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"Não percamos o mistério do menino": Homilia de Pe. Eduardo César na Missa do Galo

Hoje, quando celebramos a Vigília do Natal do Senhor Jesus, eu gostaria de evocar aqui, em primeiro lugar, o cenário do presépio, tão caro à nossa religiosidade popular. Não para falar de Maria ou de José, não ainda. Nem para falar de Jesus, que merece certamente nossa principal atenção, hoje. Embora, não ainda.  Mas para falar do boi e do jumento, sempre colocados ali, quando nos lembramos daquela humilde estrebaria.

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O boi não é animal qualquer. Recordemos, por exemplo, que para muitas famílias, o gado bovino é sinônimo de riqueza; ou o quanto o touro, que é o macho com capacidade reprodutiva é símbolo de vigor. Uma das maiores expressões folclóricas de nosso país, o bumba-meu-boi, expressa quase religiosamente, que o boi é companheiro dos trabalhos, sinal de resistência dos escravos, contra os senhores de engenho.

Já o jumento padece de má fama. Sinônimo de estupidez e burrice, seu nome é aplicado a muita gente estulta. Mas, o animal é muito conhecido e tem contato muito antigo com a espécie humana, além de não ser nada estúpido. Já foi considerado meio de transporte e era dado como herança e tomado por bem valioso. Luiz Gonzaga, ícone da nossa música popular brasileira defende bem o animal, na sua música Apologia ao Jumento citando inclusive o grande Padre Vieira, dizendo: “o jumento é nosso irmão”. E continua: “É o Desenvolvimentista do sertão. E o homem o que lhe dá, em troca? Pau no lombo, pau nas pernas. O bicho é bom, o homem é mau”.

Afinal, porque estes animais estão ali, ladeando aquela mulher que, com poucos paninhos e uma montanha de ternura[1], arrumou um lugar para nosso Senhor? Por que estão eles ali, próximos daquele homem fiel e vigilante, que o imaginário popular pinta como um pastor, segurando um cajado, homem guiado pelos sonhos, pelos céus e pela terra?

Talvez o profeta Isaías, esse trovador das fantasias humanas, esse profeta sagaz, seja capaz de nos responder: “O boi, conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor.(Is1, 3)” Provocativo, não? Que nós homens, “ricos” e vigorosos, resistentes e inteligentes, mais do que o boi e de que o jumento, criadores de cultura e técnica, sejamos incapazes de saber onde repousa o nosso Senhor.

Onde repousa o Senhor? O Senhor de nossas vidas, de nossa história, de nosso coração? Onde o terão colocado e recostado sua cabecinha de recém-nascido, ele que não terá lugar para recostar a cabeça (Mt 8, 20)?

Ele não encontrou lugar entre nós, diz o evangelho de sua infância. Será assim, sempre, quando os nossos sonhos nos vierem visitar, quando nossas esperanças tomarem forma e carne: trataremos de bani-las para as periferias da nossa existência? Não acolheremos o que sempre desejamos nas moradas de nossa vida, mas sempre o relegaremos para as estrebarias, para as margens, para que continue sendo sempre uma utopia? Será verdade aquela acusação que fizeram contra o ser humano: a de que ele não está preparado para encontrar, o que sempre desejou encontrar? Que tudo o que ele anseia, ele trata de afastar quando vê sua aproximação?

Talvez, por isso, ainda hoje, precisemos de anjos. De mensageiros, mas de Deus. Esses que são expressão de Deus mesmo; uma das suas muitas formas de atuar. Anjos para nos apontarem o caminho; anjos que nós podemos ser, que ainda saibam que o homem – por pior que seja –é amado por Deus. Anjos que digam, enfim, o que depois de todas as jornadas de nossas buscas, nos é dado encontrar: um recém-nascido, envolvido em faixas, deitado numa manjedoura (Lc 2, 12).

Alegremo-nos todos no Senhor, hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz[2]! Nossa alegria finalmente é deter nosso olhar na manjedoura de nossa história, muitas vezes paupérrima de sentido, carente de razões, cheias de incertezas e percalços, de durezas e tristezas e ver, que sobre essa manjedoura, resolveu deitar-se o próprio Deus, tomando nossa carne, fazendo-se humano como nós, assim como dizem alguns textos teológicos: enumanando-se. Com isso, Deus nos diz uma verdade, muitas vezes silenciada nessa noite: Ele quer compartilhar nossa vida conosco, sofrer conosco nossos percalços, enfrentar conosco nossas dúvidas e incertezas, chorar nossas lágrimas, rir nossas alegrias. Humanizando-se para ser, de uma vez por todas e com excelência: Deus conosco.

