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Não tenham medo de Maria!

“Padre, posso reverenciar Maria sem trair Jesus?”, perguntou-me uma fiel católica. Pedi tempo para pensar.

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Eu cresci em um lar católico. Desde cedo, minha mãe nos ensinou a confiar na “boa mãe do céu”. Ainda pequeno, sem entender muita coisa, sabia, por ouvir dizer e por aprender em casa, que lá, onde mora o “papai do céu”, morava igualmente uma mãe. Cresci com esta confiança pueril.

O tempo passou, eu cresci e veio a Teologia: a boa teologia jesuítica. Aprendi que Maria é a primeira redimida do Senhor. E que toda a sua vida está para a vida do Cristo. Ela, como a lua, sinaliza para nós, cristãos católicos, o grande Sol de Justiça que é o Cristo. Os primeiros padres da Igreja tinham afeição por esta imagem: a lua que recebe luz e calor do sol, e, por isso, ilumina a noite mais densa, testemunhando-nos que, em algum lugar, o Sol continua a brilhar, firme e forte.

De fato, a lua não tem luz própria e, sozinha, nada representa. Mas como é bela a luz do luar em noites de lua cheia. O céu é um convite a ascendermos, a olhar em sua direção e a sonhar com as melhores coisas que se pode pensar.

Maria, diziam os santos padres, é a figura da Igreja já em seu estágio de plenitude: pura, sem rugas, sem manchas, sem pecados, assumida plenamente pelo Senhor. Como Maria, elevada à glória de Deus, assim é a Igreja que peregrina neste mundo em busca da fidelidade àquele anúncio que o Seu Esposo Divino lhe incumbiu: anunciar a todas as gentes a sua mensagem salvadora.

A presença de Maria nos Evangelhos é uma presença discreta, porém decisiva. Basta vê-la ativa no primeiro milagre de Jesus naquela festa de casamento, em Caná, ou ainda na cruz, em que de pé demonstra sua confiança inabalável em Deus (cf. Jo 2, 1-11; Jo 19, 24ss). Eu aprendi que o bom Deus de Jesus Cristo não descarta as criaturas, seja ela quem for. Até mesmo o pior dos piores, os mais delinquentes, aqueles que julgamos perdidos e sem esperança, Deus, como o Pai Misericordioso, alcança-os com o seu olhar e seu abraço acolhedores. Aguarda-os constantemente e os convida à mudança de vida, à conversão. Afinal, para Deus, alguém que cometeu um crime ou se transviou do bom caminho não é um “perdido”, mas ainda um filho, amado e querido, que cometeu crimes, é verdade, mas ainda filho.

Ora, se aos pecadores Ele convida a partilharem de sua glória, o que pensar daqueles que lhe foram obedientes e solícitos durante toda a vida? Não, a vida junto de Deus não é prêmio, mas Graça. Porém. a convivência com um amigo leal e fiel é algo que acalanta o nosso coração. Também o de Deus. Se aos discípulos Jesus lhes garantiu que todo aquele que tiver deixado tudo para lhe seguir ganharia já nesta vida o cêntuplo e, na vida futura o Reino dos céus (cf. Mt 19,29), o que dizer de Maria que viveu totalmente centrada em Deus e para Deus?

Eu penso Maria como uma escola: a escola onde se aprende a ser como Jesus. É próprio de mãe formar os seus filhos. Ela não apenas os ensina a andar, comer, lavar-se, falar, mas ensina, sobretudo, a obedecer e servir a Deus. Enquanto criança, Jesus ouviu de Maria e José, seus pais, as primeiras informações a respeito de Deus. Certamente, eles o levavam para fora, nas noites quentes daquela Nazaré antiga, e lhe apontavam o céu estrelado, indicando-lhe de onde viera. As abóbodas celestes sempre foram referência para falar do lugar de Deus. Jesus cresceu tomando consciência de sua origem e de seu destino[1]. Quem o ajudou neste processo foram também os seus pais.

Ao celebrarmos a Virgem Maria, em tempos de tanto receio e perturbações de fé, é preciso de novo recordar o fundamento da nossa esperança.

No universo, tudo gira ao redor do Sol. Ele dá vida e harmonia a todos os demais astros e seres celestiais. Sem ele, e o seu calor e luz, a vida não vinga, não prospera. Tudo morre. Sua presença e ação no cosmos, e a partir dele, são inquestionáveis. Nada nem ninguém, ainda que queira, jamais poderá lhe furtar o seu lugar.

