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O Corpo de Cristo: um corpo de carne

Ao celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo – Corpus Christi -, a primeira coisa a ser dita é que Jesus tinha um corpo. O corpo identifica uma pessoa: sua origem racial, sua nacionalidade e até sua religião. Também pelo corpo é possível identificar a procedência familiar; os traços físicos denunciam: “esse menino tem a cara do pai, da tia…”. O corpo pode ainda apresentar um contexto social: rico ou pobre, magro e esbelto ou com medidas que fogem ao padrão preestabelecido pelas leis rígidas da moda e do comércio. O corpo, em última instância, representa a primeira “propriedade” de uma pessoa: eu sou um corpo. Porém, eu posso não me identificar com o meu corpo, desejando assim um modelo diferente do meu. Mas não tem jeito: onde quer que eu vá, eu o levo comigo; ele me pertence.

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Também no corpo trazemos marcas da nossa história: cicatrizes da infância, marcas cirúrgicas, “defeitos” congênitos ou “deficiências” adquiridas. Nossas lembranças, todas elas, de violência ou de amor, vão ficando gradativamente marcadas em nosso corpo. Nosso semblante muda e ganhamos feições de maturidade e, apesar das técnicas modernas, nossa pele tem uma idade que não é possível apagar: somos resultados do tempo. O corpo nos delata. Aos poucos perdemos a jovialidade, a dinamicidade e nos sentimos tomados pelo cansaço dos anos, das experiências vividas e da luta diária que travamos. O estresse do dia a dia deixa em nós consequências profundas para a vida e para a nossa saúde: somatizamos a dor, adquirimos uma ferida estomacal, uma desordem nas células, e um desajuste nos órgãos; enfim, adoecemos. E na morte, eis um corpo inerte.

Nessa gama de realidades é que se descortina para nós, igualmente, o corpo de Cristo: um corpo que, doado, dado, tornou-se dom, doação. Jesus foi Senhor de seu Corpo. Só assim é que Ele pôde nos dar aquilo que, de fato, possuía: o seu corpo de carne. Mas não só. Jesus, ao dizer-nos: “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue… TOMAI e COMEI”, deu-nos algo ainda mais profundo: concedeu-nos Sua Vida e, com ela, tudo quanto viveu e construiu por meio do Senhorio de sua existência em atenção ao Pai, na força do Espírito Santo.

Daí, entendemos que a vida de Jesus ganhou contornos de Salvação por que, em toda a sua trajetória terrestre, Ele procurou cumprir a vontade do Pai, a saber: construir, neste mundo, os valores inalienáveis, intransferíveis e inegociáveis do Reinado de Deus. Em tudo, Ele não voltou atrás. Ao longo de sua vida terrena, procurou solidarizar-se com aqueles com os quais encontrou pelo caminho. Ousou sarar os corações feridos, libertar do cárcere os aprisionados pela mentira, pela injustiça, pela miséria e pela opressão. E, em tudo, fez a maior de todas as doações: doou vida [a sua vida] para quem estava à beira da morte ou, morto, decompunha-se à margem do sistema homicida de seu tempo. Afinal, não há expressão de amor maior. Ele o disse: “não há amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Ao celebrarmos Corpus Christi, o cristão é também chamado a ser dom-Eucaristia a fim de alimentar aqueles que, diariamente, gritam por um pedaço de pão e um pouco de justiça; por saúde, por educação e por cultura; moradia, paz, tranquilidade e pede por perdão e é carente de amor. Enquanto nossas ações destoarem da vida daquele que se entregou sem medidas, na desmesura do seu amor por nós, estaremos longe de romper com a cultura de morte, de violência, de tristeza e de dor ainda presentes em nossa sociedade. Eis, portanto, o tapete mais belo em que Ele deseja percorrer: nossa vida-eucaristizada. Ousaremos abrir-lhe passagem?

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Por, Diácono Claudemar Silva

1 comentário

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  • Mais uma vez me envolvo em suas belas palavras, hoje na missa de Corpus Christi o Diácono Marco Aurélio fez a leitura do texto que vc escreveu, e mais uma vez suas palavras veio tocar meu coração e de todos que a ouviram. Que Deus continue usando vc como instrumento para escrever palavras doces e que nos encantam tocando em nossos corações.
    E mais uma vez seu questionamento me fez parar e refletir, se abro passagem para Ele em minha vida?
    Deus o abençoe sempre?

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