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Não basta dar a "César o que é de César"…

Há um dado da teologia bíblica que percorre toda a Sagrada Escritura que, inclusive, fundamenta a fé de Israel: a unicidade de Deus. O monoteísmo é a síntese da fé e dos mandamentos judaico-cristãos: “Escuta, Israel, o Senhor vosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4).

Na relação entre Deus e o povo eleito, os profetas tinham a missão de ajudar o povo a compreender que Deus não admitia concorrente, pois era ciumento em seu amor. Daí, a oposição: Deus de Israel e os outros deuses dos povos vizinhos, como Marduc (deus dos babilônicos), Baal (deus dos cananeus e dos fenícios) e o Faraó do Egito que se considerava um deus, entre outros.

Por isso, num contexto de época em que os poderes terrestres se confundiam com os poderes celestes, o que hoje chamaríamos de política versus religião, a Liturgia da Palavra nos coloca dentro desta grande tensão: diante de um mundo que se curva aos poderes constituídos ou despóticos, que tipo de relação se deve ter para com as divindades ou, no caso do cristianismo que adora um Deus único, qual deve ser a nossa postura?

No Evangelho de Mateus, as palavras de Jesus não deixam dúvida (cf. Mt 22,15-21). Ao mesmo tempo em que explica, denuncia uma prática ainda hoje recorrente: não se deve atribuir a César o que é próprio de Deus, e vice-versa.

Os fariseus, mais uma vez, se aproximaram de Jesus para pegá-lo em alguma situação de contradição e incoerência. De um lado havia o poder romano que dominava e não aceitava insurreições. De outro, a fé judaica que se via profundamente incomodada com a miscelânea religiosa que a cultura romana provocava entre eles.

Ao se aproximarem de Jesus, os mestres da lei se utilizam de um palavreado muito conhecido da arte política: a demagogia e a retórica falaciosa. A verdadeira intenção estava escondida sob o véu do elogio fácil e bajulador. Jesus, no entanto, não se deixa enganar. Ele conhece os corações e sabe que, um coração transviado da verdade se bandeia facilmente para o caminho da mentira, do engano e da morte.

A real intenção dos fariseus é pelo silêncio de Jesus. Sua postura de profeta incomoda não apenas o sistema opressor. Incomoda, sobretudo, uma religiosidade que se prostitui com os poderes deste mundo, nem sempre compromissados com a verdade e com a realização plena da vida do homem.

A moeda que Jesus apresenta é trazida pelos próprios fariseus. Nela, estão inscritas a face de César e suas insígnias. Ela denuncia a presença dominadora de um homem e de um sistema que se colocaram no lugar de Deus. No entanto, esta equiparação é apenas aparente, pois, em nada, “os deuses dos pagãos se parecem com o Deus único de Israel”.

Uma política que tolhe a liberdade do ser humano, que cerceia sua consciência e o impede de ser protagonista de sua história não se configura em nada com o jeito de ser de Deus.

Na esteira da vida social, o cidadão deve se comprometer com os seus deveres: “Daí, dar a César o que é de Cesar”, sem se esquecer jamais de que entre o céu e a terra há um único Senhor Absoluto.

Um Senhor que, inclusive, para guiar a História não teme se valer daqueles que estão fora de seu projeto inicial.

O profeta Isaías nos apresenta o rei da Pérsia, Ciro, que desbancou o domínio da babilônia e garantiu aos exilados de Israel regressarem à sua pátria (cf. 45, 1. 4-6). Para fazer justiça ao seu povo, Deus unge até mesmo um pagão, isto é, alguém de fora do povo eleito. E não apenas o unge, mas o toma pela mão, lhe garante auxilio nas batalhas, arma-o como guerreiro invencível e o reveste de poder. No entanto, o verdadeiro rei, o comandante real que vai à frente de seu exército é o próprio Deus. Ciro é tão somente um instrumento nas mãos de Deus.

