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“Missão em tempos de pandemia”, por Pe. Willians Soares

Missão em tempos de pandemia
Pe. Willians Soares Silva
Reitor do Seminário Santo Estevão

A Igreja no Brasil vive a tradição dos meses temáticos há alguns anos. Todos sabemos que em outubro o enfoque volta-se para as missões. Este ano, contemplamos o tema “A vida é missão” e o lema “Eis-me aqui, envia-me (Is 6,8)”. Embora seja comum a prática da motivação missionária, o contexto sempre carrega traços específicos a cada tempo. E a característica que mudou em muito nossas vidas nestes meses transcorridos de 2020 foi a pandemia do COVID-19.

Se entendemos missão como movimento de saída e fomos interpelados a viver a quarentena em isolamento social, de partida teríamos uma contradição e/ou um desafio. É e justamente sobre este aspecto da missão que iremos refletir. A pergunta que procuraremos responder elaboramos assim: como viver a missão em tempos de pandemia?

Parece-nos que o entendimento que liga a missão a dinâmica da desinstalação, da disposição em ao ir ao encontro dos outros, na saída em favor do anúncio e testemunho do Evangelho é plausível. Fica claro que em toda essa expressão a ideia de movimento. O que entendemos que ganha os contornos especificamente cristão é dizer qual dinâmica suscita a vivência da missão.

Toda missão brota da Trindade! O movimento mais originário da fé é o pericorético e este que deve ser sempre o que dá dinamismo para a missão. Por este movimento, o Pai, dom de amor, se dá em entrega amorosa e incondicional ao Filho; o Filho acolhe e responde ao dom de amor do Pai no enlace pelo Espírito Santo. De tal modo, nossa fé nos ensina que a confissão de fé em Um é invocação e participação na vida da Trindade.

A nossa confissão de fé em Jesus Cristo há de ser dom de entrega e confiança ao Pai, sustentados e conduzidos, no amor e na graça, pelo Espírito Santo. Conforme cremos, este é o movimento mais original e específico da fé cristã. Com isso, afirmamos por consequência que missão não é qualquer movimento. Por vezes, não é nem mesmo o mero sair como rótulo de missão. O missionário é aquele quem faz ressoar a Palavra de Deus, na ação do Espírito do Senhor que transpõe limites, barreiras e vai muito além de onde podemos chegar.

Missão é anúncio e testemunho do reinado de Deus. Quanto a forma deste anúncio queremos servir-nos da expressão do Papa Francisco “eu sou uma missão”. Essa afirmação muito bem se concilia com o tema do mês missionário, “a vida é missão”. A missão é, portanto, quem me torno na relação de fé e comunhão com Deus e com o próximo, tornados membros do corpo de Cristo, no modo viver a encarnação do mistério do Ressuscitado com todo ecossistema.

Em suma, missão não é um mero movimento, não necessariamente é um fazer, como se o ativismo soasse mais missionário. O que nos faz compreendermos que a missão não está em contradição com a exigência do distanciamento social. A missão é mais que do que nos servirmos das técnicas e das redes sociais. Nossa missão se constitui enquanto ser Igreja e não por meio de artistas da fé que cada vez mais querem ver brilhar seus egos.

Como vivermos, então, a missão em tempos e pandemia? Penso que a resposta seja tão simples quanto profunda, sejamos cristãos! O nosso modo de pensar, agir, falar, de viver o distanciamento se deixe plasmar na configuração com Jesus Cristo. Por Jesus temos acesso ao Pai e recebemos o dom de Espírito. A missão acontece em razão deste encontro fundamental que transforma nossas vidas e nos torna pessoas novas, transfigurados para relações que emanem da profissão fé e do testemunho. .

Os cristãos missionário são: aqueles que vivem o distanciamento social, porque assim estão em defesa do dom de sua vida e da vida do próximo; as pessoas quem têm feito deste tempo um propósito de conversão na reconfiguração de seus valores, ideais e sonhos à luz do Evangelho; os profetas que não se calam diante de tantas injustiças, especialmente para com os pobres, as mulheres, os negros, os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas, a Amazônia; as pessoas que se arriscam nos trabalhos essenciais; os fieis, consagrados e clérigos que oferecem suas vidas a serviço do reinado de Deus; todos que rezam e suplicam a Deus pelas vítimas da COVID-19 e por suas famílias.

São muitas as formas e possibilidades, apenas quisemos aqui ilustrar como a missão é vivida em tempos de pandemia. Neste sentido que rezamos e, unidos na fé, confiamos, nós te pedimos, Senhor, envia-nos!

*O artigo apresentado é de responsabilidade do autor.

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