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O cristão católico pode participar do carnaval?

Sempre que se aproximam festas consideradas pagãs, como o carnaval, eu sempre me lembro de um texto do início do cristianismo intitulado: “Carta a Diogneto”.

Nesse texto, o autor, provavelmente um pagão, escreve a um tal “Diogneto”, talvez o imperador da época, Adriano (117-138 d.C), dando-lhe informações a respeito do modo de proceder dos cristãos. Em um dado momento da carta o autor diz:

“Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. […] Pelo contrário, vivendo em casa grega e bárbara, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. […] Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. […].”

O mais impressionante em todo o texto é a referência à ética dos cristãos. Eles não se esquecem que são cidadãos e, ao mesmo tempo, se comprometem com o mundo, assumindo-o para transformá-lo naquilo para o qual fora criado: manifestação da ternura e da amizade de Deus, tal como um jardim – éden -, florido e bem cuidado, onde o criador vem passear com a sua criatura (cf. Gn 2,8ss). Em nenhum momento há evasão do mundo ou indiferença a ele, tampouco o demonizam. O cristão não se diferencia porque se opõe irrefutavelmente àquilo que é proposta mundana, mas pelo modo de, inclusive, se entremear na carnalidade do mundo para dar-lhe corpo, de preferência ressuscitado e transfigurado a partir da vida nova assumida no Cristo (cf. II Cor. 5,17).

O carnaval, como se sabe, era uma festa dedicada “às carnes” no período que antecedia a quaresma, tempo de penitência, jejum e oração para os cristãos. De origem que remonta à Grécia antiga, foi assumido no período romano, depois do século IV, quando Constantino oficializou a religião cristã como a do império, a fim de se desfrutar daquilo que, no período quaresmal, ficaria proibido. Era, portanto, uma antecipação de tudo o que se pretendia viver: “deliciemo-nos agora, pois amanhã, com certeza, morreremos todos” (F. Nietzsche). Era a supressão antecipada da experiência de carestia e de falta que estava por vir. Uma permissão, portanto, ao devaneio e à loucura dos glutões, sem pudor. O carnaval se configurava, então, como um culto ao desvario e à inconsequência, aos prazeres momentâneos e frívolos, antes da abstinência religiosa.

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Todavia, o carnaval de outro modo evidencia algo ainda mais profundo e que merece atenção: fala do grande desejo do coração do ser humano, tão antigo e sempre novo, tão remoto e tão atual: o desejo de ser feliz. As canções, as fantasias, as marchinhas e a aparente suspensão de tudo revelam este desejo latente de viver uma vida inteiramente livre, desprovida de pesos e sem o amargor dos dissabores e revezes da vida humana. Num curto prazo de tempo, tudo parece inteiramente ressignificado: a dor, a injustiça, as impunidades, o sofrimento, a miséria, a violência, o desespero humano e a morte.

Se o grande desejo do coração humano é pela felicidade, então talvez o mais correto fôssemos nos perguntar: “o que é a felicidade?”.

Os antigos gregos diziam que “ser feliz” é ter uma vida virtuosa, longe dos vícios e plena de equilíbrio. E que esta virtude deve se manifestar no mundo, podendo ser vista por todos e a todos deve transformar. A chamada “paz estóica” era um convite à imperturbabilidade da alma. Nada sofrer nem demais nem de menos. Hoje, diríamos: nem tanto o céu, nem tanto a terra. As paixões – aquilo que nos afeta – deveriam ser tratadas com certa distância, com um bocado de prudência, sem nos deixarmos invadir demais por elas. Salvaguardando-nos de muitos “quereres”, aspirássemos tão somente pelo trivial, pelo simples e pelo cômodo – aquilo que melhor se acomoda em nós -. Uma vida, na verdade e feliz, portanto, era uma vida plena de realidade e não de fantasias ou ilusões insólitas.