A devoção a Maria, chamada carinhosamente de Nossa Senhora – como em Minas, ao menos no interior onde se chamava as mulheres de “Sá” e aos homens de “Sô” – não sequestra de Jesus a sua glória nem a sua divindade. Maria de Nazaré, ou como queiram chamá-la nos seus inúmeros títulos que a piedade popular ousou lhe conceder (N. Sra de Fátima, de Aparecida, de Lourdes, etc), continua sendo a predileta do Pai: “não temas, Maria. Encontraste graça junto de Deus!” (Lc 1, 30). É que toda decisão de Deus é eterna e não pode ser de outro modo. Esta é uma de suas características: eternidade. Por isso, desde sempre, Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) tomou a firme decisão de vir ao mundo por meio de um ser humano. Também esta é uma das muitas pedagogias de Deus: não fazer nada sozinho, desprovido de comunhão ou partilha. Ele tem a sábia mania de tornar cooperadores seus as criaturas que criou (cf. Gn 1, 27-31).

Daí, que a decisão por Maria precede, inclusive, o chamado “pecado original[2]”. Ele a escolheu, preservou e convidou. Não foi o pecado do homem que pressionou a encarnação de Deus. É o contrário. Foi o Seu amor decidido por nós, desde a eternidade, que o fez tornar-se homem-servo para elevar-nos à sua condição divina (cf. Fl 2, 1ss).

A atenção que a Trindade dispensou àquela pobre menina de Nazaré contrasta, ainda hoje, com as opções que consciente ou inconscientemente somos capazes de fazer. Deus não quis vir por uma nobre, mas dignificou ao status de rainha aquela que o concebeu. Não almejou alarde em sua chegada, mas tornou célebre aquele instante. É que o olhar de Deus é intransferível: “olhou para a humildade da sua serva…”. E, uma vez que Ele nos olha, o seu olhar nos encoraja e nos anima a servi-lo mais de perto.

Todavia, o olhar de Deus não coage nem intima; propõe. Somos livres, radicalmente livres, para dizer-lhe: sim ou não. Maria disse sim. E por que disse sim, tornou-se referência para todos os demais outros discípulos – seguidor – que, como ela, ousaram deixar tudo para encontrar o Tudo de suas vidas.

Desconfio que a verdadeira devoção a Maria, mãe de Jesus, como o evangelista João a apresenta, não se traduz em estereótipos nem em modelos pré-fabricados. A sincera devoção à mãe do Filho de Deus leva o fiel, necessariamente, a um encontro profundo e transformador com a pessoa de seu filho, Jesus Cristo. Na oração ritmada do terço, como nas contas da vida, de forma cadenciada, vamos abrindo-lhe o coração e a vida. Entre um mistério e outro do rosário, assim como no transcurso de nossa existência, Maria nos ajuda a percebê-lO em nossa história: ora em momentos singelos e decisivos, permeados de gozo, ora em momentos dramáticos e de dor ou ainda naqueles nos quais nos sentimos encorajados por sua luz e sua Ressurreição.

Sempre que encontrei devotos de Maria, recordava-me de minha mãe. Sou suspeito em dizer, mas a oração constante à “boa mãe do céu” a tornou mais simples, dialogante, fraterna, bondosa e disponível ao perdão. Aumentou nela a confiança na presença de Deus e no seu cuidado por todos. E, em suas orações diárias, sempre intercede por aqueles que julga necessitar da Graça de Deus. Quando lhe pergunto quem a ensinou tudo isso, me responde: foi Maria.

Por que temer alguém que nos ajuda a nos parecer com Deus? A ser e agir conforme a Sua Santíssima vontade? Por que desprezar a mãe se o Filho nos ensinou que até mesmo aos nossos inimigos devemos amar e orar por eles (cf. Mt 5,44)? Por que temer Maria se o que ela nos fez foi nos trazer Jesus?

_______________

Por, Pe. Claudemar Silva

[1] Destino quer dizer: servir e obedecer a Deus, até as últimas consequências.

[2] Santo Agostinho dizia que o “pecado original” nos faz perder a semelhança com Deus, mas não imagem.

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