Mas, será isso verdade: que Deus se tenha tornado humano como nós? Temos mais facilidade de ver em Jesus sua divindade e quase sempre nos esquecemos de sua humanidade. Ou pior: nós que já não vemos mais em nós, humanidade, não duvidaríamos também que ele pudesse se tornar o que já não somos mais? Não somos muitas vezes piores que o boi e que o jumento? Mais ferozes que o leão e a onça; mais venenosos que as serpentes; mais traiçoeiros que as raposas; submissos como as ovelhas; esquivos como o lobo; tramando como as aranhas; asquerosos como as larvas; inoportunos como os insetos? Não são, entretanto, numa inversão de lógica e de sentimentos, os animais, muitas vezes, melhores do que nós? Nós o dizemos, popularmente, quando afirmamos confiar mais nos animais do que nos homens. Os cães, por exemplo, leais como ninguém, dão demonstrações de fidelidade que faltam a muitas pessoas. Humano como nós…? Não somos nem isso, humanos, dirão.

Pois, está aí a razão de nossa salvação, uma vez e sempre. Que Deus aceite a densidade de nossa carne, para revelar-nos o Humano que nós somos e ainda não descobrimos, ou nos esquecemos. Deitado sobre a manjedoura, portanto, não repousa o mistério de Deus, empobrecido na carne de um bebezinho, apenas. Repousa o mistério de todo homem e de toda mulher: o mistério de ser humano. Olhando para a manjedoura descobrimos a profecia do que seremos. Descobrimos o que nos devemos tornar: gente. Estamos todos em processo de humanização, afinal, e ainda não apareceu o que seremos… Será preciso que a nossa história e existência ainda encontrem o segredo daquele recém-nascido, para que passem da animalidade e violência, à verdadeira humanidade. Devemos nos tornar gente, é claro, não porque não o sejamos: fomos criados, à imagem e semelhança da humanidade que desde todos os séculos habitava junto de Deus. Mas, tendo se encarnado, Jesus Cristo nos mostra o que desde todos os séculos estávamos predestinados a ser: demasiadamente humanos, ricos em humanidade, peritos nesse assunto. E sem culpabilizações, sem ingenuidades, sabemos que precisamos dar largos passos.

Não nos percamos, portanto, do mistério do menino, deitado na manjedoura. Era noite: noite não é quando vai o sol e as trevas cobrem o mundo e, em meio a sombras, já não conseguimos mais caminhar? Fazia frio, é o que diz a piedade popular. Frio não é o que sentimos quando estamos no desabrigo, sem ninguém ou nada para nos dar calor e proteção? Fora de todas as hospedarias, na estrebaria, é o que nos dizem as escrituras. Não é o que padecem tantos, expulsos do convívio dos homens, rejeitados? Entre os animais, é o cenário que montamos sempre. Pois, não é assim como nos sentimos, entre inumanidades?

Não nos percamos, não deixemos escapar o mistério do menino… Era noite, mas brilhou nas trevas uma grande luz. E mesmo que o sol se vá, jamais a vida será apenas trevas, pois as estrelas nos recordam que brilha, de agora em diante, uma luz que jamais se apaga.  Fazia frio, mas entre carinhos e cuidados, é possível aquecer com ternura, os que não encontram abrigo, assim como fizeram Maria e José. E aos rejeitados, desprezados ou esquecidos, o menino revela a velada presença do Eterno amor que a todos quer, mesmo os que já se sentem perdidos em desumanidades.

Se esse menino, frágil e grácil, a graça de Deus entre nós, puder ainda despertar em nosso coração o desejo de cuidado… Se ele ainda puder fazer insurgir em nossa lógica pétrea e em nossa alma férrea, um pouco de delicadeza e cordialidade, de cortesia e gentileza… Se aquele bebê dormindo aos cuidados de sua mãe e pai, ali na noite escura de Belém, ainda puder encher nosso coração de alegria, será mais uma vez, ou talvez finalmente, natal.

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Por, Pe. Eduardo César

[1] É a expressão que o Papa Francisco usa para falar do natal do filho de Deus em sua Evangelii Gaudium.

[2] É o que nos diz a antífona de entrada da celebração da Vigília do Natal.

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