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Pe. Geraldo Gontijo: 14 anos a serviço da Igreja Particular de Uberlândia

Hoje eu quero falar de vida; e não apenas falar, mas quero salmodiá-la, pois, “se Deus nos deu voz, foi para cantar” (Floberla Espanca).

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Permitam-me, neste dia em que, de novo, fomos despertados do sono mortis, evidenciar a vida em sua continuidade mais visível, mais pulsante, visto que a podemos ver, sentir e tocar. Não é que eu seja cantor ou poeta. Não é preciso sê-los. Não é que eu tenha capacidades de poder fazê-la, simplesmente. Não cabe autorização. Mas é que, sentindo a vida como eu a sinto e, vivendo a vida que eu vivo, não poderia me calar. Do contrário, se eu não me fizer discípulo dela, como poderei ouvi-la quando ela me chamar?

De fato, enganamo-nos se pensarmos que há homilia mais bela, exegese mais precisa ou narrativa mais bem contada do que esta: vida. Não. Não há aventura mais radical nem missão mais irrecusável do que esta: viver! Afinal, podemos olhá-la assim de perto, de frente e reconhecer que a “sofremos” indubitavelmente. E ela não é difícil nem simples, nem complexa nem trivial; é apenas isso: vida que segue vivendo, como rio que segue seguindo em direção ao mar, sem peias, sem fadiga, sem enfastio. E ela, livre, não se prende nem se deixa prender. Contorce-se e se reinventa; migra e se desvela. Sábia que é, a vida sempre encontra um jeito novo para, vivendo, existir verdadeiramente.

Porém, não me atrevo à métrica dos matemáticos, saberes antigos, nem à rima de versos precisos, parnasos, para dizer o que julgo a pena contar. Daí é que me pergunto: quantas vidas haverá em uma vida que não vive unicamente para si? Ora, se é verdade que “amar é mudar de casa” (Mário Quintana), não deveríamos migrar-nos um pouquinho para infinitas outras casas, e constantemente? Afinal, nossa vida é “o lugar teológico” por excelência aonde Deus vai desenhando sua presença, suas teografias. Não há melhor lugar, mais próximo e palpável, em que os vestígios divinos se deixam evidenciar real e pessoalmente. Inscrever-se é também um modo de ficar. E Ele fica; em nós, dentro em nós e conosco para, assim, ver como vemos, amar como amamos e doar-se como doamos. Ele nos ensina e aprende. No fim, Pericorese. Dançamos todos juntos uma bonita canção de roda.

A síntese bíblica, da gênesis ao escaton de tudo, compreende-se numa única palavra: vida! Mas não qualquer vida, mas sim, uma vida efetivamente vivida, doada, “esmagada” como trigo, transformada como pão, triturada e consumida como alimento para o “hoje” da existência de si e de tantas outras, senão estraga-se, borola-se, aliena-se e morre. E esta hermenêutica não vale apenas para dizer o factual, o que nos levaria a um grande engano: faltar-nos o brilho dos olhos e a diástole do coração, pois não pode ser apenas sangue e veias, ar e pulmões, tampouco pés e mãos, a delinear um corpo, embora dinâmico e só. Não. É mais; muito mais.

Se se pode falar de algo, falemos, pois, do pulso de vida que lhe dá tranco e a faz vivenciar e vivificar todas as coisas. Se é oportuno algum corte vital, ainda que singelo, falemos daquelas vidas que se imolam sobre o altar da existência para, como no “Santo dos santos”, armarem suas tendas a fim de hospedarem muitas outras sob suas vigas, debruçando-as em seus umbrais. Estas vidas, doadas, não são igualmente kénosis? Não são também Eucaristia – ação digna de ser celebrada, honrada – já que se partilham? Convivendo com elas, tal como na ceia eucarística, não nos tornamos também – realmente – naquele que continuamente comungamos e convivemos?

Então, é fato que há vidas que são feitas “alimento” para saciar outras vidas de tantas fomes. Há vidas que são fonte borbulhante a saciar tantas sedes e há vidas que são feitas bálsamo para suavizarem muitas dores. É que estas vidas não se pertencem: são expressões daquele transbordamento que as irmana àquela outra Vida – verdadeira – na qual se vivem e pela qual já não morrem mais. Quando identificadas com esta Vida e dela são partícipes – colaboradores -, então já não temem mais a ordem que diz: “[…] Sai da tua terra, do meio de teus parentes, da casa de teu pai, e vai para a terra que eu vou te mostrar” (cf. Gn12,1), por que o lugar do pertencimento, às vezes estático e certo, e a lógica da vida são agora uma máxima ilogicamente vivida: não se viver mais para si.

Tais vidas, por saberem que por não se prenderem às sombras do tempo e do espaço, podem partir, sempre que convocadas, transfiguram-se em pontes; deixam-se percorrer. E, ao longo do caminho, podem reconhecer quão silenciosos são os lírios que, ao crescerem, deixam-se vestir pelo mais fino gosto daquele que os revestem a cada manhã (cf. Mt 6,24ss). Há uma beleza em viver assim… Reconhecem também que o sol, ao despontar resoluto no horizonte, não é apenas um astro luminoso. Mas, ao incidir seus raios sobre “toda e qualquer” vida, recorda-lhes: “vós sois a luz do mundo…” (cf. Mt 5,14) e assim, aquecidas e despertas do sono que teima em “sonambolizar-nos”, acolhem um sabor novo e o dão a quantos na vida encontrarem.

E assim, o lírico, a melódica, o ritmo, a rima e o silêncio nessas vidas ganham novos códices. E tal vida, sentida, vivida e salmodiada, ganha contornos de prece, de louvor e de oblação. São símbolos daquela Vida infinitamente maior que, recebendo-as, doxologicamente, transfigura-as no da existência para refletirem a luz nova e o odor novo da eternidade. Vidas assim, inteiras, não podem, efetivamente, serem olvidas.

Parabéns, Pe. Geraldo Gontijo*, por sua vida, há 14 anos, tornar-se “alimento” para tantas outras existências. Isso é viver.

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Por, Diácono Claudemar Silva

 

*Pe. Geraldo Magela Gontijo é reitor do seminário de teologia da diocese de Uberlândia-MG na cidade de Belo Horizonte-MG e celebra hoje (04) o seu 14º ano de ministério presbiteral.

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