Também os políticos e a política são apenas instrumentos, nunca um fim. A ação transformadora não está nas mãos deste ou daquele político. Não importa muito quem vai à frente ou quem sai vencedor. O que importa, isso sim, é o grau de consciência política que adquire os cidadãos a fim de cumprir com diligência sua cidadania. Quando nos furtamos a isso, delegamos a outros o que julgamos ser necessário e importante para nós. Isso é loucura. Ninguém, nem mesmo os políticos de perto ou de longe, poderão saber com precisão o que interessa a todos. Daí que não adianta elegê-los e depois acusa-los de não agirem eticamente ou em benefício comum. Não dá mais para justificar nossa negligência política colocando a culpa nos políticos. Somos nós que, conscientes, preparados e ativos, iremos dizer-lhes do que necessitamos e exigir-lhes que administrem bem o que é nosso.

aecio e dilma

Vivemos tempos difíceis em todos os lugares e setores da nossa sociedade. A crise há muito instalada é estrutural. Ou começamos algo efetivamente novo ou então, como já vemos por toda parte, tudo o mais ruirá. O futuro que outrora almejávamos não existe mais. Aliás, nunca existiu. O futuro que desejamos começa agora. Precisa ser construído por mim e por você; por todos.

As esferas políticas estão contaminadas com o anseio do homem em ser deus. É ingenuidade pensar que um único ser humano será capaz de sanar nossos problemas comuns. Salvadores da pátria não existem. A transformação que reivindicamos está em nossas mãos e na luta que empreendemos todos os dias.

Para tanto, a consciência política e o interesse por aquilo que efetivamente interessa a todos não resultará por que fomos às ruas e gritamos com plenos pulmões que estamos descontentes com esta ou aquela ação política. Ainda que isso seja válido e louvável. Isto fazemos também no carnaval e nas manifestações sem maiores compromissos.

Mais do que conteúdo é necessário conhecimento de causa. É preciso não nos acovardar nem tampouco nos comportarmos como crianças birrentas que choram e se esperneiam quando não lhe fazem as vontades. Não podemos nos esquecer em quem votamos, mas isso é ainda pouco. Precisamos ter a coragem de nos reunir e somar forças para, juntos, dizer-lhes, àqueles que estão na ponta da pirâmide político-social, o que é necessário que seja feito desde a base. Afinal, democracia é também isso: o governo sob o aval da maioria, respeitando os direitos da minoria. Sem este compromisso, continuaremos à margem do sistema ou então delegando a outros o nosso direito de termos vida plena.

Não basta dar a César o que é de César. É preciso ter a coragem de olhá-lo nos olhos e dizer-lhe de nosso incômodo, de nossa insatisfação e de nossas convicções pelas quais iremos decididamente lutar.

Paulo, em sua carta à comunidade de Tessalônica, comunidade que ele fundou junto com Timóteo, recorda-lhes do testemunho que lhe deram da atuação na fé, do esforço por viver a caridade e da firmeza que possuem na esperança (cf. I Ts 1,1-5).

Que também nós, cristãos de hoje, possamos nos deixar tomar pelos mesmos ideais que moveram os primeiros cristãos e não nos furtemos mais deste mundo, prenhe da glória de Deus, nosso único e verdadeiro Senhor, mas sejamos responsáveis por ele até as últimas consequências.

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Por, Pe. Claudemar Silva

1 comentário

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  • Texto muito oportuno e pertinente.
    Realmente: “não basta dar a césar o que é de césar”, mesmo porque no tempo atual, tão conturbado com inúmeras teorias, ” verdades” , “deuses”, “césares” é muito difícil saber o que é de césar e quem é césar. Mas o que é do verdadeiro Deus está bem claro no Evangelho e está inscrito também no coração de cada um: a boa fé, o amor e o respeito ao irmão, o trabalho sério e responsável, o comprometimento com o bem. A fragilidade humana existe, mas lá no íntimo de cada um se destaca a imagem de Deus, sob a qual fomos moldados.

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