Reino de Deus”. (Mc14,22-25)

Nas palavras de Jesus, temos como que a síntese de toda a sua vida, uma existência entregue, doada, cujo ápice é o Mistério da Cruz, Mistério de amor. Selar-se -á assim, a nova Aliança. Nova, pela forma de ser instaurada: no seu sangue e não no de animais. É o homem verdadeiro e Filho verdadeiro que se deixa imolar na Cruz. Nova, também,  pela maneira com que participamos desta Aliança: bebendo o cálice da salvação.

As palavras da consagração sejam tomadas a sério por nós sacerdotes do Altíssimo. Elas não podem ser vazias de sentido e de amor ao povo que a Igreja nos confiou. Não podemos desprezar o dom concedido a nós padres de agir fazendo as vezes de Cristo. É com todo o cuidado e respeito, com as forças todas de nosso coração, que pronunciamos as santas palavras para transformar o pão no corpo santo e santificador do próprio Cristo. Palavras tão santas têm o poder de nos transformar em pão, vida consumida para o bem dos irmãos e irmãs.

Em momento subsequente, Jesus realiza um gesto inusitado a ser atentamente observado: “Jesus(…) levantou-se da ceia, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura. Derramou água numa bacia, pôs-se a lavar os pés dos discípulos, e enxugava-os com a toalha que trazia à cintura” (Jo 13,4-5). Conhecemos bem a cena e até mesmo compreendemos a atitude de Pedro no recusar-se a ter seus pés lavados pelo Mestre. Será preciso estar atento. Aquele ato de Jesus não era uma ablução ritual, observada pelos judeus numa ceia solene, pois, notamos que a ceia já se iniciara e mesmo, “Quem já tomou o banho, só precisa lavar os pés” (Jo13,10). A cena não é uma auto ablução cumprida por judeu piedoso, atento às leis sagradas, mas é o Senhor, o Mestre quem lava os pés de seus discípulos.

Certamente,  já ouvimos tantas vezes “Um gesto vale mais que mil palavras”. Jesus, então, quer deixar-nos uma mensagem para nunca ser esquecida. O gesto Dele tem um significado a ser vivenciado por seus discípulos, que pode ser traduzido numa única palavra: serviço. Temos no lava-pés uma expressão do serviço humilde, que foi toda a vida de Jesus e que, ao celebrarmos a Eucaristia somos instados a reproduzir. Cada missa é um convite que o Senhor nos faz a viver numa fraternidade marcada por um serviço humilde.

A memória, contida no coração de cada um de nós, nos estimule a viver os dias que nos são concedidos. Quando nuvens cinzentas pintam o nosso horizonte, não podemos negar a existência da pandemia, com suas dolorosas consequências para a Igreja Particular de Uberlândia e para toda a sociedade: espaços sagrados esvaziados, desérticos, pobreza, miséria, fome, dores, lágrimas, mortos enterrados sem o devido tempo de luto dos familiares, dorida e angustiosa solidão, ansiedade, desemprego, medo, muito medo que se transforma em fobia; mas, no meio desta catástrofe, ergue-se glorioso o Ressuscitado. É certo, a razão atira nossos braços esperançosos para a Ciência enquanto, ao mesmo tempo, a Fé e a Esperança dirigem nosso olhar confiante para o Pantocrator, “alfa e ômega” (Ap 1,8), chave interpretativa de toda a História

A cada Eucaristia deixemos, pois, que o Senhor nos lave os pés, nos purifique de nossos pecados, de nossas ambições e desejo de glória para servir com amor as ovelhas do Divino Pastor e, assim, termos parte com Ele na mesa do Reino.

Agora, renovemos nossas promessas do dia de nossa ordenação.

Confira alguns registros:

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