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“Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20, 3)

Dizer que os cristãos católicos não adoram imagens já se tornou lugar comum, assim como a acusação infame de que nós as adoramos.

O ser humano é dado a acreditar naquilo que quer e no que melhor lhe convém. Ás vezes, acreditamos por conveniência, outras vezes por comodismo e tantas outras por ignorância mesmo. Mas também podemos não crer, e até odiar, não por que seja fruto da nossa reflexão apurada e consistente, mas por que outros nos granjearam tal verdade como certa e nós, cansados demais para pensarmos por nós mesmos e ir um pouco mais fundo na questão, resolvemos crer no que nos disseram, simplesmente.

Não é de hoje que somos acusados de “adorar imagens”. Tenho a impressão de que a discussão não chega nem à marca do aceitável. Precisaríamos aí do mínimo de conceitos: adorar, venerar, honrar, apreciar, amar, reverenciar e tantos quantos a linguagem humana nos possibilitar citar. Confesso que me faltam tempo e “estômago” para ir ao encontro da maioria desses. E pior: receio que aqueles que estão “convictos” do contrário não estão lá muito dispostos a dialogar sobre a questão, ao menos seriamente. Aliás, dialogar é outro verbo e conceito importantíssimos que tem faltado em todas as rodas de conversa por esse mundão afora. Tolerância e respeito são outros.

Entretanto, é preciso dizer o elementar. A proibição bíblica está dentro de um contexto. E tudo quanto é retirado daí, além de deturpar o texto e fazê-lo dizer o que ele não diz, é uma violência para com a palavra escrita – que dó – além de constituir uma falsidade.

Os textos bíblicos evocam a experiência de um povo – Israel -, chamado por um Deus pessoal que os arrancou das garras da opressão e apresentou-lhes a possibilidade da Liberdade. Entretanto, esse povo se deixa “prostituir” com as divindades dos povos vizinhos – Egito, Mesopotâmia, Síria, etc -, que, longe de conhecerem aquele Libertador, adoram estátuas – bezerros de ouro, p. ex – elevadas à condição radical de divindades.

Não quero e não posso negligenciar que há muitos exageros em alguns lugares de devoção católica. Um pouco de Teologia não nos faria mal. Mas, daí dizer que pelo simples fato de termos imagens – de pessoas que tiveram suas vidas marcadas pelo encontro com Deus – em nossas Igrejas, lugares de culto ao Altíssimo, nós as adoramos, é, no mínimo, faltar com a verdade.

É lamentável constatar que o ódio que se perpetua, e tem feito história em nosso país, é fruto da intolerância e do fanatismo religiosos. Se entre nós, ditos cristãos, não houver a razoabilidade da fé que nos faz éticos, respeitando-nos uns aos outros, como haveremos de anunciar a Boa-Nova do Reino num mundo mergulhado na violência, na guerra e na mentira, e que nos critica, com razão?

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“Imagens são apenas o que são: ‘imagens’”, como canta Pe. Zezinho. Aqui em casa, eu devo ter ao menos umas dez. Não as adoro. Nunca as adorei. Tenho imagens de santos, de fábulas japonesas, da mitologia grega, indígenas, africanas, ao lado de pôsteres de meu pai – já falecido – de familiares e amigos que tanto amo. Nunca, em momento algum, eu devotei a elas qualquer simbólica que ultrapassasse o senso da razão e da fé. Olhando-as, especialmente as de conotação católica, elas apenas me ajudam, tanto melhor, a elevar minhas preces ao único e verdadeiro Deus a quem adoro e sirvo. O mais é admiração, beleza e arte.

Por isso, a fé é dom e possui um dado intrinsecamente pessoal. Se eu ousar imputá-la a alguém, estarei me opondo àquela proposta a que até mesmo Deus, em Jesus Cristo, se impôs. Até mesmo os ateus, com sua firme decisão de não crer como creio ou no que digo crer, contribuem para que eu, como crente, dê razões plausíveis do que digo possuir (I Pd 3,15).

É preciso chorar e lamentar pelas bestialidades que ainda se perpetuam, as quais, infelizmente, nem mesmo a razão e a fé autêntica parecem ter conseguido dissipar das consciências pouco aclaradas.

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Por, Diácono Claudemar Silva

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