O grande mal que se contrapõe à felicidade, segundo Sócrates, é uma vida irrefletida. Num diálogo seu, Fédon, afirma: “Digo-lhes que não deixem passar um dia sem falar da bondade e de todos os outros assuntos sobre os quais vocês me ouvem falar, e que investigar a mim e aos outros é realmente a melhor coisa que um homem pode fazer”. Investigar a si mesmo, isto é, buscar o autoconhecimento e o conhecimento em si, pois, sem o conhecimento que nos revela nossa ignorância, o homem é incapaz de ser feliz. Sem se conhecer, a vida torna-se imerecida, dirá Sócrates em outro momento. A felicidade, nesse sentido, é saber por que se alegra ou por que se entristece.

Em sua obra “Confissões”, Santo Agostinho, por sua vez, afirma: “ama, e faze o que quiseres”. Mas continua: “Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos”. Logo, a felicidade está na prática do amor – caridade -, isto é, no esquecimento de si e na contemplação do outro: do Outro [Deus] e do outro [semelhante]. Afinal, ninguém veio ao mundo para ser feliz, ipso facto. Paradoxo, não? Viemos ao mundo para viver. Isso, sim! E viver será, muitas vezes, esquecer-se de si. Disso, lembrou-nos Jesus Cristo ao apontar-nos como modelo de amor o “bom samaritano” que, esquecendo-se de si e alterando sua rota, pôs-se a servido de alguém caído à beira da estrada, pelo chão. (Cf. Lc 10, 33ss).

Mas, a pergunta inicial ainda continua lá, aguardando um parecer que soe, ao menos, plausível. Vejamos:

Paulo, diante do burburinho que surgiu na comunidade de Corinto, a respeito das carnes oferecidas aos ídolos, e que depois eram vendidas nos açougues da época, afirmou:

“[…] sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só. […] para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele. Mas nem em todos há conhecimento; porque alguns até agora comem, com consciência do ídolo, coisas sacrificadas ao ídolo; e a sua consciência, sendo fraca, fica contaminada. […] Ora, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta. Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos. Porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize” (1 Coríntios 8, 4.6-8.10-13)

A comida ali, no texto, dir-se-á das carnes oferecidas aos ídolos. Mas aqui, em nossa contemporaneidade, pode ser perfeitamente metaforizada para tudo o mais, inclusive para as festas de carnaval e similares. Daí que caberá sempre, ao cristão, o discernimento e o bom senso e, sobretudo, sua postura firme e ética onde quer que esteja.

De fato, ir a uma festa, baile, ou carnaval de rua não é nenhum problema. Antes, dependendo do lugar, é quase “um pecado” o não comparecimento; como em Salvador-BA ou Tiradentes-MG, por exemplo. Estando nessas cidades e se negar a ir, olhar, dançar, cantar e se alegrar será, no mínimo, uma falta de sabedoria – saborear a vida -. Afinal, serão experiências únicas e indescritíveis.

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Todavia, estando ali, muitas serão as propostas, evidentemente. Teremos que acatá-las todas, como criança que não sabe dizer não? Por ventura o colorido da festa e o som das músicas serão capazes de nos retirarem a lucidez e a justa medida de todas as coisas?

Na alegria advinda do carnaval é preciso, antes, fazermos aquela experiência mais profunda, capaz de calar nossos clamores mais submersos: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos no Senhor” (Fl 4,4). Afinal, um coração entristecido, amargurado, descontente e que não se permite viver as vibrações próprias do riso, da dança, do canto e do encontro festivo com o outro, jamais experimentará aqui o que um dia, no céu, celebraremos sem fim. (Cf. Sl 118).

Portanto, se “um cristão católico pode participar do carnaval?”, a resposta é evidente: Claro que sim! E mais: estando ali, não se pode esquecer de testemunhar que sua alegria não se conclui na quarta-feira de cinzas, mas se estenderá para além do aparente, uma vez que provém de uma fonte borbulhante e que se renova sem se deixar esgotar: vem de Deus e ela não terá fim.

Bom carnaval!

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Por, Pe. Claudemar Silva

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